Um dos aspectos mais reveladores levantados pela pesquisa CNI/Ibope que apontou reprovação de 68% ao governo Dilma é que ele agora perde até mesmo onde costumava ganhar. Isto é, em menos de seis meses do segundo mandato, torrou-se um capital, em prestígio e popularidade, construído ao longo de anos de gestão.

Que as várias áreas do governo colecionam índices baixos de avaliação não chega a ser novidade. Mas que o combate a fome e a miséria – principal marca dos governos petistas – tenha reprovação de 68% é demolidor para o partido que tem justamente nos resultados desta área seu mais importante trunfo. A percepção negativa, em tamanha intensidade, tampouco faz justiça às realizações do governo no combate à desigualdade – reconhecidas até internacionalmente.

Outro dado relevante é a brusca queda, de cinco pontos em três meses, na aprovação de Dilma no Nordeste. Na região, tradicional reduto petista, onde a presidente sempre obteve seu melhor desempenho, o índice de “ótimo e bom” caiu de 18% para 13%. O resultado é grave também para o PT, que desidrata na região que é determinante para seu sucesso eleitoral.

Faltando três anos e meio para o fim deste mandato de Dilma, é impensável que a presidente permaneça por tanto tempo no “volume morto” em matéria de popularidade – para ficar na expressão usada por Lula para definir a situação. A esperança é que, tendo batido no fundo, comece a emergir, para o bem de todos. Nem mesmo a oposição tem a ganhar com a ruína econômica e política de um país conduzido por um governo fraco.

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Uma semana depois de afirmar que o PT e Dilma estão "no volume morto", o ex-presidente Lula baixou em Brasília para liderar a operação de defesa do partido e do governo. A visita do petista coincide com um período de ausência da presidente, que está nos Estados Unidos - o que instaurou um clima de ambivalência no poder central e tornou patente a fragilidade de Dilma.

Antes de reunir-se com senadores e deputados do partido, Lula esteve com o marqueteiro João Santana, que veio da Argentina para acudir a emergência petista. O ex-presidente teria reconhecido o "erro" político de ter feito críticas públicas ao governo e à própria legenda. Sabe que, vindas dele, as palavras têm peso redobrado.

Horas antes de encontrar-se com Lula, petistas de alta patente tentavam contemporizar. "Eu não vejo problema nas contradições. Isso é bom, isso estimula. Pior é ter um partido que toma as decisões na base do cabresto" - declarou o líder do governo no senado, Delcídio Amaral.

Sempre reunido a portas fechadas e sem falar com a imprensa, a passagem de Lula por Brasília denota a gravidade do momento político. Até o local do encontro do ex-presidente com os parlamentares parece ter sido escolhido a dedo para afastar militantes e garantir a reserva nas conversas: o distante Instituto Israel Pinheiro, às margens do Lago Paranoá, junto à Ermida Dom Bosco. Ali, a uma temperatura de 13 graus - inusitada para Brasília, Lula buscou travar uma conversa que injetasse ânimo na tropa do Congresso e a levasse a reagir à crise do partido.

Nesta terça, Lula usará seu capital político em tarefa muito mais difícil: arrancar um armistício do irredutível pemedebista Renan Calheiros. Num café da manhã na residência oficial do presidente do senado, Lula gastará parte do seu crédito em prestígio para apelar por governabilidade. E pela manutenção da aliança do PMDB com o governo, pelo menos até que se inicie o processo sucessório de Dilma.

O risco é falar para ouvidos moucos de quem já não tem mais nada a ver com o governo que ajudou a eleger.

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O ministro Eliseu Padilha, principal auxiliar do vice, Michel Temer, na articulação política do governo, pilota bem mais que a Secretaria Especial da Aviação Civil. Graças à sua atuação e trânsito no Congresso, o Planalto prepara uma espécie de vôo rasante sobre o plenário da Câmara esta quarta, para aprovar a medida provisória que na prática aumenta o gasto das empresas com impostos sobre a folha de pagamento. Para isso contará com alguns bilhões do orçamento, na forma de liberação de emendas.

