Foi na última sexta-feira. Ninguém desconfiou que o ministro das Relações Exteriores do Brasil, Celso Amorim, praticaria involuntariamente um ato de quase-sabotagem. Na ausência do presidente, Amorim leu o discurso que seria proferido por Lula, ao receber o prêmio de “Estadista Global” – honraria tida como um esforço de Davos para reconhecer os movimentos sociais anti-globalização.
Amorim pronunciou em plena meca do capitalismo mundial as propostas que são pilares da “nova ordem global”. Sua inocência ajudou a dar credibilidade à cena. Pela boca do ministro, ecoou a voz dos ambientalistas, dos pacifistas, dos defensores dos direitos humanos, de antropólogos, de sociólogos, de líderes comunitários, indígenas, negros, minorias, gays, e de toda uma leva de gente que jamais chegou ou chegará a Davos e seu World Economic Forum.
Foi assim que o ministro, no lugar de Lula, buscou o exemplo do núcleo familiar para falar da necessidade de se enfrentar a desigualdade:
“Alguma casa fica de pé, se o pai e a mãe relegam ao abandono os filhos mais fracos, e concentram toda atenção nos filhos mais fortes e mais bem aquinhoados pela sorte?
É claro que não. Uma casa assim será uma casa frágil, dividida pelo ressentimento e pela insegurança, onde os irmãos se vêem como inimigos e não como membros da mesma família.”
O discurso evolui do relato sobre as transformações sociais e econômicas do Brasil para perguntas incômodas à comunidade internacional, envolvendo fome, violência, desigualdade. Perguntas que são respondidas assim:
“Nos últimos anos, continuamos sacudidos por guerras absurdas. Continuamos destruindo o meio-ambiente. Continuamos assistindo, com compaixão hipócrita, a miséria e a morte assumirem proporções dantescas na África. Continuamos vendo, passivamente, aumentar os campos de refugiados pelo mundo afora.
E vimos, com susto e medo, mas sem que a lição tenha sido corretamente aprendida, para onde a especulação financeira pode nos levar.”
E segue, logo adiante, insistindo, quase impertinente:
“Pergunto: quantas crises serão necessárias para mudarmos de atitude? Quantas hecatombes financeiras teremos condições de suportar até que decidamos fazer o óbvio e o mais correto?
Quantos graus de aquecimento global, quanto degelo, quanto desmatamento e desequilíbrios ecológicos serão necessários para que tomemos a firme decisão de salvar o planeta?”
Nem o melhor redator do Fórum Social Mundial teria superado este discurso. O presidente ainda pregou uma espécie de pacificação mundial pela via do combate à fome. E lançou o que batizou de “brado de otimismo”:
“É hora de re-inventarmos o mundo e suas instituições. Por que ficarmos atrelados a modelos gestados em tempos e realidades tão diversas das que vivemos? O mundo tem que recuperar sua capacidade de criar e de sonhar.
Não podemos retardar soluções que apontam para uma melhor governança mundial, onde governos e nações trabalhem em favor de toda a humanidade.
Precisamos de um novo papel para os governos. E digo que, paradoxalmente, este novo papel é o mais antigo deles: é a recuperação do papel de governar.
Nós fomos eleitos para governar e temos que governar. Mas temos que governar com criatividade e justiça. E fazer isso já, antes que seja tarde.
Não sou apocalíptico, nem estou anunciando o fim do mundo. Estou lançando um brado de otimismo. E dizendo que, mais que nunca, temos nossos destinos em nossas mãos.”
Se houvesse sido proferido por Lula, tal discurso certamente teria outro peso: o do político consagrado internacionalmente. Mas seria irremediavelmente personificado, com a figura do presidente a subtrair-lhe boa parte do valor semântico. Melhor que tenha sido assim, com as palavras valendo o quanto pesam, na inteireza de sua significação. E tomara que elas tenham mantido seu poder de convencimento.
Conheça o discurso previsto para Lula em Davos clicando aqui.











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