Truculência do coronel Erasmo Dias irritou até os policiais militares

O coronel Erasmo Dias em imagem de 1977, em São Paulo (Foto: Folhapress/Folhapress)

No post anterior aqui do Arquivo Vivo você viu Percival de Souza comentando os 40 anos da invasão da PUC-SP promovida pelo coronel Erasmo Dias. Agora é a vez de conhecer uma outra história deste mesmo personagem. Acompanhe.

Por Renato Lombari

Antonio Erasmo Dias foi um secretário da segurança polêmico em São Paulo de 1974 a 1978. Coronel do Exército, engajado no combate ao que os militares rotulavam de terrorismo nos anos 60, fora encarregado de chefiar às polícias civil e militar paulista. Truculento, gritava com seus subordinados e se cercara, em seu gabinete, de oficiais e ex-oficiais do Exército.  Costumava dar incertas em delegacias e quartéis da Polícia Militar. Era temido pelas suas atitudes muitas vezes arbitrárias.

Nas suas andanças pelos quartéis da PM notara que muitos soldados, cabos e  sargentos faziam parte das bandas musicais, outros trabalhavam como barbeiros cortando o cabelo dos praças e dos oficiais. Com a criminalidade em alta, Erasmo decidiu que poderia dispor de mais militares no policiamento e ouviu de um de seus colaboradores que deveria acabar com as bandas e também com  os "salões" de barbeiro. Num boletim interno da Polícia Militar, Erasmo anunciou o fim dos salões de corte de cabelo dos quartéis e de todas as dependências da milícia. E pretendia fazer com que voltassem para o policiamento junto com os integrantes das bandas. A PM tem grupos de músicos utilizados em festividades da corporação e em eventos públicos quando solicitados.

Quando eu soube da decisão fui entrevistar Erasmo para o jornal o Estado de S.Paulo, onde eu trabalhava. A repercussão da matéria foi grande. Os oficiais da PM se mobilizaram. Deputados estaduais e federais se engajaram na luta contra a decisão do coronel do Exército. As associações de soldados, cabos, e sargentos protestaram. Depois de muita discussão Erasmo foi convencido a deixar as bandas funcionando.

Mas seguiu em frente com a sua promessa e fechou os "salões" de barbeiro determinando que os policiais fossem designados para o policiamento de rua. Obrigou os militares das bandas a voltar para as escolas de soldados, cabos e sargentos.  Deveriam entrar em forma para que, em caso de necessidade, se engajassem no policiamento preventivo repressivo de combate a criminalidade. Os cortes de cabelos  de graça foram banidos da corporação.

Nas circulares que mandou para as unidades da Polícia Militar, fez questão de ressalvar que os militares deveriam procurar barbeiros em seus bairros e pagar o corte e a barba.  Alegou que o governo já pagava a farda, os  sapatos e os quépis. Numa das solenidades da corporação, meses depois, a banda musical que iria se apresentar deveria tocar o hino nacional. Os músicos quando viram Erasmo Dias no palanque se  recusaram. Seria insubordinação? Nada. Os militares-músicos disseram que como o secretário não gostava das bandas não teriam motivo para tocar.

E Erasmo não teve coragem de mandar punir mesmo com o regulamento da corporação severo e constatando que era uma infração grave.  Erasmo deixou a secretaria da segurança, se tornou político — deputado federal, estadual e vereador. Nunca mais se cortou cabelo e barba em qualquer setor da Polícia Militar. Erasmo morreu em janeiro de 2010, de câncer, aos 85 anos.