14 outubro 2009
Uma casa construída na pedra
Publicado por: Mauro TagliaferriLisboa, 14 de outubro de 2009
Foi durante um passeio numa tarde chuvosa que o pai de Vitor Rodrigues imaginou uma casa onde, até então, existiam apenas quatro rochas.

“Ele, naquela mesma tarde, estava a dizer que a porta seria naquele lugar, a cozinha naquele outro, e de fato assim foi”, recorda-se ele.
Vitor era criança e viu o sonho do pai se tornar realidade: uma casa totalmente integrada à paisagem. Tanto que, de longe, ela parece um rochedo a mais nas montanhas de Fafe, no norte de Portugal.
As paredes externas são revestidas com pedregulhos, semelhantes às rochas originais. Só por dentro se vê a diferença entre a obra do homem e a da natureza.

O espaço entre as pedras foi preenchido com tijolos e, depois, coberto com uma massa branca, para dar o acabamento. Tudo construído a mão e sem que nenhuma das quatro rochas tenha sido quebrada. A casa é que se adaptou a elas.
No primeiro piso, há uma sala e uma pequena cozinha. No andar de cima, um banheiro e três quartos. Tudo bem pequeno, inclusive as camas, para caber no espaço deixado pelas pedras.
Não há eletricidade. As velas garantem a luz.
E, apesar das dimensões, a casa comporta grandes recordações.

Dona Olga Marques, uma amiga da família, lembra-se das férias que passava no local, um cenário também de comemorações. “Vários Natais, Páscoas, aniversários do meu marido, meus aniversários, passamos aqui várias festas”, ela conta.
Para Vitor Rodrigues – hoje um engenheiro de 42 anos e herdeiro da propriedade - a casa fortalecia o convívio familiar. “À noite, a família se reunia à volta da lareira, à luz da vela, e conversávamos. Era completamente diferente da nossa vida na cidade.”
O terreno foi comprado no começo dos anos setenta. A construção terminou em 1974. São trinta e cinco anos de saudades, completos neste mês.

O tempo mudou a vizinhança. Que ironia: a casa, que não tem luz elétrica, agora está dentro de um parque de energia eólica.
Além disso, há cerca de cinco anos, fotos do local circularam na internet, atraindo curiosos, intrusos e ladrões. Furtaram até as telhas!
Após a morte do pai, Vitor costumava levar a mulher e as filhas para passar finais de semana na casa. Mas a curiosidade alheia tirou o sossego da família. “Às vezes, em dias de nevoeiro e frio, estamos lá dentro à lareira e temos pessoas a espreitar pelas janelas e a fazer comentários”.

Hoje, a família não dorme mais na casa. No máximo, passa um dia e vai embora.
A civilização chegou perto demais e trouxe com ela o medo, algo a que nem as rochas conseguem resistir.
Abraços!











