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22
out
13:17

Carta aberta aos amigos

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Ser um amigo de verdade não é fácil e por isso mesmo costuma-se dizer que a quantidade de amigos com quem podemos contar cabe na palma da mão. É a mais pura verdade e comigo não seria diferente, mesmo sendo eu um homem de TV, com o privilégio de contar com o carinho e a confiança de todos vocês.

Foto0 Carta aberta aos amigos

André, Norberto (falecido), César e eu, em foto de 2004

Acontece que para chegar a essa condição, os verdadeiros amigos, tem que se enquadrar em alguns itens, muito além dos já conhecidos. Eis alguns deles:

- Ter jogado no mesmo time na escola;
- Ter estudado e, principalmente, preparado a cola juntos;
- Ter preferido ir ao estádio pra ver o time do coração em vez de passar a tarde de domingo com as namoradas (não todos os domingos, senão não seria amizade, e sim um “caso” entre os dois, bem entendido);
- Ter preparado pelo menos uma festa de despedida um para o outro;
- Ter ficado de mal por qualquer motivo e depois feito as pazes, sem arranhar a confiança mútua;
- Tomado um porre “daqueles”, juntos, e esperado passar o efeito, evitando até a morte que um tivesse que levar o outro para a casa dos pais (na adolescência, claro);
- Brigado com a turma rival, mesmo sem ter nenhuma razão;
- Freqüentado a casa um do outro e conquistado a admiração das famílias;
- Elogiado com entusiasmo, repreendido com vigor e aconselhado com convicção, mesmo sem tê-la muitas vezes;
- Reconhecido a colaboração um do outro após alguma conquista, seja em que área for (ai vale desde futebol até namoro, passando por estudo e trabalho);
- Torcido pelo sucesso do outro, sem se comparar a ele e sem nutrir o maldito sentimento de inveja, que, aliás, corrói tantos relacionamentos;
- Se reencontrado em cidades, estados ou países diferentes, após o inevitável distanciamento que a vida impõe e
- Compartilhado com esposas e filhos o sentimento de cumplicidade entre os velhos amigos.

Foto1 Carta aberta aos amigos

Bem, como dá para perceber, ser amigo de verdade não é pra qualquer um, não. E é dentro deste perfil que se encontram os meus mais queridos amigos, César Cemin, André Voltolini, Paulo Bertochi e José Gazola, além do Norberto Zorzi, que já partiu. Peço desculpas aos muitos que não citei e a quem tenho grande apreço, porém, foi este grupo seleto que conseguiu plantar a semente, regar, adubar e manter viva uma amizade que começou lá em Caxias do Sul/RS, nossa cidade natal e já dura mais de vinte e cinco anos. A nossa turma ganhou até um nome, é a “turma do Chaves”, depois que, há muito tempo, a mãe de um de nós achou que a gente se reunia para assistir o seriado na tv. Ledo engano, mas foi tão engraçado que resolvemos adotar o nome. Ai, pessoal, gostaram desta explicação?

Desde o começo dos anos 80, cada um de nós vive ou viveu em cidades diferentes, mas continuamos nos comunicando por telefone ou pela internet. E, sempre que possível, nos encontramos em algum lugar do mapa para relembrar os velhos tempos e trocar experiências. Isso faz parte da receita para manter uma verdadeira amizade.

Foto2 Carta aberta aos amigos

Parece tão simples, não é mesmo? Mas, creiam, não é. Acontece que neste tempo todo que passou, todos nós mudamos bastante. Para melhor e para pior.

Na luta pelo sucesso, vencemos, mas, por vezes, fomos obrigados a engolir fracassos. Na construção de nossas famílias, enfrentamos conflitos, medos, nos defrontamos com situações de crise. Tornamo-nos mais experientes e maduros, no entanto, também mantivemo-nos inflexíveis em muitos pontos, o que nos levou a cometer erros que não devíamos ter cometido. Adquirimos novos hábitos e, só para equilibrar, novos vícios. Colocamos a nossa ética a prova das tentações consumistas, mudamos algumas crenças e ideais, trocamos nossos meios de vida, trabalhamos demais, brigamos além da conta, criamos amigos, mas também fizemos inimizades.

E eu pergunto: será que os senhores de hoje ainda são as mesmas pessoas do álbum de recordações de vinte e poucos anos atrás? É claro que não! Mas, acreditem, meus queridos amigos, por mais que um esconda do outro detalhes ou capítulos que não valem a pena serem citados nas nossas conversas esporádicas, por mais que a vida nos tenha calejado, nós somos donos de um tesouro, que é a nossa amizade.

