01 dez
21:14
“CONSTRANGIMENTO NACIONAL”
PAIXÃO X ÉTICA: NO DUELO QUE NINGUÉM ESPERAVA, QUEM VAI VENCER?
Estamos diante de um fato que nunca antes se viu neste país. Não em plena decisão do campeonato brasileiro de futebol. Enquanto uns torcem ferrenhamente pela vitória do inimigo, outros pedem fervorosamente que o seu time do coração entregue o jogo para o adversário. O Flamengo não tem nada a ver com isso, mas a dupla Gre-Nal vive uma semana pesada, de troca de farpas, de insinuações e, acima de tudo, de questionamento ético. De tudo o que se tem comentado até agora, sobram poucos fatos. Poucos, porém, perturbadores. A entrevista de Souza, na saída do gramado, após o jogo de domingo, foi um exemplo de como não se deve agir, de que em boca fechada não entra mosquito. Um profissional não pode dizer, como ele disse, que pretende “entregar” o jogo para o adversário visando prejudicar o seu maior rival. Não um profissional. Mas, cá entre nós, Souza está errado? A declaração dele aos microfones choca, mas, ao mesmo tempo, faz sentido. Afinal, é exatamente isso o que o torcedor do Grêmio deseja. E o torcedor é movido pela paixão. E a paixão, que é o combustível do futebol, nunca se encontra com a razão, nunca.
O dilema não existe para os dirigentes, simplesmente porque não pode haver dilema diante de um desejo consumado, que é o de jamais mover esforços para favorecer o maior rival. Mesmo que isto signifique correr o risco de uma derrota. Então, não há dilema, há, sim, uma posição lógica tomada à revelia da paixão do torcedor. O Grêmio vai a campo contra o Flamengo apenas para cumprir tabela e nada mais. Mas, que ninguém pense que lá no vestiário algum dirigente ou mesmo o técnico vai pedir aos seus jogadores que entreguem o jogo. Isso não existe no futebol profissional. O que pode haver e ai sim estaria dentro da lógica da razão, é uma desmobilização natural, com jogadores titulares dando lugar aos reservas. E até juniores sendo chamados para o jogo. E isso está errado? É antiético ou imoral?

Sinto muito, mas até eu, colorado delirante e apaixonado, tenho que admitir que não. Tudo isso faz parte dos mandamentos da razão. E se a direção do Grêmio agisse de forma diferente, estimulando seus jogadores, mantendo os titulares e indo ao Maracanã motivado, nós teríamos um problema na outra ponta: os torcedores não os perdoariam por dobrar esforços em nome do rival. Ao Inter, resta primeiro, fazer a sua parte e vencer o Santo André, o que não me parece nenhuma proeza, mas merece redobrada atenção, já que o time paulista também precisa vencer em Porto Alegre. E depois, torcer para que a incapacidade do Flamengo se some a outro fator, que vou descrever agora, e que me parece, este sim, decisivo para tudo o que vai acontecer domingo: me refiro ao interesse embutido no caráter e na personalidade dos jogadores do Grêmio que vão enfrentar o Flamengo.
Aos jogadores, dentro do campo, caberá a decisão do que fazer. E, ao que me consta, não existem atletas determinados a perder um jogo. Porque ali, no confronto, diante das câmeras, não haverá justificativa para corpo mole, já que isso seria uma mancha definitiva na carreira de quem assim se comportar. Também não faz parte da natureza humana entrar numa competição para ser derrotado, humilhado e apontado como marionete, cumpridor de ordens, sejam elas quais forem. Mas isso vai estar dentro da cabeça de cada jogador, ali, naquela hora, dentro do campo, diante de 90 mil torcedores adversários, que só esperam pela festa e que até contam com a colaboração do adversário. A reação de cada um, qual será? Isso, nós só vamos descobrir domingo. Eu não gostaria de estar na pele dos jogadores do Grêmio neste dia. E você, que resultado espera no duelo entre paixão e ética?
Hilton Britto Jr.












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