O primeiro debate com os presidenciáveis foi o que se esperava dele: revelador - mas a única surpresa foi mesmo Plínio de Arruda Sampaio, do PSOL, que cumpriu o papel de “desconstruir” os adversários, apesar de não conseguir esclarecer como pretende executar seu projeto – que classifica de alternativa ao “bom-mocismo” de seus concorrentes.

- José Serra, do PSDB, foi o autor dos ataques mais duros, focados em Dilma Rousseff, e conseguiu surpreender a petista, como quando criticou o fim do apoio do governo às Apaes – Associações de Pais e Amigos de Excepcionais. Enfrentou com relativa tranquilidade as provocações sobre temas como privatizações do governo FHC, e mostrou presença de espírito nas réplicas a Plínio de Arruda Sampaio, no papel de provocador. Preocupou-se em apresentar propostas e mostrar-se como administrador experiente. Demonstrou auto-controle diante de provocações e até se emocionou ao mencionar o pai, em suas considerações finais. Foi fluente e seguro nas exposições e marcou pontos em questões ligadas à saúde pública.

Meu palpite: O tucano manteve-se no ataque e saiu-se sem grandes arranhões na defesa. Pode até ter conquistado votos, mas principalmente consolidou os que já tinha, sem reverter seus índices de rejeição.

- Dilma Rousseff, do PT, foi a mais atacada no debate, por todos os candidatos, sem exceção, e principalmente pelo adversário tucano, José Serra. Estreante, mostrou certa dificuldade com a administração do tempo para as respostas, deixando vários raciocínios sem conclusão, e enfrentou algum embaraço diante de temas-surpresa, como o fim do auxílio governamental às Apaes e dos mutirões da saúde. Lançou mão de números para fundamentar um discurso bastante racional e menos comunicativo e fluente que os dos adversários. Mas esteve atenta a ataques e acusações ao governo Lula, e deu-lhes combate. Manteve o tom moderado e cortês com os adversários. Acertou a mão no confronto entre programas de FHC e de Lula e na comparação entre resultados dos dois governos – seu ponto forte. Mostrou domínio sobre questões de infra-estrutura, mas exagerou na tentativa de contra-ataque a Serra ao enveredar por temas de baixo interesse, como indústria naval. Emocionou-se ao mencionar Lula e sua experiência no governo, mas acabou encerrando de forma protocolar suas considerações finais.

Meu palpite: Dilma sofreu algum prejuízo ao ser obrigada a se manter na defensiva. Optou pela cautela no revide e ficou um tom abaixo do de Serra, demonstrando menos malícia para essas situações. No entanto, manteve a imagem de guardiã do patrimônio do governo Lula e mostrou conhecimento das questões de governo. Não decepcionou os eleitores petistas, não fez feio, mas precisa de cancha.

Marina Silva, do PV, manteve-se na faixa de terceira concorrente, apesar de lançar mão de ataques moderados a Serra e a Dilma, ao questionar logo de início a falta de união dos partidos em torno do interesse público nacional. Marcou pontos ao mostrar que transita de sua plataforma verde para temas como educação. E tentou mostrar objetividade, ao fixar um patamar de recursos para financiar o setor. Escapou da dicotomia ao rejeitar fazer uma escolha entre a assistência a carentes e a causa ambiental. Mas deixou sem revide à altura as provocações de Plínio, que a chamou de “eco-capitalista” e “petista que não sabe pedir demissão”.

Meu palpite: Marina avançou pouco além de seu eleitorado tradicional. No entanto, consolida imagem pessoal de competência, moderação e  nobreza de caráter, ao colocar-se acima de questões partidárias e ideológicas. Seu apoio transforma-se numa espécie de trunfo do segundo turno.

Plínio de Arruda Sampaio, do PSOL, foi o show-man da noite. Com nada a perder e tudo a ganhar com a oportunidade do debate, usou-a da maneira mais descompromissada possível: desmontou adversários, reclamou da pouca exposição, fez graça, provocou, e, principalmente, foi o único que falou diretamente com o eleitor, colocando-se como uma espécie de alternativa revolucionária, diante do “bom-mocismo” dos adversários, que, segundo ele, propõem “melhorias aqui e acolá”, mas não uma mudança efetiva. No entanto, não conseguiu dizer como pretende viabilizar essa mudança. Não foi encarado como adversário viável pelos demais concorrentes, que apenas o utilizaram para “fazer escada” para os próprios temas de interesse – caso de Marina, única a lhe dirigir uma pergunta.

Meu palpite: Do ponto de vista eleitoral e pessoal, foi o que mais lucrou com o debate. Plínio foi o único que se beneficiou do efeito surpresa da própria figura e da própria performance. E também foi o único a ousar na comunicação, seja com os concorrentes, seja com o telespectador. Certamente multiplicará votos, principalmente entre os de protesto e o dos jovens.  E certamente melhorará os resultados eleitorais do PSOL. Para quem, até aqui, é apenas um nanico entre os concorrentes, foi um golaço.

Para além das considerações e palpites acima, fica claro que ainda falta muito para entender melhor a cabeça e o padrão de comportamento dos candidatos a governar a nação. O caminho será longo.

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