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4 março 2010

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Os micos sul-africanos

Publicado por: Luiz Monteiro

Quando a Marinha brasileira apreendeu barcos pesqueiros da França que capturavam lagostas em nosso litoral, nos anos 60, o ex-presidente francês Charles de Gaulle teria dito que o Brasil não é um país sério. "Le Brésil n’est pas um pays sérieux", afirmou. Hoje tive a sensação de que a África do Sul também não é um país sério.  

Faltando cem dias para a bola rolar, a prefeitura de Johanesburgo convidou personalidades e jornalistas para a cerimônia do “Handover” do estádio Soccer City, onde acontecerão oito jogos da Copa, incluindo abertura e encerramento. A palavra em inglês tem o significado de “entrega”. E quando se anuncia algo desse tipo e convidam a imprensa, imagina-se que a obra estará pronta. Mas, pasmem, não está.

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Muito ainda há o que se fazer nas dependências do estádio, sobretudo na área externa. O túnel de acesso ao gramado ainda é sustentado por vigas provisórias. Muitas salas destinadas a lojas, restaurantes e vestiários ainda carecem de retoques. É claro que tudo estará pronto antes do dia 11 de junho. Estrutura, arquibancadas, telões e gramado estão, sim, na mais perfeita ordem. Mas não venha o seu prefeito Amos Masondo me enganar que eu não caio nessa. Quiseram entregar o estádio faltando cem dias para o início da Copa e pagaram mico.

A manchete do Star, principal jornal do país, diz que o estádio está pronto para a abertura da Copa (Soccer City ready for Cup’s spetacular opening). Só nas “letrinhas miúdas” explicaram que ainda há o que fazer. Ao comprar o jornal hoje pela manhã, fiquei revoltado com a manchete e voltei ao estádio para fotografar o que eles chamaram de “pronto”.

Ruas de acesso, rede pluvial, portões e área para estacionamento externo ainda são um monte de terra, cascalho e areia. As fotos, tiradas com a câmera que comprei na Feira do Paraguai, em Brasília, não deixam dúvidas. O pior de tudo é que, durante a cerimônia, anunciaram que haveria almoço para a imprensa e convidados. Ao chegar ao restaurante dez minutos depois da maioria, vi que a comida tinha acabado. Perdi minha boquinha.

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O Soccer City foi reerguido onde antes era o FNB Stadium. A obra levou 37 meses para ficar (quase) pronta, ao custo de 3.2 bilhões de Rands, algo em torno de oitocentos milhões de reais. Tem 90.450 assentos, mas a capacidade será reduzida para 87.000 durante o mundial. Aos jornalistas foram reservadas 2.700 cadeiras.

Mas não há telas de  LCD de 15 polegadas para acompanhar a transmissão dos jogos, como vi em Wembley, em Londres. A cadeira mais distante do centro do gramado está a 105 metros. O estádio tem 51 metros de altura.

soccer city interno blog Os micos sul africanos

Nove milhões de tijolos e 90.000 metros cúbicos de concreto foram utilizados na construção. A empreitada gerou 70.000 empregos diretos e indiretos. Foram 13 milhões de horas trabalhadas, e o que é melhor, nenhum operário se feriu com gravidade durante o expediente.

O projeto recebeu três prêmios de arquitetura e engenharia. Pisar no gramado e olhar ao redor foi uma experiência impressionante. A forma do estádio é de Calabash, uma espécie de panela muito usada no continente africano para armazenar água e alimentos onde há escassez desses gêneros. Mas ainda acho que o Moses Mabhida, em Durban, é mais bonito.

Ainda falando sobre a seriedade do país, o presidente da África do Sul, Jacob Zuma, irritou-se com o jornalista Stephen Robinson, do impresso britânico Daily Mail, que o classificara como um “sexobsessed”. No bom português, tarado sexual. O presidente ficou indignado e soltou impropérios contra o jornalista.  

Robinson foi entrevistado ao vivo na Kaya FM, de Johanesburgo. Alguns ouvintes ficaram revoltados porque votaram no partido de Zuma e disseram que o jornalista não tinha moral para criticá-lo. O motivo, segundo eles, é que o repórter é inglês, e o ex-premier Tony Blair foi responsável por várias mortes no Iraque. Eu é que não vou nessa rádio.

Vão dizer que não posso dar opinião por causa das mortes cruéis causadas por Luis Alves de Lima e Silva, o Duque de Caxias, durante a Guerra do Paraguai. Zuma tem quatro esposas e 20 filhos. A cultura Zulu, da qual ele faz parte, permite a poligamia. Mas foi levado aos tribunais antes de se tornar presidente, sob acusação de estupro. Correligionários de Zuma desmentiram a mulher que o acusou, alegando que depois de manter relações, ela teria dormido (literalmente) com JZ e tomado o café da manhã no dia seguinte. A justiça o absolveu.

No último mês, veio à tona outro caso do presidente. A filha do homem forte do futebol sul-africano anunciou que o pai de sua filha de quatro meses é... adivinhe? O próprio, o presidente da República da África do Sul, Jacob Zuma. É como se o presidente Lula engravidasse uma filha do presidente da CBF. Fazendo uma conta básica, descobre-se que JZ, que está no poder há 10 meses, dormiu (sentido figurado) e engravidou uma mulher fora do casamento durante a campanha presidencial.

O episódio poderia ser classificado apenas como um escândalo político ou fuxico da vida pessoal de um indivíduo. O problema é quando o sujeito mais poderoso do país mais desenvolvido do continente, além de ser responsável por dar exemplos aos seus compatriotas, mantém relações sexuais sem preservativo numa nação que tem 11% da população infectada pelo vírus HIV.

É o maior índice de contágio do mundo. E o que é pior, entra e sai governo, e ninguém toma medidas eficazes para controlar e combater a proliferação da Aids na África do Sul. Zuma está em visita à Inglaterra. Foi recebido pela Rainha Elizabeth. A piada contada nas mesas dos restaurantes de Johanesburgo é que um assessor teria alertado a Rainha: “não dê as costas para ele”.

Há oito meses, eu entrevistei o atual ministro da Saúde, Aaron Motsoaledi. Perguntei o que o governo faria para enfrentar o HIV. Ele disse que anunciaria em breve um programa intensivo. A antecessora de Motsoaledi, Mantho Ttshabalala, falecida há alguns meses, dizia que a Aids era uma bobagem e se curava com beterraba e cebola. Até hoje, 800 cidadãos sul-africanos são enterrados por dia – eu disse por dia – no país, em decorrência da doença.

Aaron Motsoaledi blog Os micos sul africanos

Enquanto o ministro da Saúde Aaron Motsoaledi cochila, a Aids mata 800 por dia

O Brasil viu nos últimos tempos várias cenas bizarras: dinheiro na meia, dólar na cueca, oração da propina e tantos acontecimentos cômicos, pra não dizer tristes. Na África do Sul, os políticos também gostam de nos fazer rir. Se estivesse vivo, De Gaulle diria que o Brasil, a África do Sul e tantos outros não são países sérios.

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