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27
set
10:01

O golpe do autógrafo

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Tem coisa nesta vida que só se entende quando acontece com a gente. O sentimento de ser pai, por exemplo, só ganha sentido no dia e na hora em que o filho nasce. Antes disso, nem os nove meses de gestação, nem o barrigão da esposa crescendo e ocupando lugar na cama, nem o aviso de que a bolsa estourou, nem nada, nada mesmo é suficientemente capaz de fazer o homem compreender a dimensão daquilo tudo. Mas, quando o rebento  vem ao mundo... aí sim, o grito daquele pedaço de gente parece que é o despertador que nos acorda para este novo capítulo da existência. Quer saber o que a gente sente ao ser pai pela primeira vez? Faça um filho que você descobre, porque contar não adianta nada. Entra por um ouvido, sai pelo outro e o gol do time do coração continua sendo mais importante.

Dei somente um entre tantos exemplos que poderia escolher sobre esse negócio de só se compreender certas coisas fazendo parte delas. Mas, vamos ao ponto: fui escolhido por um amigo do alheio. Sim, fui assaltado e o ladrão roubou o meu relógio e o meu celular. Assim, em menos de trinta segundos, eu virei mais um número nas estatísticas da violência.

Mas qual é o charme desta história, que se repete a cada minuto com pessoas diferentes em todas as cidades deste país ? (Aliás, cuidado porque o próximo pode ser você!) Bem, talvez a maioria de anônimos não precise se preocupar com o golpe do qual fui vítima, mas todos vão achar curioso o que me aconteceu. 

Se não por outro motivo, pelo ineditismo do golpe. 

Eis que, após uma tarde inteira trabalhando dentro de um estúdio, chega a hora de ir embora para o merecido descanso do guerreiro. A ironia começa pelo fato de que, por razões de segurança, resolvi deixar o carro na garagem de casa, já que a produtora não dispõe de estacionamento. E, como se sabe, carro estacionado na rua é um convite para o ladrão... 

Faço o sinal para o primeiro táxi que surge naquela fileira sem fim de automóveis na Avenida Brasil (São Paulo). Era um carro novo, recém chegado à praça. Nem aquela película escura que torna motoristas e passageiros invisíveis ele tinha. E aí foi o primeiro passo para a armadilha em que cairia logo em seguida. 

Sim, porque vamos combinar...! Um apresentador de TV passeando dentro de um carro sem vidro escuro é quase como um apresentador de TV desfilando em cima de um trio elétrico ou de um caminhão de bombeiro! Mas ali, distraído com o rádio, e batendo papo com o taxista, que ainda esbanjava orgulho pela aquisição daquele carro novo, nem me dou conta de que acabara de virar “ presa fácil” para os olhos curiosos dos amigos do alheio. Sabe aquelas aves de rapina, sobrevoando o terreno em busca de carniça? É mais ou menos assim que funciona nas ruas, sem que a gente possa perceber.   

Trânsito parado. São seis da tarde, hora em que ninguém anda. Só os motociclistas. Ah, os motociclistas. Como saber o que ocupa aquelas mentes debaixo dos capacetes? A pressa de fazer uma entrega, o medo de levar fechada de um carro ou... a intenção de roubar alguém? Como saber? 

Só um detalhe: autógrafo e foto feita com celular é coisa com que gente famosa tem que conviver. E não seria a primeira vez que eu teria dado um autógrafo para alguém em outro veículo. Já aconteceu várias vezes e confesso que fiz questão de atender, até para poder contar aos amigos a que ponto a popularidade chegou. Autógrafo no trânsito? Como alguém pode ser reconhecido dentro de um carro? É o sucesso, é a fama!

E um motociclista pára ao meu lado no meio da avenida Europa, onde me sinto aprisionado, refém do congestionamento em horário de pico, e, assim, singelamente, risonhamente, inocentemente, me diz:

- Britto Jr. , da Fazenda, da Record? Pôxa vida, minha mãe é sua maior fã! Dá pra dar autógrafo pra ela?

Respondo cheio de orgulho:

- Claro que sim, mas não tenho papel nem caneta. Como vou te dar o autógrafo?

- Peraí que papel eu tenho, diz o motociclista.

E o taxista, impressionado com aquela manifestação de popularidade, se encarrega do resto:

- Caneta eu tenho, seu Britto. Toma, tá aqui, ó!

- E como se chama a sua mãe?

- É Neuza!

 - Com z ou com s?

 - É com z!

 - Ah, então tá aqui... e escrevo naquele papelzinho: “Neuza, receba um grande beijo do Britto Jr.”

O motociclista pega o papel, agradece e arranca feito um raio. E eu, dentro do táxi, devolvo a caneta ao motorista. Nem bem eu termino de contar a ele que não era a primeira vez que dava autógrafo no trânsito, menos de 30 segundos depois do autógrafo, surge um segundo motociclista.

Faço aqui um parêntese para um raciocínio investigativo: seria ele o comparsa do primeiro? Creio que sim, porque ao estender a mão para entregar ao autógrafo, revelei o Breitling que estava em meu pulso.

E o segundo motociclista ordena, ainda que sem violência, bem discreto:

- Na moral, aí... o relógio e o celular, rapidinho!

- Você tá brincando, né?!

- Aí, meu irmão, rapidinho... relógio e celular!

Ele bate com a mão em alguma coisa, que poderia ser uma arma. Eu não vou ser louco de pagar pra ver... e entrego tudo, impotente.

O motoqueiro acelera e, tão rápido quanto surgiu, desaparece na imensidão de automóveis. Em menos de trinta segundos, perdi mais do que alguns objetos pessoais. Perdi a confiança... 

Foi neste momento que eu, finalmente, pude compreender o que significa o tal sentimento de impotência que todas as vítimas de assaltos relatam. Só ai, naquele momento, a ficha caiu.

E o pior de tudo é concluir que o culpado de tudo fui eu. Mais um incauto, que não soube se prevenir contra a violência. Por que andar de relógio? Por que dar autógrafo para um motociclista no meio do trânsito? Por que escolher um táxi sem película escura nos vidros?

Assim como saímos de casa com capa e guarda-chuva, porque o clima é maluco e nós temos que nos adaptar a ele, assim como passamos protetor solar na praia porque não temos como desligar o sol da tomada, acho que não há outra saída a não ser nos prevenirmos contra os assaltantes que estão à espreita. Afinal, eles também se tornaram forças legítimas da natureza... só que da natureza humana e urbana, não é mesmo?

Para aqueles que têm inveja de quem trabalha na TVv, artista, apresentador, jornalista... Eis ai uma razão a menos para almejar os 15 minutos de fama. Já para os colegas, um aviso: cuidado com o golpe do autógrafo!   

Hilton Britto Jr.

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