A presidente DIlma Rousseff anoiteceu e amanheceu diante do mais crítico dilema de seu governo até aqui. Aliás, um dilema envolvendo conceitos éticos. Dilma está agora constrangida a demitir o ministro do Trabalho, depois da unânime decisão da Comissão de Ética Pública da Presidência de recomendar a exoneração de Carlos Lupi. Se não o fizer, terá desautorizado a comissão que o próprio governo criou para nortear suas ações, e estará decretando seu fim.

Em resumo, o veredicto da Comissão - que tem efeito apenas de recomendação - demonstra que, ao contrário da avaliação presidencial, o ministro não tem condições de permanecer no cargo. Na sintética - porém fulminante - manifestação do grupo, Lupi simplesmente não apresentou explicações satisfatórias e na avaliação de ninguém menos que Sepúlveda Pertence - ex-presidente do Supremo e presidente da comissão - o ministro foi "inconveniente" em seus esclarecimentos ao Congresso.

A situação é inédita desde a criação da Comissão, em maio de 99 - até aqui criticada por supostamente nunca confrontar os interesses do governo, principalmente após praticamente conceder um salvo-conduto ao então ministro Palocci, que acabou demitido em meio a suspeitas de enriquecimento ilícito.

Na primeira vez que a Comissão recomendou ao mesmo ministro Lupi, ainda durante o governo Lula, que escolhesse entre permanecer no cargo e presidir o PDT, o impacto também foi relevante. Lupi, protegido por Lula, tirou uma licença da presidência do partido e continuou na prática no comando da legenda. Agora, o contexto é completamente diferente: Lupi está mergulhado em suspeição, não conta mais com a blindagem de Lula-presidente, ainda que o petista ainda influa no seu destino, e nem mesmo seu partido sabe o que fazer com ele.

Mas a situação política é delicada: se Dilma atender de imediato à recomendação de um órgão meramente consultivo, estará atribuindo à Comissão de Ética poder acima do seu próprio - ela que, apesar de todos os pesares, por razões de conveniência política, decidiu manter Lupi no cargo. Se não o fizer, estará afrontando os parâmetros éticos que o próprio governo prometeu honrar. O episódio vai inaugurar um padrão de comportamento em relação a fatos levados à Comissão de Ética. O Brasil estará de olho nesta decisão.