E, sempre que possível, devemos nos esforçar para continuar cultivando este sentimento bonito que nos une.

Foi o que aconteceu neste meu último período de férias. O André esteve na minha casa, em São Paulo, depois eu retribui a visita na casa dele, em Caxias do Sul. Em seguida, me encontrei com o Paulo, em Farroupilha, que, dias depois, veio me visitar em Sampa. E, na semana passada, foi a vez de eu ir ao encontro do César, que mora em Ponte Vedra, na região de Jacksonville, Flórida, Estados Unidos.

As fotos que você vê no blog foram tiradas lá. Creio que a maioria dos internautas não conhece o meu amigo, então, eu o apresento:

César Cemin, ex-zagueiro do time do colégio, consertava as bobagens que um certo meio-campista chamado Britto fazia lá na frente. Hoje, enquanto eu ataco como apresentador da TV Record, ele defende o pão de cada dia como empresário no ramo de importação e exportação de madeira. É até irônico, pois o Cemin lucra com a venda de cercas para os americanos, num país que quase não precisa delas. Ao contrário do Brasil, lá nos Estados Unidos não existe essa neurose com segurança. A maioria mora em casas e não há muros ou coisa parecida. As cercas de madeira que meu amigão vende pra eles serve mais para separar uma propriedade da outra.

Foto4 Carta aberta aos amigos

Os negócios vão muito bem para o Cemin, mas ele me contou que nem todos os americanos tiveram a mesma sorte em função da crise. Muitos empresários e comerciantes não conseguiram manter seus lucros, tem muita gente desempregada, uma enormidade de casas a venda (por preços cada vez menores) e, claro, muitos imigrantes voltando para seus países de origem. Brasileiros, inclusive. Mesmo assim, o país tem muita gordura pra queimar e, por conta disso, não houve grandes mudanças naquela tradicional paisagem que causa inveja a nós, tupiniquins. Falo de ruas e rodovias bem sinalizadas, de asfalto liso feito carpete (buraco, nem pra fazer chá!), por onde desfilam os carrões americanos. Isso não mudou nada, mas, como eu só fui ‘a Orlando e Jacksonville, não posso garantir que esteja tudo do mesmo jeito no resto do país. O Cemin mora numa casa maravilhosa, com a esposa, Mari, e as filhas Julia e Carolina. Ele também tem um filho de 21 anos, do primeiro casamento. Só que o Lucas vive em Curitiba.

É uma família tipicamente brasileira que aprendeu a levar uma vida tipicamente americana, afinal, já são mais de dois anos nos EUA. Apesar da crise, eles souberam contornar todos os problemas e levam uma vida sossegada, numa parte do país que aprecia o sossego. Jacksonville tem mais de um milhão de habitantes, é a décima-quarta dos EUA em população e primeira em extensão territorial, mas é uma cidade pacata. Todo mundo dorme cedo, pois não se vê praticamente ninguém nos restaurantes após as 10 horas da noite. O César sempre gostou de praia e a casa deles fica a 400 metros do mar. Perto dali, demos uma esticada até St. Augustine, a primeira cidade americana, fundada pelos espanhóis em 1565. Lá, nós conhecemos a primeira escola dos EUA, onde o castigo para aluno bagunceiro era ficar trancado num buraco escuro, debaixo da escada. Se fosse hoje, hein... dava processo contra escola e professor!

Foto5 Carta aberta aos amigos

Fomos juntos a Orlando, passear na Disney, como eu havia prometido aqui no blog, lembram?! Para o César não era novidade, mas para o meu filho, Arthur, foi uma estreia. Ele curtiu todos os brinquedos possíveis para uma criança de 4 anos. E eu e Fernanda também!

Comemos uma daquelas enormes coxas de peru... é meio “animal”, mas delicioso!

Foto3 Carta aberta aos amigos

César nos levou para fazer compras, como não poderia deixar de ser, e saboreamos alguns “lanchinhos” comuns por lá. Não é de espantar que muitos americanos estejam tão roliços. Também pudera, eles comem essas bombas calóricas duas vezes por dia. Ou mais. Aliás, esse é um dos desafios da família Cemin. Mari nos disse que, no começo, todo mundo engordou um pouco. Foi ai que eles começaram a garimpar mercados e restaurantes brasileiros, e regular o cardápio de casa com uma alimentação mais saudável. Além disso, a família começou a fazer ginástica regularmente para queimar as inevitáveis calorias extras. Agora estão bem, mas tem que continuar resistindo ‘as tentações da culinária do tio Sam.

