Eu entendo o João Gilberto. Quer dizer, entendo e não entendo. Mas me divirto com esse autoexílio dele, que gera tanta polêmica na mídia. A ira de alguns, agora, é porque compraram ingressos caríssimos e o show foi adiado. Querem o dinheiro de volta. Na verdade, não dá pra ter certeza de que estes shows vão rolar, mesmo. Tomara que sim, porque eu gostaria de ver. Adoro Bossa Nova e o João Gilberto é um dos poucos remanescentes ainda na ativa. Lenda viva. E pode ser a última chance de vê-lo ao vivo, no palco. Estes que estão reclamando do adiamento e exigem a devolução do dinheiro porque não poderiam comparecer em outra data, estão cobertos de razão. Eles estão com o código do consumidor debaixo do braço e a lei precisa ser cumprida. Mas, com todo o respeito, este público que reclama balançando o manual do PROCON talvez não seja mesmo um público merecedor do João. Gente que reclama do adiamento do show do João não nasceu para assisti-lo. Pra compreender o incompreensível João Gilberto, não se pode evocar leis e códigos de conduta ou coisas deste tipo, atreladas ao mundo do politicamente correto e do bom senso. Para tentar entender o que se passa na cabeça do mestr0e, é preciso ser pouco maluco também, como parece ser o João. Ele não é deste mundo. Acontece que eu me divirto com tudo isso. E até não concordo com muitas coisas que o João NÃO faz (é assim mesmo, coisas que o João não faz, porque se ele nunca aparece, logo, como poderia ser criticado por fazer algo que a gente não vê?), mas me identifico com este tipo de irreverência silenciosa cultivada por ele. São poucos os que podem ser famosos e consagrados sem sair do quarto. Este nosso mundo atual precisa de figuras assim, enigmáticas. As coisas andam muito mecânicas e padronizadas e, portanto, o João é um personagem que se destaca por ser único.
Acho que é o modo dele protestar contra todas as coisas com as quais ele não concorda, mas que, de vez em quando, é obrigado a engolir pra sobreviver. O João é para muitos, e ao mesmo tempo é para poucos, pouquíssimos. Ele se tranca lá naquele apartamento no Rio de Janeiro ou em algum lugar incerto e não sabido e fica cantando baixinho, tocando o seu violão e saboreando a histeria geral que a ausência dele provoca na mídia. Deve ter delirado com as reportagens que saíram nos jornais, com depoimentos de vizinhos que o descrevem como uma pessoa difícil (imagina só, será mesmo?), que encomenda o almoço sempre no mesmo restaurante e tal. Tenho certeza de que ele se diverte com a repercussão do seu sumiço. É uma espécie de vingança sabe-se lá contra quem, exatamente. Todos gostariam de ser uma mosquinha pra ir lá ver o que o João anda fazendo e dizendo sobre todos os assuntos. Eu compreendo sua rebeldia, e lembro de outros artistas rebeldes, como o Tim Maia e o Belchior. Aliás, por onde andaria Belchior? Será que já voltou do Uruguai? No fundo, no fundo, muita gente se identifica com o protesto silencioso do João, um foragido da mídia. Enquanto o senso comum é de que o artista tem que estar em todos os lugares, nas revistas, nas festas, na TV, ele oferece à mídia um autoexílio permanente, que, enfim, também dá o que falar. E é por compreendê-lo, João, que eu também me dou o direito de cometer um pequeno ato de rebeldia em relação a você. É o seguinte: não vou comprar ingresso pro seu show antecipadamente de jeito nenhum. Primeiro, quero ver até onde vai chegar essa história que está nos jornais. Será mesmo que o show do gênio da Bossa Nova vai ficar vazio porque o ingresso ta muito caro? Confesso que o meu último ato de rebeldia foi ter na mão dois ingressos para ver o Paul McCartney em São Paulo e desistir de ir faltando uma hora pra começar. Mas, com você, João, vai ser diferente... Eu vou desistir de desistir.

João no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, em agosto de 2008 (foto: AE)
Britto Jr.
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