Do ponto de vista da pluralidade democrática, há que se lamentar a saída de Ciro Gomes da disputa eleitoral, praticamente pré-agendada para a próxima terça-feira. Goste-se ou não do estilo desabrido do cearense, de sua verve e de suas idéias, Ciro cumpre um papel importante no cenário político: justamente o de ser  raro, e dizer o que pensa. E  de costumar trazer à luz algumas verdades conhecidas de todos, mas fazê-lo de modo chocante, quebrando cristais.

Ciro pensa o Brasil, conhece os problemas dos rincões, das metrópoles, os gargalos do desenvolvimento. E deseja com sinceridade elaborar e implantar políticas nas quais acredita e às quais já empregou sua força de trabalho, como ministro de Lula. Mas inviabilizou-se politicamente ao acreditar que o presidente poderia escolher alguém para sucedê-lo que não fosse do PT.

 Transferir seu domicílio eleitoral para São Paulo para fingir atender aos planos de Lula, de tão artificial, chegou a ser ridículo. Ciro errou onde jamais se esperava dele: ao querer agradar a todos e escamotear seu próprio desejo, sua própria natureza franca, às vezes em excesso - esperteza ingênua e fatal.

 O novo 'cabra marcado para morrer' agora anuncia que vai “espernear até terça” para manter a candidatura. Mas sabe que ela depende de muito mais do que da vontade do partido, e que não pode exigir do PSB que vá para o sacrifício por um projeto de candidatura mambembe, quando pode crescer em representação, alimentado pelo fermente governista.

 O outro golpe de morte no “cabra” Ciro foi a trágica polarização que se estabeleceu entre Serra e Dilma – representantes dos dois pensamentos hegemônicos da política brasileira nesta quadra. Mas é tão mais complexa a realidade, onde cambem Marinas, e Aécios, e Heloísas e Buarques! Ou deveriam caber - ao menos para representar mais amplamente as formas de se pensar o Brasil.

 A polarização eliminou a pluralidade do debate, simplificou a resposta de múltipla escolha do vestibular obrigatório de outubro. Apenas Marina Silva segue como alternativa, e não consegue até aqui avançar além de 8% das intenções de voto. Não deixa de ser chocante que a causa do meio-ambiente engaje tão poucos brasileiros.

 E agora, Ciro? Nem candidato a presidente, nem aliado de Lula, nem vice de Dilma, nem governador por São Paulo, nem mesmo deputado. Ciro arrisca ficar sem nada, a não ser com a própria língua afiada e com os sonhos patrióticos de moço impetuoso. Pode até não ser pouco. Pode sempre optar por “ler, escrever e cuidar da mulher”, como afirma. Quem sabe voltar às origens cearenses para tentar retomar do começo sua trajetória, antes do desvio equivocado.

 E pode ainda contar com a mão mais interessada que generosa de Lula e dos petistas numa composição futura, em caso de vitória de Dilma. Pelo menos sai ganhando mais uma valiosa lição da vida política: a de não desconhecer a própria dimensão pessoal, nem na altura, nem da fundura.