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12
out
16:20

Eu sei quem matou Michael Jackson

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Não dá mais para dizer que só no Brasil não se faz justiça ou que a justiça é lenta ou que ela é falha ou que, por vezes, a justiça é injusta. O assassinato de Michael Jackson foi obra de um algoz que começou a persegui-lo ainda nos tempos do Jackson 5. E seu assassino, que nunca teve cara, identidade e muito menos coração, continua livre, pronto para fazer novas vítimas.

O crime fatal contra Jack começou a se configurar no longínquo dia em que ele e os irmãos apareceram na TV. O mundo aplaudia os Jackson 5, mas o deslumbramento coletivo era mesmo com o caçula, o “fedelho” (para usar uma expressão da época) que cantava e dançava como nenhum outro daquela tenra idade.

Veio a fama, veio o dinheiro e vieram os problemas. Estes, abafados ao máximo, até porque, naquele tempo pouco se sabia e menos ainda se falava sobre os bastidores do show business. Coluna social era o máximo da ousadia. Tablóide, por aqui, era uma palavra a se procurar o significado em dicionário. E olhe lá.

Considerando a máxima de que criança não trabalha, criança dá trabalho, Michael nunca teve infância. Sob o chicote psicológico do próprio pai, dedicou todo o seu tempo para ensaios e viagens exaustivas.

De repente, se tornou homem, declarou independência familiar, separando-se dos irmãos e do pai graças a um talento fora do comum. Ele era mesmo fora de série, na verdadeira acepção da palavra. Muitos, milhares, o imitam, mas ninguém é capaz de fazer o que ele fez.

Um sucesso atrás do outro, Michael chegou ao topo com “Thriller”. Nem os Beatles venderam tantos discos. Faço um parêntese para dizer que o meu exemplar, comprado naquele ano, não vendo por dinheiro nenhum. Não adianta insistir. E olha que é vinil.

Bem, mas depois que alguém chega ao lugar mais alto, é de se imaginar que o próximo passo seja no caminho inverso. Poucos conseguem se manter no rarefeito “Olimpo” da fama. E a descida de MJ foi em queda livre, acelerada pelas acusações de pedofilia e todo o impacto que elas poderiam causar na vida de um artista deste porte. Os tablóides se esbaldaram.

Vieram os tribunais, os acordos milionários, as sentenças duvidosas, e a reclusão. Cercado por todos os lados, Michael Jackson se auto-exilou em seu próprio lar e na sua própria excentricidade. E ele, que teve o mundo a seus pés, a indústria do entretenimento a seu dispor e os jornalistas e críticos como parceiros, de repente, se vê sozinho e abandonado no meio do caminho.

Tente imaginar as pressões que MJ sofreu. O mundo esperando um novo sucesso, um novo lance de genialidade, seus produtores e a própria família sobrevoando-lhe a cabeça, feito abutres. E a imprensa duvidando da capacidade dele para administrar tudo isso.

Está certo que o mundo é dos fortes e que aos fracos abate, mas a imagem de MJ sempre foi de fragilidade, tanto física quanto psicológica. Dava-me a impressão de que toda a indispensável estrutura de caráter e personalidade que forja os seres humanos, no caso dele, foi construída sobre um vazio. MJ era, por assim dizer, uma jóia oca, sem recheio.

Mesmo assim, Michael se prepara para retornar em grande estilo. Ninguém vê, mas ele está lá, ensaiando para 50 derradeiros shows. Até porque ele precisa de dinheiro para aplacar a iminente falência que se avizinha, e que, talvez nem ele próprio tenha percebido, contribuiu para liquidá-lo.

Neste momento, percebe-se o quanto os jornais sensacionalistas podem ser cruéis, já que espalham aos quatro cantos que Jackson está muito doente, e que por este motivo dificilmente subirá ao palco para realizar sequer o primeiro da tão esperada série de shows. Os ingressos já estão vendidos. E ele terá que devolver o dinheiro. Ao mesmo tempo (eu li, ninguém me disse), insinuações dão conta de que o astro esta a beira da morte. Definhando.

Mas, afinal, que doença é essa? Ou melhor, que invenção foi aquela, segundo a qual MJ já estava com o pé na cova? Quem foi o maldoso que espalhou este boato? E com que propósito?

É claro que, agora, se sabe que nada disso era verdade. Vídeos dos ensaios nos revelam um MJ exatamente como todos o conheceram: cheio de vida, de talento, transpirando o desejo de retornar aos palcos e reencontrar seus fãs.

