Quase 30 anos depois, quem é o assassino da Rua Cuba?

A casa onde tudo aconteceu naquela noite de 1988 (Foto: Cerchiari/Folhapress)

Por Renato Lombardi

O plantão na véspera de Natal indicava que seria um dia calmo. Mas o telefone toca. Era o rapaz que trabalhava no setor de rádio escuta do  jornal. O Estadão, onde eu trabalhava, tinha uma central de informações onde repórteres ouviam o noticiário das emissoras de rádio. Ficavam na escuta dos rádios de comunicação das polícias, faziam a chamada ronda dos distritos policiais a cada hora. E sabiam de tudo o que acontecia na cidade.

— Renato, deve ter algo de “bom” porque encontraram um casal morto dentro de uma casa no Jardim América, na Rua Cuba. Tinha tiros para todo o lado, contou um dos apuradores.

"Bom" no jargão da reportagem policial é um grande crime, um acidente de proporções, sequestro, incêndio E desde o momento em que deixei a redação o agito durou dias, semanas, meses. O caso ficou conhecido como o "Crime da Rua Cuba". Um casal, pai de três filhos, fora encontrado morto no quarto onde dormia. A porta do quarto estava fechada à chave. A janela da varanda do sobrado, que dava para a rua, estava encostada. Foi preciso uma escada para que policiais militares alcançassem e tivessem condições de olhar para o interior do quarto. Um dos militares observou que os moradores estavam na cama cobertos por um lençol. Na rua composta de grandes casarões alguns moradores, familiares do casal, empregados das casas vizinhas, policiais, foram se aglomerando.

O delegado que atendia a ocorrência, ao entrar no quarto, achou que era um homicídio seguido de suicídio. Marido matara a mulher e se matara. Ou mulher matara o marido e se matara. Mas, quando o perito criminal chegou e observou melhor o quarto e a cama, alertou o delegado. Tinha tiros no chão, na cabeceira da cama e nos corpos. E não havia arma. Era um duplo assassinato. A mulher, professora, filha de um dos principais criminalista de São Paulo. O marido, um advogado filho de libaneses donos de um grande comércio em Porto Velho, Rondônia.

Dos filhos do casal, o mais velho estava ausente. Saíra no final da madrugada com destino à casa da namorada. Os outros dois — um menino e uma menina — e a empregada dormiam quando tudo aconteceu. Não tinham ouvido nada. Nem mesmo o cachorro da família teria latido, segundo o vigia particular da rua. Ele sempre ouvia os latidos do cão. Naquela madrugada chovera muito, o vigia ficou numa cabine próxima da casa número 109, onde morava a família Delmanto-Bouchabki — marido, mulher, e os três filhos.

Com o decorrer das semanas a polícia e o ministério público concluíram que o filho mais velho, estudante de Direito, era o autor do crime. Segundo as apurações ele vivia em conflito com os pais que cobravam mais empenho nos estudos e discordavam do namoro. O rapaz foi indiciado pelos assassinatos. O ministério público o denunciou. Mas a Justiça, depois de uma batalha travada entre o promotor Luiz Antonio Guimarães Marrey e o advogado do acusado, o jurista José Carlos Dias, acabou impronunciando o rapaz. Isto é, inocentando. Não havia, no entender do juiz, provas no processo que o apontassem como responsável pela morte dos pais.

Em sua decisão o juiz alertou que se houvesse algum fato novo com o decorrer do tempo o processo poderia ser reaberto. Para a Justiça ficou a dúvida: quem matou o casal? A polícia e o ministério público nunca tiveram essa dúvida e sempre afirmaram que o filho mais velho do casal era o autor do crime. O rapaz saíra bem cedo dizendo que deixara os pais e os irmãos dormindo, fora para a casa da namorada, com quem foi ao Jardim Zoológico. Vinte anos depois uma promotora tentou reabrir o caso pedindo novas investigações. A Justiça não concordou. A prova não apareceu e o crime prescreveu.

O crime da Rua Cuba rendeu centenas de reportagens. Livros foram escritos.  É destaque sempre na literatura criminal. A família da mãe do acusado — dona de uma banca importante de advocacia criminal  de São Paulo — cobrou das autoridades a apuração para a identificação do “verdadeiro culpado”. Ela sempre acreditou na inocência do neto.  O jovem inocentado pela Justiça continuou com sua vida. Formou-se em Direito, montou seu escritório e formou família. A interrogação vai ficar para o sempre: quem é realmente o autor do crime da rua Cuba?