14 out
09:00
Laura Finocchiaro e o sumiço de Belchior
Já houve época em que os musicais arrasavam na televisão. Aliás, a Record costuma, de tempos em tempos, refrescar a nossa memória com a reprise de seus grandes festivais, hoje devidamente conservados em arquivo. Só que os anos passaram e o telespectador não parece mais tão receptivo a este gênero de programa. “Ídolos” tem sido uma saborosa exceção. Até nos programas de auditório, onde se costuma ver de tudo, já não se vê mais cantores, compositores e músicos levantando plateias com tanta assiduidade. De vez em quando, uma dupla sertaneja, uma Ivete Sangallo... Mas é pouco.
O brasileiro teria perdido o interesse pela música? Os estilos mais populares teriam se esgotado? Enquanto procuramos respostas que possam indicar um novo caminho para os produtores de TV, quero chamar a atenção para a trilha sonora de A Fazenda.
Uma das conquistas subliminares do nosso reality show, sem dúvida, foi a trilha, preparada por Laura Finocchiaro. Esta mulher tem música nas veias e com o seu extraordinário talento, ela conseguiu fugir do convencional, criando uma textura sonora incrível para todos os momentos do programa. Várias vezes eu comentei, inclusive com ela mesma, que não há, nem nunca houve na TV aberta brasileira nestas últimas décadas, nenhum programa que tenha registrado em sua trilha pérolas e clássicos de Led Zeppelin, The Beatles, Rolling Stones, só pra ficar em alguns roqueiros de que eu, pessoalmente, gosto muito. Até Pink Floyd tocou!
Eu conheci o trabalho de Laura Finocchiaro lá pelos anos 80, quando ainda morava no Rio Grande do Sul. Ela, por sinal, é minha conterrânea. Lançou muitos discos, criou sucessos e veio parar na fazenda, a convite do diretor do programa, Rodrigo Carelli.
E engana-se quem acha que a Laura não gosta de música caipira. Pelo contrário. Ela curte todos os gêneros, mas não caiu na tentação fácil de construir uma trilha sonora sertaneja para uma atração de nome e cenário rural. Até porque trata-se de um reality e não de um programa sobre o meio rural.
Na segunda temporada, que vem aí, vai dar Laura na cabeça de novo. Que talento tem esta mulher... É afinada até no nome... Laura “Fino”cchiaro!
E você deve estar se perguntando o que tem Laura Finocchiaro a ver com o sumiço de Belchior?
E eu respondo: tudo e nada ao mesmo tempo. Acontece que Belchior lançou um novo tipo de protesto. É o sumiço de protesto. Percebi isso na entrevista que ele deu a emissora que, supostamente, o encontrou lá num vilarejo do Uruguai. No meio da entrevista, Belchior comenta que vai voltar logo ao Brasil, principalmente agora que “descobriu ser ainda amado” pelas pessoas. É isso! Belchior, como tantas outras vítimas do esquecimento da mídia, que só dá espaço para modismos e sucessos que vendem, foi relegado a terceiro plano. E pensar que até o início dos anos 80, a gente ouvia Belchior, Chico Buarque, Gal Costa, Milton Nascimento, João Gilberto, Ivan Lins, Beto Guedes... Enfim, só ouvia artista que tinha o que dizer no rádio e na tv. Até que começou a invasão sertaneja... Mas não quero parecer preconceituoso. Tem muito sertanejo de qualidade. Agora, alguém sabe onde foram parar os grandes compositores e intérpretes da música popular brasileira?
Belchior sumiu para chamar a atenção da mídia, mas, principalmente, para saber se as pessoas se importariam com o sumiço dele. Eu me importei, até porque sou fã incondicional e tenho todos os discos dele.
Sumiço de protesto. E onde a Laura Finocchiaro entra nessa história? Ela não teve a intenção, claro, mas, ao emplacar a trilha de A Fazenda, Laura acabou criando uma espécie de “trilha sonora de protesto”.
É como se a Laura estivesse gritando: abaixo o óbvio! Viva o bom gosto! Viva a boa música!
Trilha sonora de protesto... E eu grito: viva a Laura Finocchiaro! Viva o Belchior... Por falar nele, cadê o Belchior, gente? Será que ele sumiu de novo? Volta, Belchior!
Hilton Britto Jr.












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