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17 novembro 2009

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Vinho português pode ter salvo vidas durante a gripe espanhola

Publicado por: Mauro Tagliaferri

Lisboa, 17 de Novembro de 2009

Intermináveis vinhedos formam a moldura do vale onde corre o rio douro, no norte de portugal. As uvas vão para as vinícolas da região (onde se transformam, na maioria das vezes, em vinho do porto), e os rendimentos das colheitas, aliados ao turismo, movimentam a economia das cidades ribeirinhas. Uma dessas localidades, que tive a chance de visitar, é a pequena peso da régua, de dez mil habitantes.

O município tem seu corpo de bombeiros que, como acontece em grande parte do país, é formado por voluntários. Trata-se de uma instituição civil e, como tal, permite que seus membros formem associações.

Acontece que o presidente da federação dos bombeiros local, Alfredo Almeida, é um advogado que nunca apagou um incêndio. A vida dele é administrar o presente de 27 corporações de bombeiros. E cuidar, também, do passado delas.

Alfredo escreve crônicas com histórias dos bombeiros de peso da régua e região. Tem um blog e publica artigos num pequeno jornal.

Fazendo pesquisas para seus textos, Alfredo fez uma descoberta, digamos assim, saborosa! Ele encontrou um relato de um voluntário que trabalhou na corporação em 1918.

Naquele ano, a gripe espanhola matou cento e vinte mil pessoas em portugal e pelo menos vinte milhões, no mundo. Em peso da régua não havia ambulâncias, como hoje. Os bombeiros usavam uma maca para carregar os doentes pelas ruas. Trajavam apenas a farda, sem luvas de borracha ou máscaras de proteção.

Para se protegerem contra a doença mortal, os homens bochechavam e bebiam doses de vinho do porto, que tem teor alcoólico superior ao do vinho comum. E, embora não haja prova de que a bebida seja desinfetante, nenhum bombeiro contraiu a gripe na cidade. A tradicional bebida portuguesa pode ter salvo as vidas dos bombeiros do povoado.

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“Eu fiquei maravilhado quando li aquele depoimento. A primeira coisa que fiz foi sublinhar, e disse: tenho aqui uma bela história para contar. Em qualquer época, as pessoas sabem enfrentar as dificuldades. E sabem improvisar para poderem ajudar o próximo", contou Alfredo à reportagem do jornal da record.

E, como é homem de preservar tradições, o presidente da federação dos bombeiros mantém, na própria sede da corporação, garrafas de vinho do porto! Não são aquelas do começo do século passado, mas há algumas raridades, com mais de cinqueta anos e com o rótulo da corporação.Muitas são presentes de vinícolas da região. Normalmente, elas são oferecidas a visitantes ilustres, ou abertas em comemorações dos bombeiros.

Em tempos de gripe a adega já está sendo chamada de "estoque de vacinas". Mas é, também, uma espécie de museu. Esses bombeiros apagam o fogo, sem apagar as memórias.

Um abraço!

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