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08
out
12:59

Objetos de desejo

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Autorama pista Objetos de desejo

Comprei um carro. Sim, e daí? Você deve estar se perguntando qual é a novidade nisso? Com seis milhões de automóveis duelando por espaço na cidade de São Paulo, o novo do Britto vai ser mais um a entrar nessa briga insana de todos os dias. E nada mais do que isso.

É verdade. Não há mais nenhum charme, nenhuma novidade no ato de alguém comprar um carro nos dias de hoje. A menos que o carro seja uma Ferrari, que não é o caso do que acabo de comprar. E este, um 2.0 normal, tem muitos irmãos rodando por ai. Aliás, eu só comprei porque já era hora de trocar o velho por um novo.

Mas, como sobrou pouquíssima coisa nesta vida atual que alguém com mais de quarenta anos não tenha visto ainda, são as reações das pessoas aos fatos que merecem atenção e, às vezes, provocam surpresa. Aconteceu na saída da concessionária. Após o negócio fechado, minha mulher fez o seguinte comentário: "nossa, nem parece que acabamos de comprar um carro novo. Não teve aquele entusiasmo, aquela comemoração... foi como se tivéssemos comprado um par de tênis, uma roupa. Nada mais do que isso!".

E logo me veio à mente uma série de objetos do desejo comprados ao longo da vida. Conquistados seria o termo correto, dadas as comemorações que se seguiram ao "negócio fechado".

Lembro-me de quando tinha meus 17, 18 anos e só andava de ônibus. Ou a pé. Não tinha sequer interesse em aprender a dirigir, pois não imaginava a possibilidade de vir a ser dono de um carro. Mas ai ganhei uma moto do meu pai. Foi uma festa tremenda.

Alguns anos depois, já vivendo em São Paulo, pude comprar meu primeiro carro. Era um Ford Corcel usado, já com seus 7 anos de serviços prestados ao antigo dono. Foi um dia inesquecível.

E no dia em que comprei meu primeiro carro 0 km, então? Foi uma conquista tão grande que levei um mês para ter coragem de tirar o carro novinho da garagem. Com tanto motorista maluco por ai, vai que bate!

E sigo saboreando meus arquivos com outras conquistas materiais memoráveis. Como a primeira TV em cores que meu pai comprou e mandou entregar em casa, sem que a família soubesse. O caminhão da loja parou ali, no portão, e o entregador, com a nota fiscal na mão, lançou a pergunta: "é aqui que mora o seu Hilton Britto?".

Eu e a molecada, que brincávamos na rua, olhamos incrédulos. Logo pensei que devia haver um engano. Mas não. Era ali mesmo. Cinco minutos depois de ser instalada na sala, a televisão já estava cercada por vários meninos da vizinhança, embasbacados em assistir ao "Scooby-Doo" em cores. Tão embasbacados, que demorou dias para gente perceber que o fato de todo mundo aparecer verde era um defeito do aparelho, que precisou ser trocado.

E no dia em que meus pais me presentearam com uma novíssima Olivetti portátil? Ah, desculpe-me... você já nasceu na era dos computadores e não sabe o que é ou o que foi uma Olivetti portátil... Eu explico: era uma máquina de escrever que, diferentemente das outras, podia ser transportada pra lá e pra cá dentro de um estojo em couro. Mal comparando, digamos que aquilo foi uma espécie de notebook pré-histórico, do tempo em que computador nem existia. Que presente eu ganhei! E durante muito tempo, fiz questão de escrever meus trabalhos de escola em vários cômodos da casa, até sentado no banheiro, afinal, a Olivetti era portátil.

Sim, primeiro a sociedade de consumo e se encantou com a "portabilidade" das coisas. Todos aqueles "monstrengos" começaram a ficar menores e passaram a desfilar nas ruas, a bordo de seus orgulhosos proprietários. Hoje, quem faz caminhada com um iPod pendurado na cintura, não sabe como já foi chique fazer "cooper" ouvindo um som no "walkman". Aliás, a outrora requisitadíssima fita-cassete já não faz o menor sentido.

Bem, voltando aos antigos objetos do desejo que provocavam furor. Você seria capaz de carregar um tijolo na cintura? não, né. Pois saiba que os primeiros celulares eram um trambolho. Mas, todo mundo sonhava em carregar aquele tijolo falante e que custava o olho da cara. Algo como dois mil dólares. Nos anos 80, não havia linhas disponíveis para tantos candidatos. Só recorrendo ao mercado negro e, por isso mesmo, custava tão caro. Mas eu comprei o meu e valeu a pena. Todo mundo invejava o meu Startek. Agora, se formos comparar com os dias de hoje... dois mil dólares por um celular? Só se ele for folheado a ouro!

É, a revolução tecnológica destes últimos 30 anos mexeu muito com as relações humanas. Antes, a gente só dava autógrafo. Hoje, tem que dar autógrafo e tirar foto. Foto de celular. Eu não me importo. Atendo todo mundo. E cada vez que alguém me aponta um celular, volto ao passado, quando o álbum de recordações era obra exclusiva de um fotógrafo profissional. Sim, ele tinha que ser contratado para a festa, demorava pra revelar, nem sempre ficava bom, mas era tudo com ele.

Hoje, se você conhece alguém que não gosta de celular que tira foto, iPod e notebook, ah, pode parar! Não vale a pena cultivar amizade com gente que parou no tempo. Não tem futuro. Só passado.

Lembrei de outra: toca-fitas no carro. Isso, quando eu era menino, só os muito descolados podiam se dar ao luxo de ter. Até que um dia, brotou no painel do carro do meu pai um "TKR". Não era "TDK", não. TDK era a fita. TKR era o toca-fitas mega-ultramoderno, que só se podia comprar no longínquo Paraguai.

Ok, se você não sabe o que foi uma Olivetti portátil, não pode saber o que era o poder, a modernidade, o luxo de um toca-fitas TKR. Acontece que foi o primeiro toca-fitas automotivo que tinha a função "autoreverse". Ou seja, quando terminava o lado A, o próprio aparelho tratava de mudar para o lado B da fita, automaticamente. A gente só prestava atenção na última música, para poder ver o momento mágico acontecer, a troca de lado. Fazia um barulho: tátátátá... e, em questão de segundos, começava a tocar o outro lado. Que coisa incrível! Eu e meus amigos de infância cansamos de ficar ali, dentro do carro, curtindo tudo isso. Com o carro parado, na garagem, claro.

E, então, depois destas lembranças todas, eis que eu acordo. De volta ao futuro, respondo a minha mulher que ela tem toda a razão. Não se pode comprar um carro como se fosse a compra de um par de tênis ou uma camisa, sei lá... A festa vai ser no Dia das Crianças, quando vamos comemorar não só a compra do carro novo, mas também a aquisição de um autorama.

Eu explico: uma das maiores frustrações da minha infância foi o fato de nunca ter ganhado um autorama. Custava muito caro e meus pais não puderam me dar. Mas, agora que faço parte deste mundo hiper-consumista, chegou o dia!

Vou comprar um autorama digital, com pista de 10 metros de comprimento, com miniaturas de Porsche, Mercedes e Audi... Vai ser um dia da criança inesquecível.

Eu só tenho uma dúvida: e pro meu filho, de 4 anos, o que eu vou dar de presente? Acho que pra ele eu vou dar uma bola.

Sim, porque o autorama é meu, ora bolas!

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