O que há dez dias esperava-se que seria um massacre, virou uma tertúlia sobre política externa, na tarde desta terça-feira, na Comissão de Relações Exteriores do Senado. O ministro Celso Amorim, não só não foi cobrado pela oposição, como foi reverenciado como principal artífice da iniciativa diplomática no Irã, que resultou no acordo em torno de aspectos do programa nuclear do país.

O mais duro crítico da política externa de Lula, o senador tucano de formação diplomática Artur Virgílio, não compareceu à audiência. Seu colega de partido e presidente da comissão, Eduardo Azeredo (PSDB/MG) quis no máximo saber de Amorim porque não se explica ao mundo que há um veto religioso no Irã à fabricação da bomba atômica.

Outro potencial algoz do ministro, o senador Pedro Simon, apenas manifestou sua perplexidade diante da carta de Obama a Lula dias antes da assinatura do acordo em Teerã. O senador gaúcho quis que Amorim desse sua interpretação para o comportamento do governo americano, que rejeitou o acordo, mesmo tendo sido cumpridas todas as exigências da carta de Obama.

Já o senador Cristóvam Buarque (PDT/DF), feroz crítico do governo em diversas áreas, fez o mais vigoroso elogio a Amorim: “se fosse resumir o resultado para o Brasil de sua atuação no ministério diria em duas palavras: presença e protagonismo”, declarou o pedetista. O último oposicionista a chegar para a reunião foi Heráclito Fortes (DEM/PI) que sequer teve tempo de entabular sua pergunta, porque a sessão encerrou em seguida.

Amorim respirou aliviado ao final do encontro e fez questão de destacar aos jornalistas que naquela audiência havia sido produzido “um importante consenso” em torno da iniciativa da diplomacia brasileira. Durante o depoimento, o ministro chegou a ser irônico ao mencionar as críticas que haviam sido feitas à Declaração de Teerã. Segundo ele, pessoas que antes questionavam o interesse do Brasil de tornar-se membro permanente do Conselho de Segurança da ONU agora temem que o episódio comprometa as chances brasileiras de obter a cadeira. “Vejam que avanço!” – comemorou o ministro.

Durante o depoimento de Amorim ao Senado, ficou claro que o governo, se não promoveu, pelo menos se beneficiou amplamente do vazamento da carta de Barack Obama a Lula - documento em que o americano estabelece os termos desejáveis para o acordo com o Irã. A revelação de que o Brasil havia agido com o conhecimento dos americanos e na direção de suas propostas eliminou as resistências à iniciativa e desarmou os argumentos da oposição.

Não por acaso, o ministro investiu 45 minutos de seu pronunciamento  num detalhado histórico da entrada do Brasil nesta negociação, o que teria ocorrido justamente porque Lula teria sido “instado” pelo presidente americano a ajudar na questão.

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