Aliviado e de cabeça outra vez erguida. O brasiliense iniciou a semana em franco processo de recuperação da autoestima. O habitante da capital, por adoção ou por imposição da vida, sofreu com ela nos últimos terríveis meses em que veio à tona um dos mais graves escândalos de corrupção política dos nossos tempos.

Foi humilhante ver tudo ruir: crenças, expectativas, sonhos. A mancha se espraiou rapidamente pela planície e maculou a imagem de  Brasília. Ninguém mais encontrava o que comemorar nos 50 anos da cidade, batizada um dia de ‘capital da esperança’ – suprema ironia.

No entanto, ao ouvir sua própria história ser contata e recontada mil vezes, a cada momento por um ângulo diferente; cada detalhe de suas esquisitices e de seu modo de vida ser esquadrinhado com obstinação; cada nuance de seus monumentos de concreto ou de papel entrar e sair das lentes de incontáveis câmeras, Brasília se reencontrou consigo própria. Como uma dama que se vê no espelho e nota a passagem do tempo sem mágoa.

Neste 21 de abril, cinquenta anos depois da epopeia de um presidente visionário, cuja ousadia namorou com a falta de juízo, e mudou o destino de milhões, um certo brasiliense vai sair às ruas para ver a cara da sua cidade. É um cidadão diferente, esse. Já não tem mais saudades de casa, das origens, dos afetos deixados lá longe. Ele agora está em casa!

Esse brasiliense amalgamou todos os sotaques, todos  os traços culturais que se fundiram no caldeirão da capital, tornou-se tolerante com as diferenças, e inconformado com as mazelas que o maltratam. E deixou crescer em si o sentimento de pertencer a este lugar. Já não aceita a alcunhas, nem desaforos.

Se faltava para Brasília ser amada, ao completar seus cinquenta anos – tão jovem e tão maltratada – a capital já não cabe em si de tanto galanteio.

Está nascendo hoje um amor renovado pela cidade que nos abrigou a todos - filhos de outras terras - nos estendeu sua generosa mão plana e iluminada, nos deu oportunidade e esperança. Somente agora lhe retribuímos. Que seja em dobro. Por uma questão de justiça.