29 set
07:30
O barbeiro e a navalha
Muito me diverte ouvir alguém dizendo que a primeira qualidade a ser levada em conta num funcionário, colega, amigo, namorada ou, enfim, em qualquer outro que não seja ele próprio é a confiança. Sim, porque a pessoa pode ter milhões de predicados - inclusive o de assoviar e chupar cana ao mesmo tempo -, mas, se não der para lhe confiar um segredo, não dá.
Me diverte e me espanta, porque nestes tempos de total individualismo, de capitalismo ultra-selvagem, de medonha competição entre pessoas (sejam elas jurídicas ou físicas), ninguém mais confia em ninguém. Já vi gente diante do espelho, desconfiada de si mesma. Sabe como é, né... Clonagem, mundo virtual... Andam falsificando de tudo. Vai que eu também virei produto “made in china” e nem me dei conta.
E no reino das profissões? No mercado de trabalho, todo dia tem uma história de alguém que não entregou a mercadoria para o cliente, ou que entregou errado ou que fez mal feito, etc... Basta dar uma clicada no site do Procon. Se aconteceu com tantos, porque não pode acontecer com a gente?
E como estamos numa época em que impera a prestação de serviços, é imprescindível que se possa confiar, por exemplo, nos engenheiros que constroem prédios e pontes, nos médicos, a quem entregamos nosso corpo, nossa vida sobre uma mesa de cirurgia, nos jornalistas, de quem esperamos ler e ouvir apenas verdades nuas e cruas, nos juizes de futebol... Não, pensando bem, não dá para chegar a tanto... Juiz de futebol é um profissional que erra sempre, em todos os jogos, só não dá pra saber se erra porque errou ou se erra porque pediram para ele errar... Então, deixemos o juiz de futebol para futuras considerações...
E, assim, meio que por acaso, só agora, aos 46 anos, me dei conta do peso da responsabilidade que recai sobre um tipo de profissional a quem não se costuma dar o devido valor.
E só me dei conta da importância deste profissional numa hora delicada... Foi no exato momento em que ele já estava com a navalha afiada deslizando em meu pescoço, prestes a desferir golpes de precisão cirúrgica e que, em poucos segundos, me tirariam... a barba.
Até aquele dia, ninguém, nunca havia feito a barba por mim. Antes disso, somente eu, o espelho e muitas lâminas descartáveis havíamos compartilhado daquele momento tão chato quanto inevitável - e obrigatório -, de cortar a barba.
E eu ali, imóvel e, não nego, um tanto preocupado com aquele homem desconhecido, que tinha uma navalha passeando faceiramente pelo meu pescoço.
Nessa hora, talvez por ser a primeira vez, me veio à lembrança o enredo daquele filme macabro, estrelado por Johnny Depp, lembram? O “barbeiro da Rua Fleet”. Ele era um psicopata autorizado a matar. Autorizado porque matava suas vítimas, as degolava durante o legal exercício da sua profissão... Barbeiro...
Mas, eu tinha que confiar naquele homem, afinal, ele não teria coragem, mesmo que fosse um maluco psicopata, de executar um cliente diante de tantas testemunhas, cabeleireiras, manicures e clientes. Não, ele não seria capaz de fazer isso comigo... A não ser que ele seja um daqueles fanáticos que detestam televisão e odeiam gente que aparece nela.
Mas, e se for? Já pensei na futura manchete: “Apresentador da Record perde a cabeça!” Ai, ai, ai...
Mas há dentro de mim uma crença no ser humano. Prefiro acreditar nas pessoas antes de ter motivo para desconfiar delas. E, mesmo com um pé atrás, resolvi relaxar e entregar meu pescoço, quer dizer, minha barba a ele.
Deu tudo certo, afinal, estou aqui, de barba bem feita e escrevendo. Mas esta primeira experiência na cadeira do barbeiro me fez perceber o quanto este tipo de profissional, já em extinção nos dias de hoje, merece ser reconhecido. É preciso ter um pouco de artista pra esculpir barbas, é preciso ser higiênico, é preciso ser surdo para ouvir certas bobagens e algumas confissões que os clientes fazem e, acima de tudo, é preciso ser equilibrado, concentrado, focado no serviço, para não provocar acidentes.
Num mundo repleto de casos de violência protagonizados por mentes doentias, imagine se um destes doidões que andam por aí, imperceptíveis e cinicamente dóceis até o primeiro e derradeiro surto, resolve ser barbeiro?
Enfim, você, que tem o seu “hair stylist”, o seu “hair designer”, o seu consultor de imagem, o seu visagista, já parou para pensar que todos estes requintados profissionais representam a evolução do tradicional e cada vez mais raro barbeiro da esquina?
Restam raríssimos salões de barbeiro por ai... E em quase todos, quem manda é, geralmente, um simpático velhinho, que começou nesta arte lá pelos anos 60, ou até antes. Á revelia de todas as modernidades, ele, com aquela cara de avô bonzinho, continua firme, esculpindo barbas e, no final, borrifando “aqua velva” no rosto, para arrepio do cliente. Tudo exatamente igual ao passado. E, enquanto a navalha afiada passeia pelo pescoço, a gente lê o jornal... Isso é o que se pode chamar de profissional de confiança. Não é mesmo?
Hilton Britto Jr.













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