O senador Cristovam Buarque (PDT/DF), em 98, quase foi expulso do PT, do qual era um dos mais importantes nomes, ao propor que Lula mantivesse em seu governo, em caso de vitória na eleição presidencial, o então ministro da Fazenda de Fernando Henrique Cardoso, Pedro Malan. Era uma questão de credilidade, e de Estado - argumentava. Lula só entendeu Cristovam anos depois, e adotou o remédio por ele sugerido ao convidar para o comando do Banco Central o economista Henrique Meirelles, que Dilma Rousseff trocou por Alexandre Tombini.
Diante da ameaça inflacionária e da dificuldade do governo em contê-la, o ex-petista, mas ainda aliado do Planalto, propõe agora a volta de Henrique Meirelles a um posto de conselheiro da presidente Dilma. Cristovam considera que a credibilidade e a capacidade gerencial do hoje gestor das Olimpíadas de 2016 podem fazer a diferença no esforço de controle da Inflação.
A seguir, trechos da entrevista concedida pelo senador Cristovam Buarque ao programa Brasília ao Vivo, da RecordNews.
Brasília ao Vivo - O governo está no caminho certo para conter a inflação? - A inflação só vai ser combatida se nós tivermos uma posição muito firme da presidenta Dilma. Ela falou isso, mas ela precisa mostrar. Tem que reduzir gastos e aí escolher onde reduzir. Eu acho que reduzir na Educação é uma tragédia. Tem que ter uma política de juros compatível com a luta contra a inflação mesmo que doa no bolso da gente, e tem que ter muita credibilidade.
Cristovam Buarque
Por isso, eu sugiro que a presidente traga de volta o Meirelles [Henrique Meirelles]. Não imagino que ele deva ir para o Banco Central, até porque o Tombini [Alexandre Tombini], eu conheço, foi meu aluno, e não imagino que possa ter alguém melhor que ele. Não precisa. Mas em algum lugar o Meirelles deve estar, para pensar em soluções contra a inflação, nem que seja ao lado da presidenta, prestando uma assessoria.
Brasília ao Vivo - Não basta a equipe econômica? O senhor não confia nela? - Sabe que nos Estados Unidos tem uma assessoria dentro da presidência, para a economia? Do mesmo jeito que a gente tem o Marco Aurélio Garcia para a política externa. De repente, põe um assessor ali, falando no ouvido da presidente o que é preciso fazer. Senão, o ministro da Fazenda e o Banco Central enganam ela, dizem o que eles querem. Não sei se é o caso, mas de repente esse pessoal diz coisas e a presidenta vai atrás.
Cristovam Buarque
Tem que ter ali alguém que filtre, uma terceira opinião, mas que as pessoas saibam que a opinião da presidenta no final das contas será a opinião de uma figura desse tipo. E o Meirelles conquistou essa confiança pelos oito anos dele no governo Lula.
Brasília ao Vivo- Não é a primeira vez que o senho sugere algo do tipo, não é?... - É verdade. Em 1998, quase me expulsam do PT porque eu disse que o Lula, se ganhasse aquela eleição, deveria manter o Malan [Pedro Malan, Ministro da Fazenda de FHC], nem que fosse por cem dias. Por que o Malan? Não é só por competência, mas porque ele passava credibilidade ao mercado, passava credibilidade às pessoas. Quase me expulsam do PT por causa daquilo.
Cristovam Buarque
Anos depois, eu estava conversando com o Lula no escritório dele, que tinha perdido a eleição e, de repente ele olhou pra mim e disse: “Cristovam, você tinha razão”. Eu disse: “Razão em quê?” “Naquele negócio do Malan!” - ele respondeu.
Brasília ao Vivo- O senhor entende que o Tombini é fraco, não é capaz de fazer este papel de manter a credibilidade nas decisões envolvendo a saúde da moeda? - Não é que o Tombini seja fraco. É que ele ainda não teve tempo de ter credibilidade. Esse é o problema. Ele é respeitado, porque quem conhece o curriculum dele sabe da experiência dele, mas pouca gente sabe que ele estava junto do Meirelles esse tempo todo.
Cristovam Buarque
Então, em termos de credibilidade, eu acho que ele ainda não passa, não teve tempo de passar. Não se acostumaram a saber que a gente tem ali uma pessoa que vai cuidar para que a taxa de juros seja a realmente necessária. Então fica essa polêmica: será que essa última elevação foi a correta, ou foi aquém do necessário? Com o Meirelles não haveria essa dúvida...













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