Faltando três anos e meio para a sucessão da petista Dilma Rousseff, o principal sócio do governo começa a cobiçar a cadeira presidencial, e a disputa interna por ela já é indisfarçável. Além do vice, Michel Temer, no páreo já aparecem nomes como o do prefeito do Rio, Eduardo Paes, e até o da ministra da Agricultura, a neo-pemedebista Kátia Abreu.

Afinal são seis eleições consecutivas - longos 24 anos - sem concorrer ao principal cargo da República. Desde que Orestes Quércia arriscou-se, em 1994, e terminou a disputa eleitoral num melancólico quarto lugar, nenhum outro pemedebista ousou aspirar o comando do Executivo. Até porque o maior partido do país não parava em pé, tais eram as fraturas provocadas pela disputa interna travada por grupos, facções e líderes regionais.

O próprio Temer, nos seus vários mandatos como presidente da legenda, enfrentava batalhas internas fratricidas a cada convenção partidária, manobras com requintes de conspiração, sabotagens de parte a parte e malandragens de toda ordem, até, ano após ano, formar uma corrente mais ou menos majoritária, uma união precária e de ocasião - agora, novamente posta a prova.

O paulista consolidou, a custa de sua prática cotidiana, uma imagem de temperança e equilíbrio, combinada com olímpica discrição que quase o apaga da cena política no primeiro mandato de Dilma. Características que hoje tornam-se essenciais no auge de crise que ameça desmantelar a gestão petista.

Seu trunfo é justamente manter-se calmo, ante os destemperados e pouco razoáveis Eduardo Cunha e Renan Calheiros, ambos com os nervos e o tirocínio político fora do prumo, por causa da Lava-Jato.

Além de calmo, Temer também está radiante - aliás, como nunca.

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Os ministros Joaquim Levy, da Fazenda, e Nelson Barbosa, do Planejamento, foram perguntados nesta quarta porque optaram por mudança tão radical de rumos da economia num intervalo de tão curto de tempo. Em maio, o governo anunciou corte de quase R$ 70 bi, e previu recuperação para breve. Nesta quarta, menos de dois meses depois, a dupla aprofundou o corte, desistiu da economia que propunha e jogou para 2017 a estabilização econômica.

A platéia que lotou o auditório da Fazenda para ouvir a guinada dos caciques das finanças públicas do país ficou com algumas dúvidas na cabeça. Teriam os ministros errado na conta em maio? E será que acertaram agora?

Ao todo, com o bloqueio de mais R$ 8,6 bi divulgado nesta quarta, o corte no orçamento acabou ficando na casa dos R$ 80 bi - cifra que havia sido defendida por Levy em maio, quando o titular da Fazenda acabou vencido no debate dentro do governo e sequer compareceu ao anúncio da tesourada, feito somente por Barbosa.

Naquela altura, as calculadoras do governo não apontavam a queda abissal da receita, de R$ 46 bi, nem o aumento de gastos de mais de R$ 11bi. O resultado desta soma foi uma conta quase tão alta quanto a própria economia que o governo prometia fazer para honrar a dívida pública - o superávit de R$ 66,3 bilhões. O valor, afinal, seria garantidor da calma do mercado e da credibilidade na economia brasileira.

Só que não. De uma canetada, todas esses pilares, que eram defendidos como única alternativa ao fim do mundo, se transformam em letra morta - página virada, diante de um cenário ainda mais grave. E de uma impensável imprevisibilidade nas contas - para não dizer erro - de mais R$ 58 bi (a soma dos tais R$ 46 bi e dos R$ 11bi).

Que os ministros da equipe econômica sejam aplicados e bem intencionados, ninguém duvida. Mas, diante das cifras, é impossível não ficar com uma incômoda impressão de descontrole.

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O presidente da Câmara não está para recesso parlamentar. Enquanto os outros 512 deputados aproveitam as duas semanas de férias bem longe de Brasília, Eduardo Cunha trabalha sem descanso para salvar-se das garras dos procuradores e do juiz da Lava-Jato. Para isso, lançou mão da defesa do insuspeito Antônio Fernando de Souza - ninguém menos que o ex-procurador geral que denunciou os 40 envolvidos no mensalão.

Cunha também não teve o menor embaraço em usar de seu cargo de presidente da Câmara para pedir uma audiência ao presidente do Supremo, e comparecer pessoalmente ao gabinete de Ricardo Lewandowski para tratar de pleito diretamente relacionado à suspeita de corrupção que enfrenta como deputado.