"Nós trabalhamos com um horizonte de R$ 4,9 bi" - declara Padilha. Ex-parlamentar experiente, o pemedebista faz defesa firme deste mecanismo de conquista de apoio político. "É lei [liberar emendas]! Se no Parlamento houver dúvida com relação à lei, se no Executivo houver dúvida com relação à lei orçamentária, nós temos de parar de legislar!" E ressalta a demora na abertura dos cofres. "Demorou! Estamos no sexto mês do ano e ainda não começamos a processar. Pretendemos que este processamento comece ainda esta semana".

Padilha esclarece também com segurança e naturalidade que, desta vez, "não fica ninguém para trás", ao lembrar que os novos parlamentares também serão contemplados com a súbita generosidade do governo. Atitude, aliás, que contagiou até o inabalável ministro da Fazenda.

Questionado sobre o montante bilionário prometido em emendas - que sozinho consumirá mais de um terço da economia pretendida com o próprio fim da desonareção -, o  pemedebista confirma: "foi o que o ministro Levy nos deu para trabalharmos em todos os horizontes até o final do ano, começando essa semana".

 

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O governo ganhou ânimo novo depois da aprovação da maior parte do pacote do ajuste fiscal no Congresso e se prepara para virar a página. A partir da semana que vem, o Planalto fará uma série de anúncios da chamada "agenda do crescimento". Na terça, dia 2, anuncia o Plano Safra, com estímulos para à agricultura. Na terça seguinte, 9, virá o esperado plano de concessões. Ao abrir oportunidades de negócios aos empresários, o governo tenta estimular investimentos, em queda há sete meses.

As medidas são uma reação do governo para evitar que a economia brasileira mergulhe numa recessão. O ministro da Fazenda disse hoje que é preciso "foco" e "ações enérgicas contra o desemprego". O governo recebeu com certo alívio a anúncio do PIB do primeiro trimestre. A economia encolheu, mas podia ter sido pior.

Segundo o IBGE, nos primeiros três meses deste ano: o recuo na economia foi de 0,2% em relação ao último trimestre de 2014, 3 de 1,6% comparado com o mesmo período do ano passado.

O resultado negativo foi puxado pela queda na atividade do setor de serviços (-0,7%), na indústria (-0,3%), principalmente a de transformação, como a de automóveis, no consumo das famílias (-1,5%) e nos investimentos e gastos do governo (-1,3%). O resultado seria pior, não fosse pelo desempenho positivo da agropecuária (+4,7%) e das exportações (+1,3%). Para o ministro Levy, o período de incertezas passou e a recuperação da economia deve começar no segundo semestre.

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A decisão do Senado, nesta quarta, ao confirmar o novo cálculo do fator previdenciário, que na prática põe fim ao redutor da aposentadoria criado durante gestão tucana, tem impacto bilionário ao longo dos próximos anos e o efeito de uma bomba-relógio - não para Dilma, mas para seus sucessores.

Durante a sessão de votação do tema, introduzida de carona pelos deputados numa medida provisória do ajuste fiscal, vários senadores aliados apelaram à presidente para que não vete este trecho da nova lei. E a advertiram de que o Congresso derrubará facilmente o veto, fazendo valer o fim do fator.

Dilma tem realmente esta opção, principalmente se preferir evitar o desgaste político redobrado. Neste caso, deixará para seus sucessores um rombo nas contas da Previdência estimado em R$ 40 bi para os próximos dez anos - segundo cálculos do governo. Ocorre que tal decisão não guarda qualquer coerência com seu esforço de saneamento das contas públicas.

Agora, o governo tem um mês para inventar uma solução alternativa que compense os aposentados. Mas ela tem de ser convincente o bastante para evitar a derrubada do veto no Congresso. A não ser que Dilma prefira seguir o conselho dos senadores e manter armada a bomba-relógio.

 

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O senador Renan Calheiros partiu da retórica para a ação. Depois de passar três meses atacando o ajuste fiscal encaminhado pelo Planalto e reclamando que as medidas sinalizem para iniciativas de reativação da economia, o pemedebista resolveu assumir ele mesmo o protagonismo da questão. Ao convocar a Brasília todos os governadores dos Estados - e ser atendido por 23 de 27 deles - Renan mostra poder de fogo suficiente para instalar um governo paralelo.

