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22 outubro 2009

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O menino do balão e a aula do xerife

Publicado por: Adriana Araújo

Muito se falou sobre Falcon Heene, o "balloon boy". O garoto de seis anos parece mesmo ter sido a grande vítima de pais tresloucados pela fama.

O assunto despertou a atenção da imprensa americana e de vários países do mundo. Cobri este caso em Fort Collins, no Colorado, para o Jornal da Record e para o Domingo Espetacular.

De plantão, na frente da casa dos Heene, refleti sobre a maluquice destes tempos em que privacidade parece algo que perdeu o uso como uma fita cassete. Alguém ouve a palavra estranha "privacidade" e pergunta: serve pra que isso?

Tudo é publico, publicável. Paga-se qualquer preço por alguns instantes de glória. Assustador.

baloon boy 1024x768 O menino do balão e a aula do xerife

Mas hoje resolvi escrever sobre  o xerife do Colorado que coordenou as investigações. Jim Alderden é o nome dele. Um senhor de 60 e poucos anos, gordinho, grisalho, cara de bem humorado, sem perder a expressão de uma pessoa séria, respeitável.

Numa entrevista coletiva para anunciar o fim do mistério do balão, o xerife deu uma grande aula. A polícia do Colorado errou. Ao ser avisada do sumiço do garoto - que segundo a família estaria no balão - detetives vasculharam a casa, mas se esqueceram de procurar no sótão da garagem.

E o que fez o xerife? Tentou achar uma desculpa esfarrapada pra justificar o que aconteceu, como fariam muitas autoridades brasileiras? Não. Mentiu? Não. Disse: erramos e peço desculpas por isso.

Acreditamos na família que parecia desesperada e não olhamos no sótão porque parecia inacessivel para uma criança. Aprendemos com esse episódio, respondeu o xerife.

A entrevista segue. Um dos repórteres faz uma pergunta mais detalhada sobre legislação. O que faz o xerife? Diz que não sabe a resposta. Consulta a equipe e promete fornecer a informação depois.

Detalhe: você viu que eu escrevi o xerife consulta a equipe? Sim, ele levou para a frente das câmeras todos os detetives, peritos e auxiliares que desvendaram o caso. Dividiu com a equipe os holofotes da imprensa. Algo raro....

E assim foi durante uma hora. Pergunta após pergunta, lá estava o xerife de pé, sob o sol de meio-dia, sem qualquer sinal de impaciência. Algum repórter gritou? Não. Bastava levantar a mão e aguardar alguns instantes. Logo a resposta vinha.

Você deve estar pensando, o que há de extraordinário nisso? Nada. Mas é completamente diferente de uma coletiva no Brasil. Se você não é repórter e nunca acompanhou uma coletiva de uma autoridade brasileira, eu vou descrever a cena.

Primeiro quase nunca o horário marcado é cumprido. Isso quando existe uma coletiva marcada.

Quando a tal autoridade aparece já chega com a marcha ré engatada. Acha que por ser a tal excelência ministro, governador, delegado, prefeito, seja lá o que for, tem que demonstrar poder e isso inclui responder algumas poucas perguntas com impaciência, geralmente com os repórteres correndo atrás, gritando pra ter uma resposta que a sociedade espera ouvir.

É selvagem, mas já fiz isto muitas vezes em Brasília e em outras coberturas importantes. Entrevista coletiva sem gritos, sem empurra- empurra? Sem a arrogância da autoridade que sabe tudo? E não erra nunca? Tenho 15 anos de experiência como repórter e essa modalidade de coletiva ainda não conhecia.

A escolinha do xerife deveria recrutar alunos pelo Brasil - das delegacias ao Planalto Central.

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