29 mar
17:37
“O JORNALISMO FICOU MAIS CHATO”
Eu tive sorte.
Pertenço a uma das últimas gerações de jornalistas que estiveram sob a batuta de Armando Nogueira. Haviam grandes repórteres, mas o maior nome, o nome que todos reverenciavam era o do chefe e o chefe era ele.
Um mito que a todos nós comandava e, principalmente, inspirava.
Naquele período, o estilo que impressionava as redações seguia os mandamentos de Armando. Nos grandes eventos, especialmente os esportivos, os telejornais da Globo sempre terminavam com um texto dele.
Um texto apoteótico, quase uma poesia, narrado pelas melhores vozes da casa. E ao texto, que arrancava suspiros de todos, invariavelmente, se seguia o famoso “boa noite” de Cid Moreira. Aliás, era comum o telejornal provocar lágrimas de quem estava em casa, só assistindo, e aplausos de toda a redação.
E eu, como a grande maioria dos repórteres, perseguia aquela maneira de contar as notícias. Muitas vezes, construia um texto todo rebuscado e depois me dava conta de que o assunto da minha reportagem não comportava tudo aquilo. Era obrigado a optar por uma saída mais simples.
Por influência de Armando Nogueira, os noticiários da TV tinham uma certa leveza e, mesmo diante dos acontecimentos mais dramáticos, não assustavam tanto quanto hoje. Mas, como nada é permanente, em algum momento, o jornalismo tomou outro caminho.
A regra, agora e já de alguns anos, é não deixar o telespectador respirar, não dar-lhe chance de trocar de canal. E, para isso, é preciso ser o mais direto possível, evitar detalhes considerados de menor importância e “metralhar” o pessoal da poltrona com o máximo de informação no menor tempo. Não me cabe aqui discutir se isso é certo ou errado, afinal, o objetivo continua sendo o de informar, mas, e disso não tenho dúvidas, o telejornalismo está bem mais “quadrado”.
E não será nenhuma ofensa concluir que, com a ausência de Armando Nogueira, o jornalismo ficou mais chato.
Britto Jr.












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