E o pedido não foi nada singelo: na prática, Cunha, acompanhado do ex-procurador, foi solicitar de Lewandowski que resgate imediatamente das mãos do juiz Sérgio Moro e dos procuradores de Curitiba a parte do inquérito em que é citado. De preferência, sem ouvir Moro. Afinal, o presidente da Câmara tem foro privilegiado.

Lewandowski nada respondeu, segundo relato do próprio advogado de Cunha. O mesmo episódio teria desfecho bem diferente, estivesse ainda no cargo o hoje ex-presidente do Supremo, Joaquim Barbosa - que, aliás, relatou a ação penal resultante da denúncia do ex-procurador, com as consequências que todo brasileiro conhece. Dificilmente semelhante encontro teria ocorrido.

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É certo que o presidente da Câmara tem poder de fogo. Ninguém nega que para qualquer chefe do Executivo é altamente inconveniente ter como opositor o comandante da pauta da Câmara dos Deputados.

Nesta sexta-feira, por exemplo, último dia antes do recesso branco do Congresso, numa estranha sessão solene rarefeita de deputados, foram lidos os requerimentos de criação de nada menos que 4 CPIs - dentre as quais a do BNDES. É só a primeira parte do troco que Eduardo Cunha pretende dar à suposta conspiração do Planalto da qual seria vítima.

Mas a espetacular ruptura com o governo protagonizada nesta sexta pelo pemedebista também é reveladora de sua fragilidade e isolamento. O gesto forçou seu partido a explicitar que se trata de uma iniciativa individual e que o fim da aliança com o PT é assunto só para a Executiva do PMDB.

Na batalha surda por poder dentro do partido, nem Michel Temer, nem Renan Calheiros arriscariam um fio de seus caros cabelos pelo deputado carioca, líder de um baixo clero de pouca densidade ideológica na Câmara e de convicções firmes como uma gelatina.

Somente em agosto é que se saberá se Cunha terá sucesso em sua cruzada opositora ou se o tiro disparado pelos procuradores da Lava-Jato encurtarão sua trajetória. O instinto de sobrevivência da maioria dos deputados não recomenda abraçar causas individuais, ainda mais se colar em Cunha - como parece que colou - a acusação de achaque e propina feita de viva voz por depoente da Lava-Jato.

O verdadeiro risco, calculado neste momento por boa parte dos agentes políticos, é se Eduardo Cunha, no limite do contra-ataque, resolver ele próprio se tornar um delator de práticas pouco republicanas de seus pares.

Em Brasília, ninguém paga pra ver Eduardo Cunha se transformar no novo homem-bomba da República.

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O trem descarrilhado que se tornou a política brasileira, como efeito colateral da Operação Lava-Jato fez a sua mais perigosa curva esta manhã, com o destemperado anúncio de ruptura do presidente da Câmara com o governo. É pelas mãos do pemedebista Eduardo Cunha que passarão os pedidos de impeachment da presidente Dilma.

O deputado tem o controle da pauta da Câmara e influirá de forma decisiva sobre o andamento dos requerimentos, que, contudo, precisam ter base constitucional para sua tramitação, até a votação em plenário.

Com a ruptura anunciada com estardalhaço e a ameaça de passar a trabalhar junto ao PMDB a partir de agora pela ruptura com o governo, Cunha desvia o foco da gravíssima acusação que pesa contra ele: a de exigir propina de, ao todo, US$ 15 milhões de dólares - conforme depoimento de Júlio Camargo aos procuradores da Lava-Jato.

O deputado não reivindicou que seu partido o acompanhe na ruptura, nem que encampe sua defesa. Ressaltou que é uma atitude individual. E assegurou que manterá postura de respeito às regras institucionais, como presidente da Câmara. Mas sua atitude põe em cheque a aliança e constrange o vice, Michel Temer.

Com os nervos abalados, mas mantendo a racionalidade, Cunha terá um freio importante: seus pares na Câmara. Se a investigação avançar perigosamente contra sua condição ética de manter-se na presidência da Casa, pode "desidratar" politicamente - como se diz em Brasília - e terminar sujeito a um pedido de afastamento e até à cassação.