Muito bem, chegou a hora de dizer quem matou Michael Jackson. Aquele que roubou-lhe a infância, que o transformou num astro, e que depois decretou a sua queda livre, amplificou o comportamento duvidoso de sua vida particular, e que também se encarregou de mentir que ele estaria definhando, aquele mesmo... foi “ele” o responsável pela morte prematura do maior ídolo pop da história.

“Mas, quem... quem? Fala logo quem foi este crápula! Revele-nos de uma vez por todas! Quem, afinal, seria capaz de construir um astro para, anos depois, ter o sarcástico prazer de aniquilá-lo para sempre?”

Eu digo com todas as letras: quem matou Michael Jackson foi a “mídia”! Quando digo mídia, falo de todos os atores que formam a indústria (ou seria o circo?) do entretenimento, tais como agentes, produtores executivos, empresários, donos de gravadoras, assessores, advogados, jornalistas, enfim, todos os que se empenharam em construir uma máquina de fazer dinheiro, sem levar em conta que aquele mega-astro era um homem, um ser humano com suas fragilidades, precisando de carinho, de compreensão, de descanso e de outros tantos afagos. E aqui chamo a atenção em especial para os tablóides, que na ânsia de produzir artigos sensacionalistas para vender mais e mais jornais, abusaram da liberdade de expressão, com suas “invencionices”, capazes tanto de turbinar para o bem quanto para o mal a carreira de qualquer um, até do maior astro pop de todos os tempos.

Sim, amigos, Michael Jackson foi uma vítima da mídia. Podem continuar procurando nos lençóis, no tapete do quarto, nos frascos de analgésicos, entre os empregados da mansão ou nas janelas escancaradas para supostos invasores. O culpado pelo fim trágico de um homem único na sua obra, trajetória e legado não tem cara porque é uma instituição. Quem matou Michael Jackson está, neste exato momento, preocupado em garimpar outro que o substitua, porque o show nunca pode parar, não é mesmo?

E, para meu espanto, acabo de ouvir uma música nova de Michael Jackson. Está tocando na internet, nas rádios. É inédita! Não me peçam para explicar, mas é isso. Todos nós vamos dançar ao som do derradeiro sucesso do astro falecido. E, muito provavelmente, haja algum produtor concluindo: acho que matamos a galinha dos ovos de ouro!

É meus amigos, assim como a mídia tem o poder de construir astros e depois desconstruí-los, ela também é capaz de ressuscitar quem já morreu.

This is it.

Hilton Britto Jr.

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27
set
10:01

O golpe do autógrafo

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Tem coisa nesta vida que só se entende quando acontece com a gente. O sentimento de ser pai, por exemplo, só ganha sentido no dia e na hora em que o filho nasce. Antes disso, nem os nove meses de gestação, nem o barrigão da esposa crescendo e ocupando lugar na cama, nem o aviso de que a bolsa estourou, nem nada, nada mesmo é suficientemente capaz de fazer o homem compreender a dimensão daquilo tudo. Mas, quando o rebento  vem ao mundo... aí sim, o grito daquele pedaço de gente parece que é o despertador que nos acorda para este novo capítulo da existência. Quer saber o que a gente sente ao ser pai pela primeira vez? Faça um filho que você descobre, porque contar não adianta nada. Entra por um ouvido, sai pelo outro e o gol do time do coração continua sendo mais importante.

Dei somente um entre tantos exemplos que poderia escolher sobre esse negócio de só se compreender certas coisas fazendo parte delas. Mas, vamos ao ponto: fui escolhido por um amigo do alheio. Sim, fui assaltado e o ladrão roubou o meu relógio e o meu celular. Assim, em menos de trinta segundos, eu virei mais um número nas estatísticas da violência.

Mas qual é o charme desta história, que se repete a cada minuto com pessoas diferentes em todas as cidades deste país ? (Aliás, cuidado porque o próximo pode ser você!) Bem, talvez a maioria de anônimos não precise se preocupar com o golpe do qual fui vítima, mas todos vão achar curioso o que me aconteceu. 

Se não por outro motivo, pelo ineditismo do golpe. 

Eis que, após uma tarde inteira trabalhando dentro de um estúdio, chega a hora de ir embora para o merecido descanso do guerreiro. A ironia começa pelo fato de que, por razões de segurança, resolvi deixar o carro na garagem de casa, já que a produtora não dispõe de estacionamento. E, como se sabe, carro estacionado na rua é um convite para o ladrão... 

Faço o sinal para o primeiro táxi que surge naquela fileira sem fim de automóveis na Avenida Brasil (São Paulo). Era um carro novo, recém chegado à praça. Nem aquela película escura que torna motoristas e passageiros invisíveis ele tinha. E aí foi o primeiro passo para a armadilha em que cairia logo em seguida. 

