ALUIZIO NUNES1 blog1 Tucano elogia estilo sóbrio, mas diz que Dilma perde tempo

O senador mais votado da história de São Paulo, o tucano Aloysio Nunes Ferreira, dá mostras de que aspectos do estilo da presidente Dilma Rousseff estão sendo bem vistos pela oposição, principalmente em comparação com o do presidente Lula, que, segundo o senador, “discursava até em aniversário de boneca”. As principais críticas dizem respeito à falta de medidas de impacto e urgentes, principalmente na economia.

Aloysio Nunes Ferreira concedeu entrevista ao programa  Brasília ao Vivo, da RecordNews. A íntegra vai ao ar na terça-feira, às 23h.

R7 - Temos aí um mês e pouco de governo Dilma Rousseff. Que avaliação os senhor faz como representante da oposição?

Aloysio Nunes Ferreira - Eu vejo como positiva a ida dela ao Congresso, é um gesto simbólico importante. No discurso, destacaria o apego à democracia, aos direitos humanos... ela colocou como um marco importante as mudanças [promovidas] durante a Constituinte, abandonou um pouco aquele discurso lulista de que “nunca antes na história do país”. Foi mais sóbria. Eu acho que ela tem uma postura mais respeitosa da liturgia [do cargo]. Já  o presidente Lula falava a torto e à direito. Ele discursava até em aniversário de boneca.

Agora acho também que, infelizmente, a presidente está perdendo o tempo. Um presidente assume sempre com uma aura de confiança, de simpatia, de boa vontade, um carisma de quem saiu das urnas, e tem que aproveitar essa oportunidade para propor medidas enérgicas pra situação do país - que é diferente daquela situação que se procurou vender na campanha.

Há necessidade de um ajuste nas contas. A situação das contas públicas do Brasil é ruim, vai se deteriorando. A nossa infra-estrutura está sucateada, está na hora de recuperar nossos portos. Na Previdência, é preciso tomar medidas com fôlego de quem chega.

O presidente Fernando Henrique, quando chegou, apresentou reformas que foram as responsáveis pelo fato do Brasil estar vivendo um bom momento. O presidente Lula também, no seu primeiro mandato, apresentou um cardápio substancial. Acho que a presidente Dilma está perdendo um pouco o tempo com coisas genéricas.

Voltando ao lado bom, acho positivo o fato de ela ter energia para combater a fisiologia, o loteamento dos cargos... Pelo menos manifestou essa intenção. Mas eu acho que está faltando uma mensagem clara ao país sobre que medidas ela precisa tomar para resolver problemas que são graves.

R7 - O senhor mencionou a necessidade de estabilização das contas públicas. E o PSDB defende o salário mínimo de 600 reais. Quando a proposta chegar ao Senado, o senhor vai defender 600 reais de salário mínimo?

Aloysio Nunes Ferreira - Vou, sim. Veja, o que desequilibra as contas públicas é o excesso de gasto com funcionários, são 37 ministérios que ela herdou do governo passado para comandar, são projetos mirabolantes como o do trem-bala, é o dinheiro subsidiado, com juros, de pai pra filho, dado a grandes empresas via capitalização do BNDES, pelo Tesouro, como aliás foi aprovado contra o nosso voto. São as renúncias fiscais concedidas sem nenhuma avaliação sobre o seu real impacto sobre a finalidade a que ela se destina. Isso desequilibra as contas públicas.

Acho também que é importante nós caminharmos no sentido da desvinculação do salário mínimo em relação à Previdência. Nós temos que fazer isso porque se não fizermos isso nós não poderemos caminhar pela valorização efetiva do salário mínimo, que é uma real política de distribuição de renda. E política de distribuição de renda é efetivamente a política de salário mínimo, na minha opinião.

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R7 - O governo está prometendo cortes que aparentemente vão afetar várias áreas, vão inclusive banir com as emendas dos parlamentares. O senhor está preocupado com essa questão? O senhor acredita que é possível controlar as contas a partir daí?

Aloysio Nunes Ferreira - Acredito que sim. Depende do que for cortar. Eu cortaria esse trem bala porque é um projeto megalomaníaco, de eficiência discutível, de viabilidade econômica altamente contestável; fazer a Usina de Belo Monte também me parece uma coisa fora de propósito. Agora quanto a cortar o PAC? O PAC é tudo. O governo empacotou tudo que você possa imaginar dentro do PAC... você vai comprar um clip para o escritório, está na meta do PAC. Então tem que cortar. Agora, não deve cortar na Saúde, na Educação, segurança pública, isso são gastos sociais.

R7 - O senhor acha da aliaça PT-PMDB? Esse casamento vai bem? Vai atravessar os quatro anos de governo Dilma?

Aloysio Nunes Ferreira - É um casamento de conveniência absoluta. Não vejo nada de programático nessa união. Vejo um enorme apetite, uma enorme disputa por cargos. O PMDB é um grande partido, é um partido poderoso, mas que há muito tempo vem perdendo a sua identidade política, a sua identidade ideológica. Aqueles que ensaiam, que pregam, que colocam como objeto principal da sua ação política um projeto político para o país são imediatamente marginalizados, colocados de lado, como o Jarbas Vasconcelos, o Pedro Simon...

R7 - E o senhor acha essa disputa em torno de cargos do setor elétrico, por exemplo? É um indicativo preocupante?

Aloysio Nunes Ferreira - É preocupante. Dou um crédito de confiança à presidente pelo o que ela tem demonstrado. Há coisa de dois anos atrás, a então chefe da Casa Civil Dilma Rousseff disse o seguinte: “aqui não haverá mais apagões no nosso governo porque nós fazemos planejamento”. Quinze dias depois foi um apagão.

R7 - E aí ela toma posse e com quarenta e cinco dias de governo vem outro apagão, o do Nordeste...

Aloyio Nunes Ferreira - Por quê? Porque houve falta de manutenção nas redes de transmissão e distribuição. [É um] modelo de gestão errado, que absolutiza o critério da menor tarifa, mas não leva em conta a qualidade dos serviços prestados pelas operadoras. E também [houve] corte de mais de 50% da verba do dinheiro para pagar fiscalização. O governo pegou metade desse dinheiro para fazer o superávit primário. Então falta gestão e faltou planejamento.

Além do mais, é impossível fazer planejamento num setor que está em guerra, um grupo brigando com outro. É preocupante e acho que ela demonstra energia e espero que leve até as últimas conseqüências ao propor a retomada do controle público dessas empresas, desse setor.

(Colaborou: FERNANDA MUYLAERT, da RecordNews)