O julgamento de um dos 37 réus do mensalão, o deputado e ex-presidente da Câmara, João Paulo Cunha, acusado de corrupção passiva, peculato e lavagem de dinheiro, promete se transformar na primeira disputa em estilo “fla-flu” na mais alta corte de Justiça do país. Ao “abrir a divergência”, discordando frontalmente do voto do relator, Ricardo Lewandovski estabelece o contraditório com a tese da acusação, encampada por Joaquim Barbosa.

Assim, daqui para frente, os nove ministros “vogais” – isto é – que apenas votam e não estão no papel de relatar ou revisar, terão de escolher o time: acompanhar Barbosa para condenar, ou Lewandovski, para absolver.

João Paulo Cunha torna-se assim o primeiro réu entre os políticos a suscitar uma provável divisão no Tribunal – situação que acabará por forçar a explicitação de posições entre os ministros. A partir de então, deve diminuir a imprevisibilidade dos votos no julgamento em boa parte dos réus.

A divisão no STF deve provocar confrontos não só conceituais, mas também pessoais. O excesso de exposição dos gênios e vaidades dos ministros é temido pelo presidente, Ayres Britto, que tem menos de três meses de gestão até a aposentadoria. No entanto, será difícil evitar que o debate seja distorcido por elementos alheios à dinâmica processual.

Desta forma, o julgamento no STF entra na primeira das 8 etapas decisivas, conforme se estabeleceu ao escolher o método fragmentado de análise do caso, seguindo proposta do relator. Tudo indica que será a mais difícil delas, e a que ditará os procedimentos daqui para frente.