Foto6 Carta aberta aos amigos

Enfim, foi uma visita breve a que fizemos, mas o suficiente pra gente ter certeza de que a família Cemin está colhendo o que plantou, ou seja, depois de muitos desafios, de muito trabalho aqui no Brasil, chegou a hora da colheita. Eles são vencedores e com muitos méritos. Nada melhor do que a gente ter amigos realizados, de bem com a vida, não é mesmo? No momento oportuno, vou contar um pouco sobre a vida e a obra de meus outros amigos do peito.

No futuro, conhecendo o César como eu conheço, creio que eles vão voltar para cá. Ainda demora mais uns anos, mas é o objetivo que iguala todos os imigrantes: fazer o pé-de-meia e voltar para a terrinha, junto da família e dos grandes amigos.

E fazer amizades verdadeiras num país tão individualista como os EUA não é uma tarefa fácil. O César sabe bem e até me convidou para passar temporadas maiores por lá. Vamos ver. Tudo depende de como as coisas vão acontecer aqui, onde a família Britto cravou sua bandeira. E ainda temos muito o que construir. Mas, com certeza, nós faremos outras visitas como essa, afinal, já aprendemos o caminho.

Foto7 Carta aberta aos amigos

Na viagem de volta ao Brasil, a Britto’s family voou para SP enquanto o César voava para Curitiba. E lá, o Cemin vai encontrar o André, nosso outro amigão, neste fim-de-semana. Pena eu não poderei estar com eles, pois eu e minha mulher seremos padrinhos de casamento no interior de SP, no sábado. Mas, sei que os dois companheiros vão matar a saudade e comer um churrasquinho no capricho e isso é o que vale. Espero que tenham tempo para ler este texto, escrito com a alma e o coração.

Lembrem-se sempre: é muito difícil encontrar um bom amigo, mais difícil ainda deixá-lo e simplesmente impossível esquecê-lo, não importa a distância. E quero que saibam: eu me orgulho muito de tê-los como amigos.

Foto8 Carta aberta aos amigos

Aproveito para agradecer as centenas de mensagens que os fãs tem mandado para o blog. Este relacionamento virtual também tem um valor imenso e eu sou muito grato a todos, de verdade.

Hilton Britto jr.

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12
out
16:20

Eu sei quem matou Michael Jackson

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Não dá mais para dizer que só no Brasil não se faz justiça ou que a justiça é lenta ou que ela é falha ou que, por vezes, a justiça é injusta. O assassinato de Michael Jackson foi obra de um algoz que começou a persegui-lo ainda nos tempos do Jackson 5. E seu assassino, que nunca teve cara, identidade e muito menos coração, continua livre, pronto para fazer novas vítimas.

O crime fatal contra Jack começou a se configurar no longínquo dia em que ele e os irmãos apareceram na TV. O mundo aplaudia os Jackson 5, mas o deslumbramento coletivo era mesmo com o caçula, o “fedelho” (para usar uma expressão da época) que cantava e dançava como nenhum outro daquela tenra idade.

Veio a fama, veio o dinheiro e vieram os problemas. Estes, abafados ao máximo, até porque, naquele tempo pouco se sabia e menos ainda se falava sobre os bastidores do show business. Coluna social era o máximo da ousadia. Tablóide, por aqui, era uma palavra a se procurar o significado em dicionário. E olhe lá.

Considerando a máxima de que criança não trabalha, criança dá trabalho, Michael nunca teve infância. Sob o chicote psicológico do próprio pai, dedicou todo o seu tempo para ensaios e viagens exaustivas.

De repente, se tornou homem, declarou independência familiar, separando-se dos irmãos e do pai graças a um talento fora do comum. Ele era mesmo fora de série, na verdadeira acepção da palavra. Muitos, milhares, o imitam, mas ninguém é capaz de fazer o que ele fez.

Um sucesso atrás do outro, Michael chegou ao topo com “Thriller”. Nem os Beatles venderam tantos discos. Faço um parêntese para dizer que o meu exemplar, comprado naquele ano, não vendo por dinheiro nenhum. Não adianta insistir. E olha que é vinil.

Bem, mas depois que alguém chega ao lugar mais alto, é de se imaginar que o próximo passo seja no caminho inverso. Poucos conseguem se manter no rarefeito “Olimpo” da fama. E a descida de MJ foi em queda livre, acelerada pelas acusações de pedofilia e todo o impacto que elas poderiam causar na vida de um artista deste porte. Os tablóides se esbaldaram.

