02 out
18:46
Che Guevara não morreu!
A minha barba não tem nada a ver com isso. Eu não sou neo-hippie, nem herói da resistência comunista, nem morro de amores por Fidel Castro Mmas, por mera coincidência, justamente agora, que resolvi mudar o visual, cultivando uma ainda rala barbicha, está em cartaz nos cinemas (poucas salas, é verdade) o filme sobre Che Guevara, o barbudo da Revolução Cubana.
E, ontem à noite, eu e minha mulher decidimos assistir ao filme. Chegamos ao cinema uma hora e meia antes da sessão, imaginando que só assim poderíamos garantir os melhores lugares.
Saco de pipoca e refrigerante em mãos, lá fomos nós. E, para nosso espanto, o que encontramos lá dentro?
Uma multidão de barbudos? Fãs do Che vestidos a caráter? O presidente Lula e outros discípulos da igualdade social? Não, nada disso. Aliás, “nada” é a melhor resposta.
Para nossa surpresa, o cinema estava simplesmente vazio. E só não ficou completamente vazio até o fim do filme, porque eu e Fernanda ocupamos dois dos 278 lugares disponíveis.
O filme não é nenhuma obra-prima, mas a atuação de Benicio Del Toro é, como sempre, brilhante. O que eu há muito desejava era ver materializadas as várias biografias do Che, já que os livros produziram em minha mente apenas a imagem de um revolucionário de papel, um herói da literatura. E esse objetivo o filme alcança. Graças à atuação de Benicio, que encarnou o libertário latino de forma mais do que convincente.
Mas não quero me prender ao filme, nem à história de Ernesto Che Guevara, pois imagino que a maioria dos internautas saiba o que ele representa.
Sentado naquele cinema, cercado de poltronas vazias por todos os lados e tendo diante de mim um quase documentário sobre um personagem tão rico (sem ironias) e que doou a própria vida por uma causa do povo, me coloquei a pensar: será que os ideais libertários e de igualdade de ernesto Che Guevara já não sensibilizam ninguém? Será que a luta dele foi em vão? Será que o fato dele ter abdicado do poder já conquistado em Cuba para começar outras guerrilhas em nome de outros povos oprimidos não desperta o interesse das pessoas do século XXI?
E mais: estaria eu andando na contramão das tendências, já que ainda me comovo com tudo isso?
A minha mulher tratou de enterrar minhas convicções ao comentar que o comunismo praticamente não existe mais, e onde existe não funciona.
Mas aí me veio a resposta para todos estes questionamentos. E o que eu disse à ela vou compartilhar com os blogonautas.
Antes, quero recorrer a uma cena do filme, quase no final, quando Guevara já está preso, prestes a ser executado pelos militares bolivianos (apoiados por americanos).
É quando um oficial do exército faz de tudo para humilhar não só o farrapo humano em que Che foi transformado, mas também as convicções que ele ainda insiste em carregar na mente. O oficial, sarcasticamente, pergunta a Che:
- Por que tentou fazer aqui o mesmo que fez em Cuba?
- Por que o governo daqui não se importa com o povo.
- Então, por que será que foi o povo que o delatou para nós?
- Por que o povo tem medo. Mas, talvez, o meu fracasso faça o povo despertar!
Essa é a frase capaz de manter acesa dentro de mim a chama da esperança em dias mais justos para todos. E que inspirou a minha resposta:
Concordo que o comunismo foi engolido pelo capitalismo, pela idéia de que a igualdade não é possível. Pelo menos não desta forma, através da imposição. Mas a revolução é necessária, sim. Só que a revolução que precisa acontecer, e que seria capaz de mudar as coisas, não é a das armas, do confronto entre guerrilheiros e militares. É a revolução interior, a ser travada dentro de cada um de nós, na consciência dos homens. É o único caminho possível para acabarmos com a fome, com o desemprego, com a pobreza e a violência gerada pela desigualdade social.
Eu sei que você deve estar me achando um sonhador, um visionário ultrapassado, mas eu insisto em ter esperança, em acreditar nos homens.
Todos nós sabemos o que fazer e, portanto, que há solução. O que emperra é o individualismo excessivo, o desejo de obter dinheiro e poder de forma ilimitada, como se vivêssemos numa eterna competição, em que só os mais ambiciosos sobreviverão.
Nada disso faz o menor sentido. Só que esse comportamento cegou a sociedade, que, infelizmente, prefere não refletir sobre o assunto.
Também nas telas de cinema, tenho visto muitos filmes sobre catástrofes que assolam o planeta. E, em todos eles, a solução que o enredo sugere é a união dos povos e a mudança radical de comportamento da humanidade.
Se os personagens reais do passado já não têm a mesma força, quem sabe os cineastas, com suas catástrofes de ficção, sejam capazes de plantar uma semente de esperança? Ou seria de medo?
É como, um dia, Che Guevara disse: “Deixe o mundo mudar você e você poderá mudar o mundo”.
Só que tem que ser rápido, antes que o mundo acabe. Não é mesmo?
Hilton Britto Jr.













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