O presidente do Uruguai, José Mujica, é um homem fora do comum. Sua biografia supera a da maior parte dos "revolucionários" brasileiros, e ainda volta troco. Aos 77 anos, se recusa a usar uma gravata. O último terno que mandou fazer foi para comparecer à posse do estimado amigo Lula. A ocasião foi tão solene que a imprensa uruguaia pediu para fotografá-lo tirando as medidas para a nova roupa.
É que alguém que passou quatorze anos preso, onze dos quais numa solitária não costuma se preocupar com coisas deste tipo. Um integrante da comitiva de Dilma, que também lutou contra a ditadura, conta como o uruguaio fez para escapar da loucura durante o período da solitária: "ele conversava com as formigas da cela".
José Mujica é desses ex-guerrilheiros que, como integrante do movimento dos tupamaros, participou de sequestros e assaltos para financiar a luta armada contra a ditadura. A diferença entre ele e a maior parte de representantes de sua geração é que não enriqueceu, nem admite sequer adotar um modo de vida de classe media, digamos, burguesa, para ficar no jargão tradicional de esquerda. O presidente do Uruguai doa 70% de seu salário para o partido que o elegeu, o Frente Ampla. O principal bem em seu nome é um fusca ano 87, e mantém um casamento de 40 anos com a companheira dos tempos de luta.
Quando senador, Mujica costumava se dirigir ao Congresso de lambreta, num tempo em que praticas ambientais menos poluentes não estavam tão em voga como hoje. O inusitado presidente da república do Uruguai ainda faz discursos como nos tempos de revolucionário. Mas que não soam anacrônicos, nem fora de moda. Ao lado de Dilma, Mujica lembrou que assimetrias maiores existem que aquelas entre o gigantesco Brasil e o diminuto Uruguai e que elas não servirão de obstáculo para quem tem uma história de luta comum pela democracia.
Era a voz de um representante de um tempo em que o sentimento patriótico era maior que o medo da morte. Só a história dirá o quanto devemos a este tipo de líder.











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