24 fevereiro 2010
O atraso da Copa
Publicado por: Luiz MonteiroDemorou, mas a 108 dias para a bola rolar, a Fifa resolveu admitir o que muita gente já suspeitava: o estádio Soccer City, palco de abertura e final da Copa, só vai ser entregue em maio, ou seja, na véspera do evento.
A declaração do diretor do comitê organizador, Danny Jordan, surpreendeu os jornalistas que cobrem o workshop da Fifa, em Sun City.
Não bastasse admitir que o cronograma está atrasado, ao contrário do que os dirigentes vinham declarando nos últimos meses, Jordan pecou na desinformação ao responder sobre quando o estádio estaria pronto, “abril ou maio”.
Ora, se você vai reformar sua casa e precisa oferecer uma grande festa para convidados que vêm de todos os cantos do mundo, a primeira providência é discutir e exigir que o mestre de obras lhe dê uma data exata do término da reforma, não é verdade?
Mas a Fifa e o governo sul-africano não pensam assim sobre a abertura da Copa. Arriscaram alto. E podem não ter o que fazer em caso de algum imprevisto no acabamento do Soccer City. Houve uma época em que a entidade era mais exigente e respeitada ao cobrar metas para realizar um evento desse porte.
O workshop de Sun City sobre medicina esportiva e logística para o mundial teve a presença de 19 treinadores, dos 32 que vão disputar a Copa. Mas a parte logística ficou em segundo plano. O assunto que teve maior destaque foi mesmo as “obras”.
Sobrou até para o Brasil. Na mesma coletiva onde o absurdo do Soccer City foi admitido, o secretário-geral, Jerome Valckie, reafirmou que o Morumbi precisa se adequar às normas da Fifa (o que o Soccer City não fez) se quiser sediar a final ou uma semi final de 2014.
A exigência é que se aumente a capacidade do estádio, rebaixe o nível do gramado e aumente o ângulo de visão para os torcedores. Se isso não ocorrer, o Morumbi poderá receber apenas jogos da primeira fase e das oitavas de final. “Não há uma guerra entre a Fifa e o Morumbi, mas ele precisa se preparar para o Copa”, disse Valckie.
Perguntado se estava perseguindo São Paulo, o segundo homem da Fifa disse na coletiva que essa teoria era “bullshit”, arrancando gargalhadas dos jornalistas. A tradução leve para o termo é “bobagem”. Mas em inglês soa como um termo um pouco mais pesado.
Já na parte técnica, não houve novidades. O italiano Fabio Capello, técnico da Inglaterra, calou os repórteres britânicos ao dizer que estava satisfeito com o hotel que lhe foi oferecido como concentração. A mídia dizia que as instalações eram modestas demais e não atendiam ao projeto da delegação.
Dunga também se disse satisfeito com o andamento das obras no hotel de Randburg, onde o Brasil vai se concentrar, a 12 quilômetros de Johanesburgo. O local na verdade é um clube de golfe, e se prepara para a inauguração do hotel.
Sobre o campo de treino da seleção, o treinador preferiu fazer mistério e não deu certeza sobre a escolha. Disse apenas que quer um local com privacidade, para evitar o oba-oba que foi em Weggis, na Suíça, em 2006, onde a CBF cobrava ingressos dos expectadores e as torcedoras invadiam o campo durante o treinamento para beijar jogadores.
Perguntado mais uma vez se chamaria Ronaldinho Gaúcho, o treinador foi evasivo. E alfinetou a imprensa: “Cada jornal tem seu interesse. Tem site aí que aconchega determinado jogador e pede convocação”.
Perguntei se a imprensa ajuda ou atrapalha neste momento. Curiosamente o técnico afirmou que a imprensa faz o papel dela.
De Carlos Alberto Parreira eu quis saber se ele já tinha montado um esquema para enfrentar a França, durante a primeira fase. O técnico da África do Sul disse que só está pensando no jogo de abertura contra o México. Afirmou que se ganhar esta partida, aumenta e muito a confiança dos donos da casa para seguir vivo na competição.
Perguntei também se estivesse no lugar de Dunga ele convocaria Ronaldinho Gaúcho. “O Dunga tá bem ali do lado, vai lá e pergunta pra ele”. Riso geral.
O workshop da Fifa termina nesta quarta-feira com conferências para supervisores das seleções e assessores de comunicação. Dunga deve dar uma olhada mais uma vez no local em que o Brasil estará hospedado durante a primeira fase.
Ao contrário do que nos disse, e ao contrário da Fifa sobre o Soccer City, não deve estar tranquilo quanto ao cronograma. Fala-se que o técnico esteve incógnito na África do Sul há duas semanas para supervisionar as obras.
Daquela vez ele não teve o dissabor de desembarcar só com a roupa do corpo, na última segunda-feira. A mala do treinador foi extraviada no trecho entre Porto Alegre e São Paulo. Na foto oficial do encontro com seus colegas, o treinador era um dos poucos que não trajava terno, como recomendava o cerimonial da Fifa.
Nos despediremos hoje de Sun City. O resort, a 160 km de Johanesburgo, foi construído ainda na época do Apartheid e agora recebe turistas de todas as partes e todas as raças. Os principais atrativos são os cassinos, piscina com onda e o The Palace, único hotel seis estrelas do continente.
É um lugar realmente bonito. Há de se tomar cuidado com a segurança. Babuínos rondam as suítes em busca de comida. Flagrei dois deles agindo num quarto onde o hóspede desavisado esqueceu a janela aberta.

"Ladrões" agem nos hotéis do complexo turístico em busca de comida
Outros hotéis fazem parte do resort. Para conseguir um quarto, recomenda-se fazer reservas com pelo menos duas semanas de antecedência. Há ainda outras atrações como um parque de crocodilos, safáris e lagos com jet ski.
Uma diária num hotel três estrelas sai por cerca de R$ 400. Mas é bom se certificar sobre os regulamentos de cada estabelecimento. Um deles proibiu o banho de piscina dos hóspedes depois das seis da tarde. O motivo não foi informado.

Piscina em Sun City: banho só até às 18h
Apesar de ser um resort, onde as pessoas vão para se divertir e relaxar, Sun City impões horários rígidos. Um dos melhores restaurantes do local fecha a cozinha às 22h, quando vários turistas aindam estão chegando dos passeios para jantar.

Hotel The Palace, seis estrelas
Se o conservadorismo sul-africano não mudar logo, os torcedores que virão para a Copa podem se decepcionar.
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