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A presidente Dilma abriu a reunião de coordenação desta segunda, à qual estavam presentes os ministros da Fazenda, Joaquim Levy, e o do Planejamento, Nelson Barbosa, com uma ordem expressa: enquanto não houver uma posição de governo sobre o assunto, nenhum ministro discutirá a eventual redução da meta de superávit - a economia que o governo faz para honrar a divida pública. A meta para este ano é de 1,1% do PIB.

"A presidente foi bastante dura a respeito do tema e deixou claro que considera o debate extemporâneo e inconveniente" - declara um ministro palaciano que participou da reunião. O governo empenhou grande esforço na votação do ajuste fiscal no Congresso, entre outras razões, para cumprir a meta do superavit.

A idéia de criação de bandas de variação para o superávit, a exemplo o que ocorre com a inflação, chegou a ser aventada pelo ministro Nelson Barbosa. O senador Romero Jucá tornou pública a intenção do governo de alterar o esforço de economia.

Sem ambiente político para propor novas medidas de ajuste, nem para criar impostos, e com a arrecadação em queda livre, a idéia de reduzir o superávit para muitos soou como uma simples adaptação ao novo quadro. "Se o pais não tem condição de realizar a meta fiscal, não se pode manter esta ficção diante de uma realidade totalmente divergente" - declarou recentemente o senador pemedebista Eunicio Oliveira, ao deixar reunião na Fazenda.

A presidente considerou tudo uma grande precipitação. E baixou a lei do silêncio, deixando claro que se a decisão um dia for tomada, passará por uma instância bem mais alta que o ministerial. "Esse assunto só existe na imprensa" - disse o ministro Levy, outra vez. afinado com a chefe.

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O senador Renan Calheiros começa a conquistar a posição que sempre almejou, desde que em 2007 foi forçado a renunciar a presidência do Senado, no auge de um escândalo que abalou sua trajetória política e sua vida privada. O pemedebista, que trabalhou com obstinação cega para recuperar sua imagem pública, agora circula pelos corredores e salões do Senado cercado de manifestantes que entoam palavra de ordem um dia utilizada para saudar Lula: "Renan, guerreiro, do povo brasileiro!"

A ovação parte de grupos corporativos que cobram aumento de salários ou outros benefícios e exploram a oposição que Renan faz ao governo desde que seu nome foi incluído na lista de investigados da Operação Lava-Jato. Renan manifestou-se contra o ajuste fiscal desde a primeira hora e tem se mantido crítico à gestão da presidente Dilma - atitude recebida com festa por estes grupos de pressão. Tornou-se um aliado estratégico, uma vez que controla a pauta de votações da Casa.

Nesta quarta, enquanto Michel Temer, presidente da República em exercício, tentava acalmar ânimos e achar a porta de saída para a crise política que engolfa o Planalto, Renan partiu novamente para críticas e cobranças ao governo. "A economia vive um momento dramático, não há como relativizar crise, está combinando desemprego alto com inflação alta. E a sociedade está no limite" - decretou. E ainda apresentou a solução: "Não tem mais jeito, o governo vai ter que cortar na própria carne, reduzir ministérios, cortar despesa."

O novo Renan também tem sido mais tolerante que nunca com manifestantes que ocupam as galerias do plenário, vaiam e xingam senadores. Resiste também a atender as queixas de vários dos colegas, que pedem o fim das cornetas e vuvuzelas dos manifestantes, que soam às janelas do senado e infernizam por horas a fio senadores e funcionários.

Por essas ironias e voltas que a vida dá, também agora a Justiça Federal de Brasília transforma Renan em réu justamente no caso que em 2007 o levou à execração pública. Acusado de improbidade adminsitrativa, ele será chamado a esclarecer se recebeu dinheiro da empreiteira Mendes Júnior e com ele cobriu despesas de uma filha com a apresentadora Mônica Veloso. Neste caso, provavelmente, não poderá contar com os manifestantes que hoje o aclamam como herói da Nação.

 

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No auge da crise política de seu segundo mandato, com o impeachment virando palavra corrente e hipótese levada a sério por bem mais gente que oposicionistas, a presidente Dilma decola para outra missão diplomática. Ela ficará fora durante toda a semana para participar da reunião de cúpula dos Brics, na Rússia, e de lá, irá à Itália. Assume o governo, pela segunda semana consecutiva, o vice-presidente Michel Temer.

