2 novembro 2009
Um estranho no Ninho
Publicado por: Catarina HongQuem vive em Tóquio costuma ter a agenda cheia. Há sempre algum concerto pra ir, um show daquele grupo que nunca passa pelo Brasil, uma exposição interessante, seja de arte, fotografia, arquitetura, design. Eu visitei uma que tem tudo isso - obras de um artista com nome cheio de vogais: Ai Weiwei, um dos principais representantes da arte contemporânea chinesa.


Você pode nunca ter ouvido falar dele, mas certamente viu um dos projetos que Ai ajudou a criar com os arquitetos suíços Herzog & de Meuron: o Ninho do Pássaro, o impressionante estádio olímpico dos Jogos de Beijing. Ai queria uma estrutura que lembrasse equilíbrio, igualdade, justiça. Mas durante as Olimpíadas, o artista - e também ativista político - se manifestou contra os Jogos. Disse que o estádio tinha virado símbolo de um desenvolvimento econômico calcado em corrupção, repressão, violação dos direitos humanos. Ele se recusou até a ser fotografado na frente do Ninho, que custou 400 milhões de dólares.

Ai Weiwei vive desafiando o governo chinês: "Na China, a decisão de ser artista já é política”, ele disse. Ácido, desbocado, irreverente, Ai já levou muito “cala-boca” do governo. O blog dele foi bloqueado em maio. Num protesto em agosto, apanhou da polícia e ele teve que se submeter a uma cirurgia no crânio.

90 mil pessoas morreram no terremoto de Sichuan em maio de 2008. Muitas eram crianças que estavam nas chamadas "escolas de areia". Ai passou a coletar o nome de cada uma delas e se juntou aos pais para pedir explicações sobre a fragilidade dos prédios escolares. A cobra pregada ao teto é feita com mochilas, uma lembrança da causa das crianças que ele não quer deixar morrer.
Engajamento e senso crítico são coisa de família. Ai Weiwei é filho de Ai Qing, um poeta reverenciado hoje, mas que durante a Revolução Cultural, foi perseguido e taxado de “inimigo do povo”. Ai Weiwei cresceu na remota Xinjiang, onde o pai desempenhava trabalhos forçados. A vida no campo e a influência cultural dos pais foi formando o artista, que na década de 70 estudou cinema em Beijing e participou de grupos de arte de vanguarda. No início dos anos 80, ele se mudou para Nova York. Lá bebeu do caos e da urbanidade e também das obras de Jasper Johns, Andy Warhol, Marcel Duchamp, Sol LeWitt.

Em 93, voltou a uma China já em processo de transformação. O Partido Comunista abraçava a economia de mercado, mas sem falar em democracia e liberdade. Ai passou a expressar sua visão política por meio de obras que misturam arte contemporânea ocidental com elementos da cultura chinesa. Ele flutua entre conceitos dos dois mundos com elegância e engenhosidade.

Tudo isso pra dizer que a exposição no Mori Art Museum* em Tóquio é imperdível. Conceitos sofisticados são traduzidos em peças de formas simples, executadas com técnicas artesanais. Ai Weiwei não colocou a mão na massa em todas as peças. Na maioria vezes, ele teve a ideia e empregou um time de executores, no caso, artesãos chineses, mestres em marcenaria, gente que domina técnicas milenares. O artesanato, para ele, não é só o emprego de habilidades mecânicas, mas a forma de explorar a natureza dos materiais de uma maneira que só verdadeiros artistas conseguem fazer. A cada obra, Ai presta uma homenagem aos artesãos e à riqueza cultural e humana da China.

Tigela de pérolas - A beleza de cada pérola se dilui na quantidade

Forever - Homenagem às bicicletas, que estão desaparecendo à medida em que a China se moderniza
Uma obra que me deixou de boca aberta foi “Dropping a Han Dinasty Urn” (Derrubando um vaso da dinastia Han). É um conjunto de três fotos que mostram o artista em momentos diferentes: segurando o vaso, soltando o vaso, e o vaso se estatelando em pedacinhos no chão. O tal vaso tinha dois mil anos! Puro vandalismo? Rebeldia? A explicação é um tantinho mais complicada. Ai Weiwei queria mostrar que novas ideias surgem quando quebramos conceitos antigos. Ele destruiu dois mil anos de tradição cultural, mas criou uma nova arte: o conjunto dessas três fotografias, que é a obra em si, um trabalho com uma mensagem forte e ousada sobre os novos valores.
Nessa mesma linha, Ai colecionou uma série de vasos da era Neolítica e mergulhou cada um em tintas de cores fortes e modernas. A pintura pré-histórica não se vê mais, mas os vasos continuam tendo as mesmas formas e funções com roupagem contemporânea. Olhar essas obras dá uma certa dor no coração. São vasos mais antigos que o nosso país! Mas são também objetos que estariam em uma vitrine, expostos como antiguidade ou peça de museu - provavelmente não de arte -, não fosse a intervenção do artista. Ele deu nova vida aos vasos, reciclou o que antes teria apenas valor histórico e transformou em arte.

Vasos da era neolítica com roupagem pop

Mapa da China - Ai usa madeira de templos e construções históricas demolidas pelo governo chinês
Bebi e me lambuzei da exposição que nem se faz com manga. Saí de lá meio anestesiada e de certa forma transformada por causa da beleza das peças, da riqueza das ideias e da força do protesto. Na certa, era isso mesmo que ele queria.
*Pra quem estiver em Tóquio, a exposição vai até o dia 8 de novembro. Mais detalhes, aqui ó: http://www.mori.art.museum/eng/index.html
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