Deixando de lado, mas mantendo intocada a nossa sacro-santa indignação, há que se fazer uma pausa para observar o caráter absurdo e até cômico do escândalo Cachoeira. Que sirva como exercício para a nossa sanidade mental.
Senão vejamos: muitos sao os indícios deixados pelos grampos telefônicos feitos pela polícia federal de que o bicheiro Cachoeira apreciava ouvir cascata - com o perdão do trocadilho -, principalmente se o autor da empulhaçao fosse o senador Demóstenes Torres, a quem Cachoeira atribuía poderes sobrenaturais.
Basta uma audição mais atenta dos insólitos diálogos gravados para perceber que o senador, com diplomacia inédita, promete o que nao pode entregar, aparenta atender ordens que sabe nao poder cumprir, e dá asas a idéias e projetos sem qualquer relação com o factível.
Deixemos também de lado o fato de Cacheira soar como um perfeito Jeca-tatu nos diálogos que trava com seus companheiros de armação, utilizando-se de um linguajar mais próximo ao de um peão de rodeio goiano que de um empresário milionário do jogo ilegal.
Cachoeira se presta a acreditar que Demóstenes Torres pudesse, por exemplo, deixar o Dem para migrar para o PMDB - quando até os pombos da Esplanada sabem que, além de absurda do ponto de vista político, a troca levaria à cassação de mandato do senador por infidelidade partidária. Demóstenes, no entanto, dá corda para a fantasia e para a ambição do bicheiro ao faze-lo acreditar que a presidente Dilma teria interesse em recebe-lo, ainda que um democrata no vigor da sua forma.
Ambos tratam do assunto como se a entrada de Demóstenes num partido governista tivesse o condão de lhe franquear imediato acesso ao gabinete de Dilma. Integrantes da base aliada sabem que é possível contar nos dedos os parlamentares que tem transito com a presidente.
Aliás, a migração de Demóstenes tinha de ser para o PMDB, claro! Afinal, no partido, cabe todo mundo. Suprema ironia!
Chega a ser ridícula a crença de Cachoeira de que Demóstenes seria capaz de influenciar na decisão de um ministro do Supremo em favor de qualquer de seus protegidos ou potenciais sócios, como o ex-governador de Tocantins, Marcelo Miranda. Ou ainda, que o senador pudesse influir no processo de votação de um projeto sobre a criminalizaçao do jogo, sendo que o texto estava em votação numa comissão da Camara. "Manda brasa!" - diz Cachoeira a Demóstenes, dando-lhe ordem para agir em favor de uma lei que tramitava na outra Casa.
Todavia, em todas estas ocasiões, o senador se mostrou solicito e incapaz de dizer nao ao chefe da máfia do jogo ilegal, fazendo-o acreditar que seu desejo seria satisfeito, reforçando a crença do bicheiro em seus super-poderes. Pois, sao estes mesmos diálogos que agora o estão levando à ruína.
E o que dizer de um escândalo cujos atores coadjuvantes sao deputados que atendem pelos inacreditáveis nomes de Leréia e Sandes Júnior?
Caros leitores, vivemos tempos miseráveis, em que até os escândalos desceram de patamar. Perdoem a rima, mas, também neste caso, antes rir do que chorar.