20 janeiro 2010
Quando a vida vence a morte
Publicado por: Adriana AraújoSe estivesse trabalhando em Nova York quando a terra tremeu no Haiti, talvez eu estivesse agora ajudando a correspondente Heloisa Villela na cobertura de todo o caos que se instalou naquele país.
E eu gostaria de estar lá. É maluco isso, mas nós, repórteres, temos a crença de que quando tudo está arruinado, quando as notícias parecem infernais, o simples fato de poder dizer ao mundo o que está acontecendo pode, de alguma forma, melhorar as coisas.
No caso do Haiti, mostrar ao mundo a tragédia de um povo extremamente pobre e agora arrasado por um terremoto pode significar mobilização, pode apressar a ajuda ao país e encerrar mais rapidamente as disputas políticas que se instalaram após o tremor.
Quem domina o aeroporto da capital, Porto Príncipe? Quem tem a maior tropa? Quem manda no inferno? Aos diabos!
O que importa agora é que a água chegue. Que a comida chegue. Que os anestésicos cheguem para minar a dor de um país quase amputado de esperanças.
O trabalho da imprensa também será de grande valia quando a comoção mundial com a situação dos haitianos passar. Será preciso mostrar ao mundo que, depois da água e da comida, ainda haverá um país pra ser reerguido praticamente do zero.
Será preciso vasculhar os capítulos da história pra mostrar que qualquer tentativa de reconstrução terá de ser feita com os haitianos e não para os haitianos.
Mas agora é sobre aquela palavrinha mágica, esperança, que eu gostaria de escrever.
Muitos de nós, repórteres, temos a necessidade de encontrar, no meio do caos, esperança.
Mesmo longe do Haiti, substituindo o meu amigo Celso Freitas na bancada do Jornal da Record, tive a oportunidade de escrever sobre haitianos que provavelmente nunca vou conhecer. Mas como torci por eles.
O primeiro ainda é um bebê de apenas 2 anos. Ele foi retirado dos escombros da casa onde vivia 50 horas após o tremor. O menino foi salvo por bombeiros da Bélgica e da Espanha. Tinha ferimentos no rosto e na cabeça.
Um fotógrafo da Associated Press revelou cada emoção deste momento.
É, certamente, uma das imagens mais marcantes do terremoto. O rosto do menino se ilumina, os olhos brilham. Ele enxerga vida quando vê a mãe.
Impossível não se emocionar.
A outra história é a de um casal - Roge e Janet.
Ela, uma bancária.
Ele, um marido de fé.
Roge se plantou diante dos escombros do banco onde a mulher trabalhava. Ficou lá durante 140 horas. Ninguém acreditava que poderia haver vida ali, sob toneladas de concreto.
Mas ele acreditava.
E havia.
Aos gritos, chamou pela mulher até que ela respondeu.
Com uma resistência impressionante, Janet saiu de lá cantando pra avisar a morte que não teve medo.
É... Às vezes isso acontece - a vida vence a morte, o amor vence a dor, a esperança vence a desesperança.
Só às vezes.
Mas nós, repórteres, acreditamos que contando ao mundo estas histórias, quem sabe um dia... Elas virem a grande manchete.
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