O compromisso na Rússia é inadiável, segundo fontes diplomáticas. Serve inclusive para manter a aparência de normalidade e evitar espalhar entre a comunidade internacional a noção de que o Brasil vive uma grave crise. A esticada até a Itália também não poderia sair da agenda - seria o terceiro cancelamento, com risco de gerar um incidente diplomático.

Com Mercadante e Edinho Silva, os dois principais ministros do núcleo palaciano, alvejados na operação Lava-Jato, Temer está ainda mais à vontade. Foi o pemedebista quem assumiu nesta segunda a defesa da presidente, singrando entre perguntas duríssimas, que sondavam inclusive a possibilidade de seu partido, o PMDB, ser sócio da tese do impeachment - num ato de sabotagem ao governo e ao próprio Temer.

O vice descartou sabotagem e até negou a crise, ressaltando que ela só ocorre quando o governo perde apoio no Congresso - este, ele próprio está aí para garantir. E exorcizou a palavra impeachment, classificando a idéia de "algo impensável". A verdade é que ela nunca esteve tão presente como nesta segunda-feira nas mentes dos atores políticos, sejam eles de oposição ou de governo.

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Um dos aspectos mais reveladores levantados pela pesquisa CNI/Ibope que apontou reprovação de 68% ao governo Dilma é que ele agora perde até mesmo onde costumava ganhar. Isto é, em menos de seis meses do segundo mandato, torrou-se um capital, em prestígio e popularidade, construído ao longo de anos de gestão.

Que as várias áreas do governo colecionam índices baixos de avaliação não chega a ser novidade. Mas que o combate a fome e a miséria – principal marca dos governos petistas – tenha reprovação de 68% é demolidor para o partido que tem justamente nos resultados desta área seu mais importante trunfo. A percepção negativa, em tamanha intensidade, tampouco faz justiça às realizações do governo no combate à desigualdade – reconhecidas até internacionalmente.

Outro dado relevante é a brusca queda, de cinco pontos em três meses, na aprovação de Dilma no Nordeste. Na região, tradicional reduto petista, onde a presidente sempre obteve seu melhor desempenho, o índice de “ótimo e bom” caiu de 18% para 13%. O resultado é grave também para o PT, que desidrata na região que é determinante para seu sucesso eleitoral.

Faltando três anos e meio para o fim deste mandato de Dilma, é impensável que a presidente permaneça por tanto tempo no “volume morto” em matéria de popularidade – para ficar na expressão usada por Lula para definir a situação. A esperança é que, tendo batido no fundo, comece a emergir, para o bem de todos. Nem mesmo a oposição tem a ganhar com a ruína econômica e política de um país conduzido por um governo fraco.

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O Planalto avaliou como bem sucedido o esforço da presidente Dilma Rousseff de ampliar apoio político ao reunir os governadores. O ato teria funcionado como uma demonstração de força. Descontado o otimismo palaciano, é fato que o evento contou pontos para a presidente, que mobilizou aliados na esfera estadual e colheu manifestações explícitas de apoio, inclusive contra o impeachment.

Vale notar que, entre os governadores escolhidos para resumir o resultado do encontro, não havia nenhum petista. Os representantes da legenda compreenderam o esforço de expressar uma mobilização supra-partidária. Já os tucanos Geraldo Alckmin, de São Paulo, e Marconi Perillo, de Goiás, no papel de porta-vozes dos colegas de suas respectivas regiões, não ousaram destoar do tom geral de cooperação pragmática.

Agora, o próximo passo de Dilma é se antecipar à volta dos trabalhos do Congresso e evitar a todo custo a chamada "pauta-bomba" - de temas espinhosos para o governo. Nesta lista estão as investidas do presidente da Câmara, Eduardo Cunha, de abrir caminho para eventual reprovação das contas do primeiro mandato da petista, e até de um eventual processo de impeachment.

Para neutralizar Cunha e agradar aliados, articuladores e ministros aceleram nomeações para cerca de 200 cargos federais e a liberação de quase cinco bilhões de reais em emendas parlamentares. A fatura vai ser apresentada na segunda-feira, quando Dilma promove no Alvorada um jantar com presidentes de partidos e líderes aliados - o Conselho Político de Governo.

O sucesso desta nova fase pode depender da capacidade de Dilma de mobilizar a própria tropa a virar o jogo, aproveitando momento de fragilidade de um adversário-chave.

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