Vieram os tribunais, os acordos milionários, as sentenças duvidosas, e a reclusão. Cercado por todos os lados, Michael Jackson se auto-exilou em seu próprio lar e na sua própria excentricidade. E ele, que teve o mundo a seus pés, a indústria do entretenimento a seu dispor e os jornalistas e críticos como parceiros, de repente, se vê sozinho e abandonado no meio do caminho.

Tente imaginar as pressões que MJ sofreu. O mundo esperando um novo sucesso, um novo lance de genialidade, seus produtores e a própria família sobrevoando-lhe a cabeça, feito abutres. E a imprensa duvidando da capacidade dele para administrar tudo isso.

Está certo que o mundo é dos fortes e que aos fracos abate, mas a imagem de MJ sempre foi de fragilidade, tanto física quanto psicológica. Dava-me a impressão de que toda a indispensável estrutura de caráter e personalidade que forja os seres humanos, no caso dele, foi construída sobre um vazio. MJ era, por assim dizer, uma jóia oca, sem recheio.

Mesmo assim, Michael se prepara para retornar em grande estilo. Ninguém vê, mas ele está lá, ensaiando para 50 derradeiros shows. Até porque ele precisa de dinheiro para aplacar a iminente falência que se avizinha, e que, talvez nem ele próprio tenha percebido, contribuiu para liquidá-lo.

Neste momento, percebe-se o quanto os jornais sensacionalistas podem ser cruéis, já que espalham aos quatro cantos que Jackson está muito doente, e que por este motivo dificilmente subirá ao palco para realizar sequer o primeiro da tão esperada série de shows. Os ingressos já estão vendidos. E ele terá que devolver o dinheiro. Ao mesmo tempo (eu li, ninguém me disse), insinuações dão conta de que o astro esta a beira da morte. Definhando.

Mas, afinal, que doença é essa? Ou melhor, que invenção foi aquela, segundo a qual MJ já estava com o pé na cova? Quem foi o maldoso que espalhou este boato? E com que propósito?

É claro que, agora, se sabe que nada disso era verdade. Vídeos dos ensaios nos revelam um MJ exatamente como todos o conheceram: cheio de vida, de talento, transpirando o desejo de retornar aos palcos e reencontrar seus fãs.

Muito bem, chegou a hora de dizer quem matou Michael Jackson. Aquele que roubou-lhe a infância, que o transformou num astro, e que depois decretou a sua queda livre, amplificou o comportamento duvidoso de sua vida particular, e que também se encarregou de mentir que ele estaria definhando, aquele mesmo... foi “ele” o responsável pela morte prematura do maior ídolo pop da história.

“Mas, quem... quem? Fala logo quem foi este crápula! Revele-nos de uma vez por todas! Quem, afinal, seria capaz de construir um astro para, anos depois, ter o sarcástico prazer de aniquilá-lo para sempre?”

Eu digo com todas as letras: quem matou Michael Jackson foi a “mídia”! Quando digo mídia, falo de todos os atores que formam a indústria (ou seria o circo?) do entretenimento, tais como agentes, produtores executivos, empresários, donos de gravadoras, assessores, advogados, jornalistas, enfim, todos os que se empenharam em construir uma máquina de fazer dinheiro, sem levar em conta que aquele mega-astro era um homem, um ser humano com suas fragilidades, precisando de carinho, de compreensão, de descanso e de outros tantos afagos. E aqui chamo a atenção em especial para os tablóides, que na ânsia de produzir artigos sensacionalistas para vender mais e mais jornais, abusaram da liberdade de expressão, com suas “invencionices”, capazes tanto de turbinar para o bem quanto para o mal a carreira de qualquer um, até do maior astro pop de todos os tempos.

Sim, amigos, Michael Jackson foi uma vítima da mídia. Podem continuar procurando nos lençóis, no tapete do quarto, nos frascos de analgésicos, entre os empregados da mansão ou nas janelas escancaradas para supostos invasores. O culpado pelo fim trágico de um homem único na sua obra, trajetória e legado não tem cara porque é uma instituição. Quem matou Michael Jackson está, neste exato momento, preocupado em garimpar outro que o substitua, porque o show nunca pode parar, não é mesmo?

E, para meu espanto, acabo de ouvir uma música nova de Michael Jackson. Está tocando na internet, nas rádios. É inédita! Não me peçam para explicar, mas é isso. Todos nós vamos dançar ao som do derradeiro sucesso do astro falecido. E, muito provavelmente, haja algum produtor concluindo: acho que matamos a galinha dos ovos de ouro!

É meus amigos, assim como a mídia tem o poder de construir astros e depois desconstruí-los, ela também é capaz de ressuscitar quem já morreu.

This is it.

Hilton Britto Jr.

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