O líder do governo no Senado desafinou, nesta quarta-feira, ao jogar um balde de água fria na moralizadora medida que pretende barrar candidatos com ficha suja na justiça. O texto aprovado pela Câmara será encaminhado ao senado nos próximos dias, mas a pressão a favor da lei chegou antes. Os defensores do projeto Ficha Limpa desembarcaram direto no gabinete do presidente Sarney e obtiveram dele a promessa de priorizar a votação.
A pressa se justifica, uma vez que, segundo interpretação majoritária, se a lei for promulgada até 9 de junho, poderá ser aplicada ainda nas eleições deste ano. Na contramão do uníssono em favor do projeto, Jucá deixou claro que, como líder do governo, não tem compromisso com a data de votação – o que frustra todo o esforço feito até aqui.
E mais: o senador considera que há aspectos da lei que precisam ser detalhados, como o que estabelece que a inelegibilidade do candidato virá em decorrência da condenação por decisão judicial de um “colegiado”. “O que é 'um colegiado'? Isto precisa ficar claro!”, afirma. O comentário sinaliza na direção de outro temor dos defensores da lei: o de que o Senado modificará o texto arduamente negociado com os deputados, forçando, assim, a devolução do projeto à Câmara.
A prioridade de Jucá é a votação do pré-sal, em torno da qual a oposição faz guerra de guerrilha. O líder Artur Virgílio, do PSDB, pressiona para que a questão dos royalties seja definida já, e não depois das eleições. O tucano faz marola, aposta no desgaste do governo, ciente da inviabilidade política de sua pretensão.
Jucá, por sua vez, vende caro o apoio ao Ficha Limpa, justamente para tentar abrir caminho para os projetos do pré-sal, cuja votação tem precedência, em função da urgência constitucional.
No frigir dos ovos, há pouca sinceridade e muito teatro político nas declarações sobre o tema. Mas seria prudente que os senadores atentassem para a importância de um fato, acima do mérito do projeto: o texto, de iniciativa popular, busca iniciar uma faxina na política, tão necessária quanto óbvia, e, surpreendentemente, venceu etapas dificílimas, até chegar às mãos dos senadores. Vai queimar feito batata quente, se não for tratado com a devida deferência.
Atenção, senhores senadores: desta vez, o autor da lei é o povo.











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