O presidente do Senado chamou para si a responsabilidade de coordenar a reconfiguração do pacto federativo. Traduzindo, deu a largada a um movimento para redistribuir as fatias da arrecadação federal. Foi ouvido e aplaudido pelos governadores, aos quais virá sempre a calhar qualquer iniciativa que lhes reforce o caixa. Ainda que esse movimento esteja na direção contrária dos esforços da equipe econômica de Dilma, que há seis meses busca fórmulas de estancar gastos e forrar os próprios cofres.

Ao mobilizar governadores em torno de uma causa que se opõe frontalmente aos projetos do Planalto, Renan a um só tempo explicita a inação do comando do Executivo e oferece uma alternativa de interlocução que mora bem no centro da Praça dos Três Poderes. Afinal, é no Congresso, presidido pelo próprio senador, que reside o poder de redesenhar o bolo de recursos gerado pelos impostos pagos pelos cidadãos.

Portanto, que ninguém estranhe os movimentos de Renan Calheiros, que vão muito além de ocupar espaços vazios deixados pela gestão desorientada de Dilma. O governo paralelo do senador está apenas começando.

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Com Cláudia Gonçalves e Taciana Collet, TV Record

Depois da derrota no plenário da Câmara na virada da quarta para a quinta-feira, em que o oportunismo de um aliado fulminou de uma só tacada toda a economia pretendida pelo Planalto com o ajuste fiscal  – o vice-presidente Michel Temer admitiu que o governo “fará adaptações” no fator previdenciário. O mecanismo, instituído por Fernando Henrique, funciona como redutor do benefício para aposentadorias precoces.

Diante do risco da derrota se repetir no Senado, Temer já reduz para 60 dias o prazo para apresentação de uma fórmula alternativa. “É muito provável que este fórum evite a aprovação que seu deu na quarta, do fator previdenciário” – declarou.

A disposição do governo de criar uma alternativa que amenizasse a tungada nas aposentadorias já havia sido percebida por aliados especialistas no tema, como os senadores petistas Paulo Paim e Paulo Rocha, durante a negociação das medidas provisórias do ajuste. A criação por decreto da presidente Dilma de um fórum para elaborar, em 180 dias, uma saída para a questão, foi a deixa que faltava.

Paim identifica a  falha na negociação: “O governo errou ao não permitir que os relatores já inserissem a alternativa no texto da medida provisória”. Isto é, se a possibilidade de flexibilização já existia, o Planalto deixou de faturar politicamente ao abrir mão do protagonismo na mudança e ainda perdeu o controle sobre a dose da correção.

O jogo foi combinado entre o petebista Arnaldo Farias de Sá, autor do destaque que fez o fator previdenciário pegar carona no ajuste fiscal, e Paim. A dobradinha  entre deputado e senador pode ter revertido a economia pretendida de R$ 18 bi com o ajuste, num virtual gasto de 40 bi, em dez anos, conforme estimou o ministério da Previdência.

E, desta vez, não vai dar para culpar a oposição.

 

 

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A mais nova forma de protesto adotada por parte da população agora tem também novo alvo: Luís Inácio Lula da Silva. Se o que movia o panelaço há dois meses era o desejo de silenciar Dilma Rousseff e repudiar seu discurso, contraditório com o adotado na campanha - agora a forma de expressão ruidosa e indignada afeta o coração do petismo: sua figura maior, o ex-presidente, que se julga imbatível nas urnas.

O ensurdecedor ruído do metal, expressivo e simbólico, vai muito além da reprovação ao governo de Dilma. A mensagem transborda para a rejeição ao PT, que avança impulsionada pela sequencia demolidora de revelações da Operação Lava Jato e pela sucessão de erros do partido. Ouvir o presidente Rui Falcão prometer a expulsão dos petistas que venham a ser condenados pela Justiça soa tardio e inócuo.

O partido também promete não mais recolher recursos privados para suas campanhas. São profissões de fé que chegam todas muito tarde - talvez tarde demais para resgatar a imagem da legenda, que foi tão importante para as transformações que o país viveu nas últimas décadas.

