9 março 2010
Que lugar é esse?
Publicado por: Catarina HongUm dia desses, encontrei um amigo inglês que - entre idas e vindas - mora no Japão há quase 20 anos. Ele estava contando que da primeira vez que veio pra cá, no início da década de 90, pensou mesmo estar em outro planeta. Era tudo muito diferente do que já havia visto, ouvido, experimentado. Naquela época, não havia internet, e a tv à cabo engatinhava. Duas décadas - e uma revolução da informação - depois, a impressão de quem chega aqui não muda muito. Eu mesma, em 2006, vivi quase um ano de boca aberta.
É por essa lembrança - e porque também estou em falta com o blog -, que resolvi escrever sobre coisas que me surpreenderam nesses 4 anos de Japão.
A minha mais nova descoberta foi no banheiro.
A CULTURA DO LAVABO
Qualquer um pode ficar constrangido com os sons que o corpo produz. Principalmente no banheiro, certo? Só que as japonesas ganham no quesito constrangimento. Se tem uma coisa que elas abominam é saber que outras pessoas estão ouvindo o que elas estão produzido – e imagino que detestam ouvir o dos outros também. O truque é antigo e talvez até universal: dar descarga pra abafar os tais ruídos. Solução não muito ecológica e muito menos econômica. O que se gasta de água – mesmo nos vasos sanitários eficientes do Japão - não é brincadeira.

Nos banheiros do Japão, há tantos botões que é difícil saber onde fica a descarga
Por isso mesmo, há anos inventaram um aparelhinho pra ser instalado ao lado do vaso sanitário chamado otohime (princesa do som ou algo do gênero) e que faz barulho. Quando cheguei ao Japão, eram sons de passarinhos. Hoje em dia, o tema é menos silvestre. É barulho de descarga mesmo. Pois eu sempre achei que o tal aparelhinho era acionado somente em caso de ruídos mais constrangedores, produtos da atividade intestinal. E não é que as japonesas usam o otohime pra fazer xixi também? E eu só descobri isso agora! Elas sentem vergonha até do xixi! Não é coisa de outro mundo?

Muitos banheiros de restaurante têm mais que só papel higiênico. Esse tem até piranha de cabelo. E o incrível é que fica tudo ali. Ninguém abusa.
E olha só, já existe a versão portátil desse aparelhinho. Pode ser útil em banheiros menos equipados, que a gente também encontra no Japão.

Aparelhinho que reproduz som de descarga, versão portátil

Urna em bronze do séc. XIX - Barulho de água para disfarçar os sons constrangedores dos japoneses de antigamente
É que no mesmo país de infinita criatividade sanitária, onde há privadas tecnológicas, com tampa que se levanta sozinha, assento aquecido e duchas (ou bidês acoplados ao vaso) para as mais diversas funções, é muito comum a gente também encontrar fossas. Tudo bem que elas são revestidas de porcelana, com descarga, tudo direitinho. Mas ainda assim, nada mais são que buracos no chão. E não é só no interior do país ou em banheiro de parque público que a gente encontra. Em prédios da metrópole e até no aeroporto, tem banheiro assim. São as contradições que mais reforçam a ideia de que esse país é mesmo um planeta diferente.

Em porcelana, com descarga, mas ainda assim, buraco no chão
Assista aqui ao vídeo educativo japonês para crianças que estão largando a fralda - ou para mães e pais que não veem a hora em que isso aconteça.










