O acordo que permitiu a prisão de Lula na noite de sábado sem que o episódio tivesse se transformado num confronto entre polícia e militantes, de consequências imprevisíveis, contou com a atuação de integrantes de primeiro escalão do governo Temer e com petistas de alta patente. Do lado do governo, atuaram principalmente Raul Jungmann, ministro da Segurança Pública, e Rogério Galloro, diretor da Polícia Federal. Do lado petista, o ex-ministro da Justiça e da AGU no governo Dilma, José Eduardo Cardozo, e o ex-deputado Sigmaringa Seixas.

Foram mais de doze horas de tensão, com momentos de risco agudo de violência, que testaram os nervos e a capacidade de negociação do grupo, em meio ao caos que se intensificou após o discurso de Lula, quando o petista retornou ao interior do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, conforme previa o acordado. A partir daquele momento, os planos de apresentação voluntária de Lula à policia começaram a falhar. Centenas de militantes estavam dispostos a impedir a saída do ex-presidente a qualquer custo.

A primeira tentativa de retirar o petista da sede do Sindicato, às cinco da tarde, falhou fragorosamente. O carro em que chegaram a embarcar Lula e seu advogado praticamente não se moveu do pátio. Militantes agarrados ao portão bloqueavam completamente a passagem.

“Estávamos à beira de uma tragédia de repercussão global e histórica” - diz um dos negociadores. Ocorre que, como Lula já havia extrapolado em mais de 24 horas o prazo dado pelo juiz Sérgio Moro para que se apresentasse, e já caíra a noite, a Polícia Federal seria obrigada a usar a força para entrar no Sindicato na manhã do domingo, para cumprir a ordem de prisão contra o petista.

Enquanto Jungmann tratava com Eduardo Cardozo, Galloro ía oferecendo as opções para a retirada do ex-presidente e controlava seus homens nas imediações do sindicato. O ex-deputado Sigmaringa Seixas, com ampla experiência jurídica, e mais próximo a Lula que o próprio Cardozo, foi um dos que manteve a interlocução que conduziu à solução para o impasse.

O tempo começou a correr contra todos. Os petistas estavam conscientes de que a demora na apresentação de Lula traria certamente consequências, inclusive a possível perda das regalias acertadas com Moro, como a reclusão em sala especial, no edifício da Polícia Federal, em Curitiba.

A situação caminhava perigosamente para um desfecho ruim para todos. O próprio Lula compreendeu que o risco de confronto era iminente. Foi então engendrada a única solução viável: que o ex-presidente atravessasse a pé a multidão de militantes, até alcançar um edifício próximo, onde agentes da PF o esperavam, e de lá seguisse de carro, em comboio, para a Superintendência da PF, no bairro da Lapa, Zona Oeste de São Paulo. Lula acabou cruzando o espaço sobre os ombros da militância, para alívio dos que temiam o confronto.

“O acordo foi baseado em lealdade e confiança entre oponentes políticos. Naquela altura, todos queríamos evitar o pior, inclusive o Lula. Se não nos conhecêssemos e não confiássemos uns nos outros, sinceramente, não sei o que teria acontecido”, relatou um dos negociadores, visivelmente aliviado, neste domingo.