Todos conhecem a verve e os rompantes do senador Roberto Requião, um político cuja inteligência e oratória se destacam na planície intelectual de Brasília, mas estas qualidades são frequentemente turvadas por atitudes e reações intempestivas e, no mínimo, difíceis de explicar. Dificuldade que ficou clara no pronunciamento desta terça, da tribuna do senado, em que o parlamentar tortuosamente buscou razões para o injustificável: o tresloucado gesto de tomar das mãos de um repórter de rádio seu instrumento de trabalho, o gravador.
Não se trata de argumentar que a imprensa tudo pode, e que este poder é desmedido. Os tempos de exceção que embasaram esta idéia, felizmente já vão longe. Abusos ocorrem e são julgados pela própria opinião pública. Neste caso, melhor juiz não há, para aplicar a pena máxima ao mau jornalista: o descrédito.
É verdade que qualquer um pode perder a paciência. Mas alguns parecem abusar desta fraqueza humana, esquecendo-se de que um homem público do tamanho de Requião tem o dever de dar o exemplo de conduta, ainda que isso lhe exija um esforço incomum de autocontrole.
O episódio revelou menos a fragilidade do repórter de vinte e poucos anos diante de um senador, ex-governador e personalidade política nacional, do que o nervosismo de um político acuado pela pressão da opinião pública que condena priviléligios por ela percebidos como indevidos - no caso, a pensão de ex-governador, que Requião considera justa e luta judicialmente para manter.
O senador reclama do que classifica de "bullying público", exercido pela imprensa. Reage com projeto para garantir direito imediato de resposta a quem por ele for afetado.
Falta ao ex-governador a compreensão da desproporção de seu gesto, que traduz bem mais do que mera impaciência. Faltou ao brilhante senador e político a altivez de sempre, de quem, tendo respondido às perguntas do jornalista, desse o assunto por vencido, e nada mais, como acontece diariamente no Congresso, em nove de cada dez entrevistas, neutralizando assim qualquer suposta tentativa de "bullying".
Nem os jornalistas são anjos de candura, nem os políticos precisam lançar mão de gestos truculentos para se defender.
O episódio não deveria diminuir a figura pública de Requião, fosse ele magnânimo diante do incidente, e reconsiderasse a atitude impensada - o que não chegou a fazer da tribuna, apesar de assumir que "perdeu a paciência". A imprensa e o senador são maiores que este episódio, que deseduca e diminui a todos.











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