Em pouco mais de uma semana, o mesmo rosto, o de Niemeyer, está de volta ao noticiário. Há poucos dias, foi celebrado como um dos geniais criadores de Brasília, cidade monumento, em seu cinquentenário. E agora, recolhido ao hospital, aos 102 anos. A máquina humana de Niemeyer começa a falhar.
Mas não falhou na hora fundamental: a da criação. O noticiário me levou de volta ao brilhante documentário de Fábio Maciel e Sacha, que buscaram uma das frases preferidas do arquiteto para batizá-lo: “A vida é um sopro”, de 2007. O filme é narrado pelo próprio Niemeyer, que fala de si, de política, de arquitetura – e até explica o inexplicável sobre sua obra. Vale a pena revê-lo.
É fascinante ouvir o artista, já idoso, livre de qualquer compromisso com o politicamente (ou verbalmente) correto, relatar como transitou da ditadura da linha reta (“que ofende o espaço”) para a curva, que passou a dominar suas obras, reinventando a lição do mestre Le Corbusier. “A beleza está na curva” – tornou-se uma de suas máximas.
Para quem não entende Niemeyer e sua obra, mas nela habita, como nós brasilienses, o documentário traz explicações fundamentais. O arquiteto vai ao poeta francês Baudelaire para definir sua própria motivação para desenhar e inventar edifícios, praças, monumentos: “o espanto é a característica principal da obra de arte”, diz Niemeyer, ao citar Baudelair. “A minha intenção é que o povo pare para ver algo novo”, esclarece.
E o povo parou para ver desde a Pampulha, em 1940, à Praça dos Três Poderes, em 1960, ao Museu de Niterói, ao de Curitiba, e tantas outras obras espalhadas por França, Itália, Estados Unidos, Angola - feitas de concreto, curvas e espanto.
“Não é o ângulo reto que me atrai, nem a linha reta, dura, criada pelo homem. O que me atrai é a curva livre e sensual. A curva que encontre o curso sinuoso dos nossos rios, das nuvens do céu, do corpo da mulher preferida. De curvas é feito todo o universo – o universo curvo de Einstein” – afirma Niemeyer, em mais um esforço de auto-explicação.
Consciente da própria dimensão diante deste “universo curvo”, Niemeyer passou a propor espaços amplos, vãos imensos, arejados, entre colunas elegantes, mas, particularmente, praças cuja amplidão pode parecer opressora. “A gente tem de olhar para o céu e sentir que é pequenino. A gente tem de ser modesto. Diante da imensidão cósmica, a vida é só um minuto, é só um sopro”, afirma.
Curiosa imagem, quase bíblica. Pois não foi justamente com um sopro que Deus deu a vida a Adão, feito de barro – a massa primordial dos construtores, dos arquitetos?
Niemeyer não é de acreditar nestas coisas de Deus, e de sopros milagrosos. Em sua metáfora, o sopro é símbolo da fugacidade da existência. Mas a sua própria existência escapa a esta regra, eternizada pela obra que criou.
Vida longa ao nosso poeta do concreto!











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