Enquanto Lula e Rui Falcão falavam na tv e as caçarolas tiniam às janelas, as redes sociais distribuíam imagens do panelaço, num impressionante e instantâneo efeito multiplicador, e o plenário da Câmara barrava a primeira medida do ajuste fiscal. Oportunista, o deputado Jair Bolsonaro - cuja fama dispensa adjetivos e apresentações - foi ao salão verde, antessala do plenário, com duas panelas de alumínio, para brandi-las no ouvido do líder do governo na Câmara, o deputado petista José Guimarães - aquele que protagonizou em 2005 o escândalo dos dólares na cueca.

Triste Brasil. Oh, quão dessemelhante!

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Muito longe do que propôs a equipe econômica pouco depois da vitória de Dilma ainda em 2014, o conjunto de medidas que começa a ser votado hoje na Câmara é a primeira parte de um ajuste possível. Depois de três meses de difíceis negociações, o Congresso mudou significativamente as medidas, reduzindo a expectativa de economia de R$ 18 bilhões para uma cifra ainda não revelada pela área financeira do governo.

A esta altura, o ajuste interessa mais pelo sinal que dá aos mercados, interno e externo, de que o Brasil pretende mesmo corrigir rumos, tanto que até o Congresso está colaborando. A possível vitória na votação, construída a qualquer custo, também funcionará como demonstração de que o governo afinal não está derretendo e ainda consegue conciliar aliados.

A pequena dose de otimismo que a vitória nesta votação representa esbarra, contudo, na segunda parte do ajuste, ainda mais difícil que a primeira: a medida que reduz drasticamente a desoneração da folha das empresas - identificada pela maioria como aumento de impostos. O argumento da equipe econômica de que "esta brincadeira" - como disse o ministro Levy - custa bilhões e não vale mais a pena, ainda está longe de convencer alguém.

A terceira dose do ajuste virá na forma de um duro golpe nas próprias contas do governo: o maior contingenciamento de que se teve notícia nos últimos governos. E o golpe será tanto maior quanto mais for preciso ceder ao Congresso na negociação do pacote, como frisou nesta segunda o articulador político do governo, o vice Michel Temer.

Há pouco a comemorar com as votações da semana que será decisiva para o ajuste fiscal. Mas seria ainda pior se o Planalto não houvesse entendido que pior que o ajuste possível seria a derrota - essa sim capaz de chancelar a fraqueza do governo empossado há apenas quatro meses.

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O senador alagoano Renan Calheiros sempre foi conhecido como homem afável no trato, mas mercurial quando se trata de uma idéia fixa. E uma dessas determinações pessoais acima de todas tem dominado o comportamento aparentemente imprevisível do presidente do Senado: a de resgatar a própria imagem perante a opinião pública.

O pemedebista não hesitou em confrontar seu colega da Câmara, Eduardo Cunha, ao se opor abertamente ao projeto que permite a terceirização de atividade fim. Chamou o texto de "retrocesso", "involução", reduz direitos individuais e coletivos, garantidos em Constituição e sinalizou que vai engavetá-lo por tempo indeterminado. A posição agrada o Ministro do Trabalho e o governo, mas engana-se quem pensa que Renan está finalmente agindo como aliado.

De olho em seu próprio projeto, o de auto-resgate perante à opinião pública, repetiu aos repórteres: "nós temos no Brasil doze milhões de terceirizados. Temos de regulamentar os existentes! Essa regulamentação não pode ser só a da atividade fim. Isso é uma inversão!" Um líder sindical não faria melhor.

O mesmo tom foi adotado na crítica ao ajuste fiscal, já na primeira hora, quando o governo tornou pública a intenção de mudar regras do seguro desemprego, abono, auxílio doença e pensões. Formulou duas ou três frases que passou a repetir, também para marcar de que lado do debate estava: "a população mais pobre não pode pagar a conta deste ajuste! O Estado tem de fazer o seu papel e mostrar onde vai cortar." Até hoje não mudou de posição.

Renan, afinal, está onde sempre esteve: do próprio lado. Só que agora tem mais pressa.

 

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