O tucano José Serra, no lançamento de sua pré-candidatura neste sábado, abandonou o discurso técnico e racional, e apelou para a emoção, apresentando-se como homem de origem simples, filho de feirante, que dormia no sofá da sala quando jovem.

Ao contrário dos oradores que o antecederam, Serra mudou completamente o tom e o ritmo da festa, ao pedir um minuto de silêncio pelas vítimas das chuvas no Rio. Ao resgatar a figura do pai, nunca antes mencionada em seus discursos, o tucano afirmou: “Ele carregava caixas de frutas para que eu um dia pudesse carregar caixas de livros.” E completou: "Vejo meu pai em cada trabalhador. Eles são os verdadeiros construtores desta nação" - avançando pelo campo semântico de seu verdadeiro adversário, o presidente Lula.

Para falar de educação, voltou à própria infância: "Vejo em cada criança o menino que eu fui. Por isso sempre lutei pela educação dos milhões de filhos do Brasil. E são milhões os filhos do Brasil” , numa citação – ninguém sabe se intencional – ao filme “Lula, o filho do Brasil”.

E depois foi aos netos, segundo ele, “os seres “ que mais o “preenchem no mundo”: “o melhor caminho para eles será a matrícula numa boa escola, e não a carteirinha de um partido” – afirmou.

E defendeu governantes “com alma”:  “Governos, como as pessoas, têm de ter alma. Têm de ser solidários com todos, principalmente com os mais frágeis: os idosos, os deficientes e as  criancinhas. ”

Esse novo Serra, subitamente terno e emocional, promete ser o candidato da união nacional: “De mim ninguém deve esperar que estimule a disputa de ricos contra pobres." E completou:  "É deplorável que haja gente que em nome da política tente dividir o Brasil.”

O novo estilo do candidato faz lembrar a estratégia “Lulinha paz e amor”, da campanha de 2002, quando o petista absorveu ataques sem revidar de forma agressiva e adotou um estilo light, do comportamento ao modo de vestir, afastando o medo do  “petismo de luta”.

Serra, se não pretende ser o anti-Lula. Investe numa imagem anti-Dilma, apostando que a adversária encanará o estilo raivoso de certa parcela dos militantes do PT. Ele agora é o homem que fala com o coração – como anunciou na abertura do discurso.  Só o tempo dirá se se a nova linguagem traduz transformação ou mera estratégia. E que eficiência ela terá.