20 fevereiro 2010
De volta ao Haiti
Publicado por: Heloisa VillelaDe volta ao Haiti. Parece que foi ontem que eu e o Joaquim Leite Neto, repórter cinematográfico da Record, estivemos aqui. Mas lá se vai um mês e pouco. E nós dois desembarcamos de olhos bem abertos, procurando sinais de mudança, melhoria, remoção de escombros, alívio para os haitianos. Vamos às primeiras impressões, que começam no aeroporto de Nova York. Nesses tempos de vacas magras, quando, para comer num avião, o passageiro tem que comprar o que eles oferecem, fomos recebidos com uma farta mesa de guloseimas na fila de embarque. Presente da companhia aérea para celebrar a volta dos voos rumo ao Haiti. Como todos os quitutes vinham carregados de açúcar, passei adiante.
Em Porto Príncipe, agora, uma bandinha improvisada, na qual todos os músicos usavam a camiseta de uma empresa de remessa de dinheiro, anima o ambiente no aeroporto Toussant L’Overture, recém-aberto ao público. Desembarquei na capital do Haiti no primeiro dia de funcionamento para voos comerciais. Na porta do avião, literalmente na porta de saída do avião, dei de cara com dois soldados da força especial do Departamento de Segurança Internal (dos Estados Unidos). Que pais é esse?

Um país complexo, com uma história rica e uma população que me parece um bocado forte. Para aguentar o que os haitianos estão aguentando… A música da tal bandinha cria certo ar de alegria programada. Mas nem tudo é planejado aqui. Tenho certeza de que os sorrisos que eu vi no rosto de vários funcionários do aeroporto, que finalmente voltaram a trabalhar, não tinham nada de programado. Arrisco até o palpite: acho que eles estavam muito contentes de ver um trânsito de passageiros voltando ao país.
O saguão do aeroporto está impraticável. Não se pode usar. Então, todos os passageiros são dirigidos de volta a pista, onde entramos em pequenos ônibus para buscar as malas no que já foi um galpão de carga. Quase todos os passageiros do meu voo, que saiu de Nova York para Porto Príncipe, eram haitianos. A gente sabe logo pelo idioma e pelo jeito que eles conversam. A intensidade do bate-papo dá a impressão de que eles estão brigando. Mas não é nada disso… Volta e meia sai uma gargalhada.
Vi gente que, obviamente, não punha os pés no país desde o terremoto. Conheci um haitiano que mora nos Estados Unidos há mais de vinte anos, mas tinha mulher e dois filhos em Porto Príncipe. Agora, a família toda está em Nova York, e ele desembarcou com uma cadeira de rodas para o amigo que perdeu duas pernas e com a firme intenção de juntar uns caminhões e coordenar algum tipo de limpeza dos escombros, que ainda estão por toda parte.

Nas praças da cidade, duas diferenças visíveis: os banheiros portáteis, instalados em algumas esquinas, e as barracas que se misturam ao acampamento improvisado com ripas de madeira, telhas de zinco e muitos lençóis e toalhas. A falta de barracas para todos os desabrigados criou uma divisão de classes: os que têm um teto de plástico para se proteger da temporada de chuvas, que está se aproximando, e os que têm que enfrentar as enxurradas com paciência. Como me disse um homem, hoje, em um dos vários acampamentos de Porto Príncipe:
_ O que você faz quando chove?
_ Fico em pé, esperando a chuva passar.
Resignação? Acho que não é a palavra certa. A capacidade de resistência dos haitianos é histórica. Vem de longa data. Esse país se tornou uma nação quando escravos e ex-escravos africanos enfrentaram franceses, britânicos e espanhóis. Fizeram alianças temporárias, jogaram uma potência contra a outra, venceram o exército de Napoleão e declararam a independência, criando a primeira república negra livre da história. Então, quando eles param, encharcam-se e esperam a chuva passar… sei não. É bom olhar para além das aparências.
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