Sim, porque vamos combinar...! Um apresentador de TV passeando dentro de um carro sem vidro escuro é quase como um apresentador de TV desfilando em cima de um trio elétrico ou de um caminhão de bombeiro! Mas ali, distraído com o rádio, e batendo papo com o taxista, que ainda esbanjava orgulho pela aquisição daquele carro novo, nem me dou conta de que acabara de virar “ presa fácil” para os olhos curiosos dos amigos do alheio. Sabe aquelas aves de rapina, sobrevoando o terreno em busca de carniça? É mais ou menos assim que funciona nas ruas, sem que a gente possa perceber.   

Trânsito parado. São seis da tarde, hora em que ninguém anda. Só os motociclistas. Ah, os motociclistas. Como saber o que ocupa aquelas mentes debaixo dos capacetes? A pressa de fazer uma entrega, o medo de levar fechada de um carro ou... a intenção de roubar alguém? Como saber? 

Só um detalhe: autógrafo e foto feita com celular é coisa com que gente famosa tem que conviver. E não seria a primeira vez que eu teria dado um autógrafo para alguém em outro veículo. Já aconteceu várias vezes e confesso que fiz questão de atender, até para poder contar aos amigos a que ponto a popularidade chegou. Autógrafo no trânsito? Como alguém pode ser reconhecido dentro de um carro? É o sucesso, é a fama!

E um motociclista pára ao meu lado no meio da avenida Europa, onde me sinto aprisionado, refém do congestionamento em horário de pico, e, assim, singelamente, risonhamente, inocentemente, me diz:

- Britto Jr. , da Fazenda, da Record? Pôxa vida, minha mãe é sua maior fã! Dá pra dar autógrafo pra ela?

Respondo cheio de orgulho:

- Claro que sim, mas não tenho papel nem caneta. Como vou te dar o autógrafo?

- Peraí que papel eu tenho, diz o motociclista.

E o taxista, impressionado com aquela manifestação de popularidade, se encarrega do resto:

- Caneta eu tenho, seu Britto. Toma, tá aqui, ó!

- E como se chama a sua mãe?

- É Neuza!

 - Com z ou com s?

 - É com z!

 - Ah, então tá aqui... e escrevo naquele papelzinho: “Neuza, receba um grande beijo do Britto Jr.”

O motociclista pega o papel, agradece e arranca feito um raio. E eu, dentro do táxi, devolvo a caneta ao motorista. Nem bem eu termino de contar a ele que não era a primeira vez que dava autógrafo no trânsito, menos de 30 segundos depois do autógrafo, surge um segundo motociclista.

Faço aqui um parêntese para um raciocínio investigativo: seria ele o comparsa do primeiro? Creio que sim, porque ao estender a mão para entregar ao autógrafo, revelei o Breitling que estava em meu pulso.

E o segundo motociclista ordena, ainda que sem violência, bem discreto:

- Na moral, aí... o relógio e o celular, rapidinho!

- Você tá brincando, né?!

- Aí, meu irmão, rapidinho... relógio e celular!

Ele bate com a mão em alguma coisa, que poderia ser uma arma. Eu não vou ser louco de pagar pra ver... e entrego tudo, impotente.

O motoqueiro acelera e, tão rápido quanto surgiu, desaparece na imensidão de automóveis. Em menos de trinta segundos, perdi mais do que alguns objetos pessoais. Perdi a confiança... 

Foi neste momento que eu, finalmente, pude compreender o que significa o tal sentimento de impotência que todas as vítimas de assaltos relatam. Só ai, naquele momento, a ficha caiu.

E o pior de tudo é concluir que o culpado de tudo fui eu. Mais um incauto, que não soube se prevenir contra a violência. Por que andar de relógio? Por que dar autógrafo para um motociclista no meio do trânsito? Por que escolher um táxi sem película escura nos vidros?

Assim como saímos de casa com capa e guarda-chuva, porque o clima é maluco e nós temos que nos adaptar a ele, assim como passamos protetor solar na praia porque não temos como desligar o sol da tomada, acho que não há outra saída a não ser nos prevenirmos contra os assaltantes que estão à espreita. Afinal, eles também se tornaram forças legítimas da natureza... só que da natureza humana e urbana, não é mesmo?

Para aqueles que têm inveja de quem trabalha na TVv, artista, apresentador, jornalista... Eis ai uma razão a menos para almejar os 15 minutos de fama. Já para os colegas, um aviso: cuidado com o golpe do autógrafo!   

Hilton Britto Jr.

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