28 setembro 2009
A crise em Honduras, por trás das aspas
Publicado por: Adriana AraújoPassei a última semana seguindo os passos do ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim - o protagonista brasileiro nas negociações por um fim pacífico para a crise em Honduras.

“Se fosse a embaixada americana...”
Na última quinta-feira, pude fazer uma entrevista exclusiva com ele para o Jornal da Record. Nesse período, as palavras e até a expressão no rosto do ministro Amorim se agravaram, na medida em que o impasse se aprofundava.
Abaixo, a repórter se permite algumas observações sobre o caso. Não como a nova blogueira de plantão que tem a solução para todos os problemas do mundo que só o governo não vê. São apenas observações de quem perguntou, ouviu algumas respostas, mas não todas.
"Não havia outra atitude possível. Qualquer outra atitude seria covarde."
Assim Amorim explicou porque Zelaya foi recebido na embaixada brasileira.
Será que havia outra resposta possível para um presidente eleito que saiu do País sob a ameaça de uma arma, quando ele bate na porta da embaixada? Um “não” seria possível?
Não.
Estou partindo do princípio de que o Brasil foi surpreendido com o pedido de Zelaya. Apareceram muitas especulações mas não uma prova do contrário. E, surpreendido, não havia outra atitude a tomar.
Mas isto não explica porque 60 pessoas estão lá dentro com água e comida racionadas. Abrigar Zelaya, alguns parentes e um ou outro assessor, dá pra compreender. Mas as imagens que até agora vimos lá de dentro da embaixada mostram outra situação. Zelaya parece o chefe de uma hospedaria-comitê de campanha.
"Para bom entendedor, meia palavra basta".
Assim o ministro tentou assegurar que a resposta do Conselho de Segurança da ONU foi muito satisfatória. Não foi.
Da boca da presidente do Conselho, Susan Rice, poderia ter saído o verbo exigir, mas veio só um pedir. “Peço que cessem as intimidações contra a embaixada brasileira”. O representante do México no Conselho disse: “se a embaixada for invadida o Conselho volta a se reunir”. Oba! Vamos comemorar uma futura reunião pra quando a embaixada for invadida?
O Brasil terá que encontrar ajuda em outra freguesia. No Conselho de Segurança, só ganhou meia palavra.
Em tempo, não vi bronca, nem bate boca entre o ministro Amorim e Susan Rice. Ela achou desnecessário o Brasil pedir a reunião ao conselho. “Se fosse a embaixada americana...”, disse Amorim. No meu vocabulário isso se chama discordar. Os dois fizeram segredo da conversa, mas ai a discordância já havia se transformado em bronca ou bate-boca nos jornais.
"A única solução pacífica possível é o retorno imediato de Zelaya ao poder.'"
Essa o presidente Lula disse várias vezes. E Amorim também.
Não seria hora de pensar num plano B? Levar Zelaya como asilado para o Brasil?
Fiz essas perguntas a Amorim na entrevista ao vivo para o Jornal da Record. Ele disse que não.
Mas os dois lados perderam credibilidade.
Zelaya apelou para um referendo pra tentar a reeleição - o que é crime em Honduras. Micheletti apelou para o fuzil - crime em qualquer lugar do mundo.
Não creio que um ou outro tenha condições políticas de coordenar uma eleição transparente e democrática.
Não seria hora de pensar em promover eleições isentas, sob a coordenação de organismos internacionais, para que a população possa dizer nas urnas que caminho deseja para o País?
A sensatez me diz que sim. Mas sensatez e sabonete andam em falta na crise de Tegucigalpa.











