Enviado por André César*

A derrota do governo Dilma Rousseff na votação do Código Florestal não foi uma surpresa. É mais um fato que vem confirmar o cenário de maior risco desenhado há mais de duas semanas. A articulação política do governo continua revelando sua fraqueza, que se conjuga com a ausência de uma pauta legislativa real.

Em termos práticos, o governo Dilma começa a colher os frutos de sua alternativa inicial: deixar a conjuntura correr, confiante nos números da economia e da popularidade presidencial. Esta alternativa cria exposição e vulnerabilidades e elas estão se materializando.

O custo da defesa de Palocci - Nesta quinta-feira, afinal, a presidente Dilma Rousseff deixou o recolhimento imposto pela recuperação de uma pneumonia e, no curso de uma cerimônia no Palácio do Planalto, fez uma defesa pessoal e pública de seu ministro-chefe da Casa Civil. Como é de praxe, lamentou a politização do tema, mas não há como afirmar que suas declarações encerrarão o caso.

A mencionada ausência de uma pauta legislativa, por exemplo, simplesmente impede que o noticiário político se mova para outro tema. Os jornais e as televisões não têm opção senão competir por revelações adicionais, ainda que sua divulgação seja uma questão de ocasião e estratégia.

Para a base aliada, o enfraquecimento de Palocci, justamente o ministro encarregado de conduzir a política de concentração de decisões no Poder Executivo, foi como um presente. Dessa maneira, as lideranças aliadas não têm qualquer interesse em sua demissão, mas também não têm razão para promover sua completa recuperação. As assinaturas de deputados e senadores em requerimentos de convocação e de CPI continuarão indo e vindo, ao sabor dos eventos.

De forma inexorável, o governo Dilma perde controle sobre as decisões. Desde o início da semana, sofreu duas derrotas. Primeiro, na votação do Código Florestal, na qual enfrentará uma negociação ainda mais dura no Senado, caso deseje reescrever o texto da legislação. Segundo, no recuo na divulgação de material contra homofobia, bancado publicamente pelos ministros da Educação e da Saúde. É um assunto de caráter simbólico, mas um observador mais experiente sabe que a bancada evangélica e os partidos que a representam apenas testaram a sua força.

De todo modo, a defesa conduzida pelo governo e pelos aliados no Congresso permite, com certa facilidade, a permanência de Palocci no seu cargo. Os fatos conhecidos publicamente causam embaraço, mas não são suficientes para ameaçar o Planalto. O problema é outro: qual será o custo de manter em sua posição um chefe da Casa Civil sem completa capacidade de comando?

 Sem um chefe da Casa Civil com poder real, capaz de conduzir as negociações com a base parlamentar, desaparece a proteção do presidente da República, que passa a ser obrigado a se envolver diretamente com acertos políticos.

O retorno de Lula - Outra conseqüência evidente do caso Palocci é o retorno do presidente Lula ao cenário político. Sua intervenção revelou-se ambígua. De um lado, veio a Brasília para chamar os aliados à defesa do chefe da Casa Civil; de outro, serviu como interlocutor da bancada de senadores do PT junto à presidente da República.

Por ora, sua aparição é pontual, mas sua presença pública em Brasília tem várias implicações. Confirma um cenário pré-eleitoral de que trabalharia para manter sua influência em caso de crise política. Mantém a visibilidade como fiador das alianças firmadas em 2010 e sinaliza que pode chefiá-las novamente em 2014, caso algum imprevisto aconteça.

O presidente Lula continua sendo a principal apólice de seguro eleitoral dos grupos no poder e mais ainda do Partido dos Trabalhadores. Pode ocupar naturalmente qualquer espaço criado por um eventual declínio da liderança de Dilma. O atual governo, já lento em suas decisões políticas, pode ficar ainda mais lento se tiver de esperar pelo consenso de dois presidentes da República.

O desenho do governo - A votação do Código Florestal, que antecipa o formato de discussões sobre questões tributárias e previdenciárias, revelou os efeitos da incompatibilidade entre um governo com posições de esquerda e uma base parlamentar largamente conservadora em suas preferências reais.

Esse cenário ganhou componentes novos: uma articulação política em crise e o retorno de Lula. Não são fatos que aumentam a previsibilidade do ambiente político.

 
André César é analista político da CAC Consultoria e colaborador deste blog.

Espalhe por aí:
  • RSS
  • Live
  • del.icio.us
  • Twitter
  • Digg
  • Netvibes
  • Facebook
  • Google Bookmarks

Ir para a home do site
Todos os direitos reservados - 2009-2011 Rádio e Televisão Record S/A