Enviado por André César*
Há uma semana, afirmamos aqui que a crise na Casa Civil e o retorno do presidente Lula à cena reduziam a previsibilidade do ambiente político. Desde então, uma manobra da oposição na Comissão de Agricultura da Câmara conseguiu momentaneamente convocar o ministro Palocci, duas MPs foram derrubadas no Senado e as decisões da Executiva Nacional do PT passaram a refletir a disputa pelo comando da articulação política do governo, inclusive pela posição de Antonio Palocci.
A elevação do nível de incerteza política não pode ocultar, entretanto, o único remédio para a situação corrente: a recomposição da liderança presidencial. É a fraqueza do governo que empurra PT e PMDB para o conflito e cria oportunidades de ação para a oposição.
Dilma ensaia uma agenda - Ao menos um fato positivo para o governo deve ser notado. O presidente Lula retomou suas viagens internacionais e deixou Brasília. Há um canal a menos de pressão e influência disponível para as forças aliadas e a presidente Dilma tem melhores condições para comandar o ambiente político.
Houve os anúncios da privatização dos maiores aeroportos brasileiros e do programa Brasil sem Miséria. O governo foi ajudado até mesmo pelo Poder Judiciário, que começou a declarar a guerra fiscal inconstitucional, suavizando o caminho para a aprovação da reforma tributária.
Da mesma maneira, a ancoragem econômica do governo voltou a exibir solidez, com a inflação se alinhando aos cenários anunciados pelo Banco Central. Um noticiário menos intenso sobre o tema permite prever a manutenção da popularidade presidencial.
Nada disso resolve, contudo, o problema básico do governo Dilma: não faz política e não quer fazer política. O sistema político brasileiro raramente permite essa atitude. Na primeira oportunidade, as lideranças parlamentares forçarão o presidente da República a ouvir sua voz.
Cenários para a liderança presidencial - Descontando os cenários mais turbulentos, que seriam gerados, por exemplo, por qualquer agravamento da saúde da presidente da República, é possível definir dois cursos básicos de ação para o governo no médio prazo.
No primeiro, a presidente Dilma continua distante do Congresso, seja pela decisão de manter o ministro Palocci, seja por uma troca de ministros que reduza o poder real da Casa Civil. Continuaria governando por meio de MPs e de negociações pontuais com os setores mais relevantes do PMDB. Este cenário já foi descrito pelo presidente Lula: “o governo se arrastaria até o final”.
No segundo cenário, a presidente Dilma promoveria uma reorganização mais ampla da articulação política, incorporando os aliados, precisamente como fez o presidente Lula após 2005. No momento, parece a configuração menos provável, pois soaria como uma rendição política, mas é a única que promete um horizonte de maior previsibilidade.
A aproximação do ciclo eleitoral - Existe ainda outro fator recomendando o curso mais ousado de ação: a aproximação do ciclo eleitoral. Os partidos políticos já deram a partida no planejamento eleitoral e mesmo a oposição começa a sair de sua crise. A disputa pelos recursos do governo vai se intensificar e sempre cabe ao governo decidir os grupos e partidos que serão os favoritos e os demais, que serão obrigados a se compor.
Sem a orientação do governo, a aliança PT-PMDB pode estender o atual conflito pelos ministérios e cargos para a escolha dos candidatos oficiais nas principais capitais estaduais.
A relativa blindagem da economia - Em termos práticos, o governo Dilma ainda pode se dar ao luxo de uma crise política. O controle da execução do orçamento e a relativa autonomia do BC já reduziram a tensão nos mercados e o temor do retorno da inflação. Nesse ambiente, a complacência com as confusões parlamentares é sempre maior.
Este cenário, contudo, diminui bastante a perspectiva de aprovação de legislação econômica relevante e aumenta os riscos de natureza fiscal. As lições de 2010 estão bem vivas no Congresso: é com bondades que se ganha uma eleição.
*André César é analista político da CAC Consultoria e colaborador deste blog.