Por Sílvia Caetano de Barros, de Lisboa, Portugal, especial para este blog
Próximo do final do seu segundo mandato, o Presidente Lula não tem medido esforços para fortalecer o Brasil como uma liderança internacional,o que pode resultar na indicação do país para membro do Conselho Permanente da ONU. Com vistas a alcançar esse objetivo,mais do que simples liderança continental,ele aspira colocar o Brasil na pole position mundial. Nesse contexto é que se deve analisar a reação do Presidente Lula durante a Cimeira Íbero-Americana,motivada pelo seu envolvimento na crise hondurenha,suas relações venezuelanas e a recepção que ofereceu no dia 23 de novembro, em Brasília,ao Presidente do Iran,Ahmadinejad,numa arriscada cartada diplomática.Tudo permeado pela estratégia destinada a conquistar para o Brasil papel de destaque na cena política internacional.
Oficialmente, “ Inovação e Conhecimento” era o tema da Cimeira Ibero-Americana realizada em Lisboa e que contou com a presença do Presidente Luis Inácio da Silva.No entanto, a questão da crise política de Honduras predominou no encontro.Esperava- se a presença de 22 Chefes de Estados,mas esse número ficou em 19,embora todos os países estivessem representados.Apesar da divisão de opinião entre os Chefes de Estado presentes sobre a crise hondurenha,a Cimeira chegou ao final aprovando um “comunicado” onde condena “as graves violações dos direitos e liberdades fundamentais do povo hondurenho” e defendeu “a restituição do Presidente Zelaya ao cargo para que foi democraticamente eleito”.
Antes do término da Cimeira,portanto, da aprovação do comunicado,o Presidente Lula retirou-se alegando problemas de agenda e declarou que se soubesse que a questão hondurenha integraria a discussão não teria participado do encontro.Na prática, a realidade foi outra.Ausente o presidente da Venezuela,Hugo Chávez,cuja esperada presença deixou a diplomacia portuguesa apreensiva por temer seu confronto com o Presidente da Colômbia,Álvaro Uribe,coube ao Presidente brasileiro impor esse tema com a sua posição irredutível em favor do Presidente deposto de Honduras,Manuel Zelaya.Quando as coisas não correram de acordo com seu script,protestou contra a discussão que ele mesmo tinha colocado na cena política e se foi.
Manuel Zelaya foi deposto porque queria modificar o texto constitucional para candidatar-se a um segundo mandato,plano bloqueado pelo Poder Legislativo que, além de lhe negar a pretensão, criou normal legal para considerar crime a alteração da Carta. A destituição foi decretada pelo Supremo Tribunal,que ordenou às Força Armadas sua execução.Assim,foi destituído Manuel Zelaya que, depois de alguns meses fora do pais,voltou sorrateiramente e se materializou na Embaixada do Brasil em Tegucigalpa. A logística foi montada pelo Brasil com participação da Venezuela e da Nicaragua, mas falhou por causa do resultado das eleições. Deposto Zelaya, tomou posse o vice-Presidente, Roberto Micheletti que convocou eleições, quando o candidato Porfirio Lobo, do conservador Partido Nacional,venceu com maioria expressiva de 61% dos votos, triunfo prontamente reconhecido pelo seu rival mais próximo,Elvin Santos,do Partido Liberal,abrindo portas para a pacificação nacional em meio a uma crise que se arrasta há mais de cinco meses.
O derradeiro capítulo aconteceu em meio a Cimeira, quando o Presidente Lula recusou-se a aceitar o resultado do pleito,dividindo opiniões dos Chefes de Estado presentes, sobre a melhor forma de incluir a crise de Honduras no documento final do encontro.Inicialmente,todos concordaram que em Honduras havia acontecido um golpe de Estado,mas as opiniões se mesclaram diante do resultado do pleito que elegeu Porfírio Lobo.O Presidente da Costa Rica,Óscar Arias,prêmio Nobel,deu o tom buscando encontrar uma solução para o problema e segundo o qual,”não reconhecer o processo eleitoral é fazer muito mal ao povo hondurenho.”A exemplo de Arias,a Colômbia,o Peru e o Panamá mostram-se dispostos a reconhecer o resultado das eleições.Enquanto a Venezuela,Cuba,Equador,Nicarágua,México,Uruguai e Argentina ficaram do outro lado, que é o do Presidente Lula. Paralelamente, depois de ter se alinhado aos Chefes de Estado que preconizaram o retorno de Manuel Zelaya ao poder,o Presidente Obama mudou de posição depois das eleições hondurenhas,o que torna ainda mais frágil a posição dos Presidentes Lula e Hugo Chaves.
Não se contesta o sucesso dos esforços que o Presidente Luis Inácio da Silva desenvolve para retirar da linha de pobreza milhões de brasileiros,nem seu legítimo direito de lutar pela transformação do Brasil numa liderança mundial.O que se condena são os métodos empregados para alcançar esse objetivo,bem como todos aqueles utilizados para dotar o Partido dos Trabalhadores de um poder impossível de vencer, a exemplo de tudo que ocorreu nos episódios do “mensalão” e outros semelhantes.Aliar-se à Venezuela e à Nicarágua para defender o retorno do Presidente Manuel Zelaya,quando o que estava por trás eram conveniências e interesses, como a estratégia para realçar uma posição de liderança brasileira nas América Central e Latina, não enobrece nem ilustra a alma do Presidente do Brasil.











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