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23 outubro 2009

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Desastres x tragédias

Publicado por: Catarina Hong

Tufão. Um fenômeno que já começa assim, no aumentativo, sempre assusta. Ainda mais a nós, brasileiros, que só recentemente passamos a sentir a força dos furacões - que o digam os catarinenses. Vale lembrar que tufões e furacões são o mesmo fenômeno: ciclones tropicais, só que os primeiros se formam no Oceano Pacífico, e os últimos, no Atlântico Norte e em parte do Pacífico.

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Pois por aqui estão todos meio acostumados. De julho a outubro, os asiáticos já sabem o que pode vir dos céus e não chegam a se apavorar com a previsão do tempo. O Japão tem sorte. Na maioria das vezes, os tufões passam só de raspão. Mas este ano um ciclone, o Melor, tocou terra firme - o que não acontecia desde 2007.

O que os japoneses fizeram? Ficaram em casa (pudera, o tufão foi mais intenso durante a madrugada). De qualquer modo, todos estavam avisados. Como medidas de precaução, os trens pararam de circular, centenas de voos foram adiados, muitas escolas suspenderam as aulas. O Japão se cerca de defesas. É um dos países mais avançados em obras de contenção de enchentes e deslizamentos de terra. Eu mesma, nesses quatro anos, nunca vi um alagamento em Tóquio - e olha que chove muito no verão. Mesmo assim, quatro pessoas morreram e dezenas ficaram feridas com a passagem do Melor.

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Fomos durante a madrugada quando já estavam todos dormindo

Se num lugar tão cheio de cuidados, um tufão ainda causa estragos e mortes, imagine num país pobre como as Filipinas, que foi atingido por dois ciclones seguidos - e mais um se aproxima neste fim-de-semana. Na capital, Manila, há um enorme lago. Mais de 60% da área ao redor foi ocupada ilegalmente. Pra piorar, a coleta de lixo é precária, os moradores jogam todo tipo de detrito nos córregos. Uma sujeira e um entupimento só. Lembra algum lugar?

Pois Manila parece a capital paulista. Tem um rio lá, o Marikina, que é igual ao Tietê ou ao Pinheiros. E não é que os filipinos também tem uma cara de brasileiro? É que eles são uma mistura de ibéricos (espanhois), com polinésios (índios asiáticos) e chineses. Uns brasileiros morenos de olhos levemente puxados.

 Desastres x tragédias

Crianças se divertem na água suja

E são parecidos também na criatividade, no jogo de cintura. Eles inventaram jangadas com camas infláveis, andaimes flutuantes conectados a bicicletas, barco de banheira... Um dos nossos entrevistados, o Bon, levou a gente até um lugar onde podia se ver a casa dele. O trajeto todo, Bon fez debaixo d'água. E nós ali, calçando botas de borracha, que aliás, estavam em falta na cidade. Não sei onde todas as botas vendidas foram parar, porque ninguém usava. Todos estavam com o pé - e o corpo todo - na água parada, suja, cheia de lixo boiando. E agora há um surto de leptospirose. 130 já morreram e 2 mil estão internados. Pra Bon, tinha que ser assim. Aos 24 anos, forte, ele não tem como sustentar os 5 filhos. A enchente levou o emprego de marceneiro embora.

 Desastres x tragédias

Prato típico: Balut - feto de pato. Estranhíssimo, mas o sabor não é de todo mau.

O desemprego nas Filipinas, esse também, é de assustar. Nao é a toa que há filipinos em toda parte do mundo, principalmente, no Japão, na China e nos EUA. São operários, ajudantes gerais, domésticas, enfermeiras. Nessie, mãe de duas crianças, ficou viúva há pouco tempo e lavava roupa pra fora pra sustentar a família. Agora não tem mais casa e está morando num ginásio, onde nós a conhecemos. Sem muita lamentação, ela dizia: "Deus não me daria um peso que eu não pudesse carregar". Na alegria também, os filipinos são parecidos com os brasileiros. Apesar da devastação, eles sorriam, davam tchauzinho pra câmera, queriam saber de onde a gente vinha.

 Desastres x tragédias

Intestino de porco frito. Isso sim é um pouco demais...

Nas Filipinas ou na Indonésia, fomos muito bem recebidos por gente que tinha todo o direito de recusar a reportagem. Uma gente que infelizmente está acostumada a desastres naturais. O terremoto não havia como prever, os tufões, sim. Em ambos os casos, os desastres foram obra da natureza, mas as tragédias eram humanas e podiam ter sido evitadas.

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