dilma 1 Dilma e o desafio da reconciliação nacional

Foto: Reuters

Concluída a gigantesca tarefa de eleger a primeira mulher presidente do Brasil, começa agora o verdadeiro exercício da Política - com "P" maiúsculo: o de resgatar corações e mentes de brasileiros que viram seu candidato sair derrotado das urnas. E eles são quase 40% dos eleitores.

Se até ontem era preciso esticar ao máximo a corda e marcar diferenças, insistir em provocações, empurrar para o corner o adversário, num jogo de risco, agora é preciso compreender que o novo presidente é o governante de todos os brasileiros: ricos, pobres e remediados; satisfeitos, insatisfeitos e indiferentes.

A primeira e permanente missão da nova presidente será a da reconciliação nacional. Dilma terá de convencer não só adversários, mas os próprios correligionários e apoiadores, de que acabou o Fla-Flu em que se transformou a eleição, de que é preciso encerrar o bate-boca público, curar feridas e executar seu projeto de nação, com a ajuda inclusive da oposição.

A sabedoria popular aliada às saudáveis regras do sistema democrático permitiram o segundo turno, sofrido, desgastante, mas fundamental para o reequilíbrio das forças políticas. Ao invés de humilhada, a oposição sai das urnas premiada por uma votação importante, que jamais poderá ser ignorada pelos futuros governantes. Desta oposição, espera-se maturidade, altivez e consciência da própria responsabilidade: o olhar vigilante para o interesse coletivo, sem sectarismo, sem personalismos estéreis, sem mágoas inúteis. Um olhar para além do seu quinhão de 40% dos votos - única forma legítima de se credenciar para 2014.

Começa agora o maior desafio que a ex-militante de esquerda, sobrevivente do regime militar, ex-burocrata e ex-ministra provavelmente enfrentará em sua interessante trajetória de vida: o de transformar-se em governante sem tutor. Dilma Rousseff, que jamais havia concorrido a uma eleição, estreia nas urnas com uma magnífica vitória e para o cargo mais importante do país. Vitória que, embora não seja integralmente sua, é também mérito de sua inegável capacidade de adaptação a novos papéis, de sua disciplina férrea, obstinação e idealismo - características que parecem ter moldado sua história pessoal.

Foram muitas as promessas e os símbolos manipulados ao longo desta campanha. Dentre eles, o de que Dilma seria a "mãe do Brasil". Agora, acabou a brincadeira. É hora de despojar-se das armas do marketing, arregaçar as mangas e se preparar para a enorme missão conferida pelas urnas. Para além dos símbolos e da manipulação deles, existe um Brasil real, que, aliás, Dilma demonstra conhecer bem, que demanda iniciativas urgentes onde a vista alcança. Da Educação à Infraestrutura, da Saúde à Segurança Pública - a tarefa é gigantesca.

Antecede a tudo a complicadíssima tarefa de montar a equipe de governo. É a partir dela que se poderá conhecer melhor o que realmente pretendem os eleitos. A conciliação de interesses de mais de uma dezena de partidos aliados já é por si um desafio para qualquer político tarimbado, que dirá para uma estreante nestas artes. Dilma terá de contar, talvez como nenhum outro governante, com a lealdade de seus parceiros mais próximos e mais experientes. É da afinação da equipe de governo que depende boa parte de seu sucesso.

Seria demais pedir um governo de união nacional. Mas não seria exagero apelar para que se tome a bússola do bom senso e da responsabilidade pública ao governar, cientes de que o projeto de se conservar no poder torna-se pequeno e banal, diante da importância decisiva de cada gesto do governante na vida do mais humilde dos brasileiros.

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