9 março 2010
Uma questão de estilo
Publicado por: Luiz MonteiroSegunda-feira, 22 de fevereiro de 2010. Correspondentes de três emissoras de TVs e de um site brasileiros estão no Aeroporto Oliver Tambo, em Johanesburgo, a espera do técnico da seleção brasileira. Dunga foi um dos últimos passageiros a desembarcar. A mala dele foi extraviada. O técnico caminha pelo saguão sem ser importunado. Não há tumulto de repórteres ou torcedores em cima dele. Olha com desdém para os jornalistas e não fala nada. Tento quebrar o gelo, abaixo o microfone para ele perceber que não se trata de uma entrevista, pergunto se o andamento das obras no hotel onde a seleção vai ficar está dentro do cronograma. Ele acena com a cabeça uma vez, em sinal de positivo, mas não abre a boca. O assessor de imprensa da CBF, Rodrigo Paiva, informa que entrevistas só no dia seguinte.
Terça-feira, 23 de fevereiro. Cumprindo determinação da Fifa, o técnico concede entrevista coletiva. A um site brasileiro, reclama de pressão pra convocar jogadores que teriam “aconchego” da empresa.
Quarta-feira, 24 de fevereiro. Dunga está um pouco mais solto e conversa informalmente por 20 minutos com os mesmos jornalistas brasileiros que foram recebê-lo no aeroporto. Ao se despedir, confirma que vai visitar o campo de treino da seleção no dia seguinte, mas não quer jornalistas por perto. Dunga é um vencedor frente à Seleção brasileira. Não entendo seu mau humor.

Foto por: AFP
Duas semanas depois, quinta-feira, 4 de março de 2010. A pedido do programa Esporte Fantástico, da Rede Record, estou finalizando uma matéria sobre acomodações das seleções para a Copa. Peço à produtora Cheryl Uys-Allie para ligar pra Safa, a Confederação de Futebol, para marcar uma entrevista com Carlos Alberto Parreira. O técnico da África do Sul embarcaria no dia 7 rumo ao Brasil, onde vai ficar durante um mês fazendo amistosos contra Botafogo, Fluminense, Volta Redonda e Cruzeiro. Eu sabia que a Safa não nos ajudaria em nada. Tudo na África do Sul é burocrático demais. São raras as exceções. Para fazer um simples pedido de entrevista você precisa ligar para 10 pessoas, escrever 20 e-mails e aguardar 7 dias para ouvir um “não”. Da outra vez que falei com a Assessoria de Imprensa da Federação, quando Joel Santana era o técnico, pedi uma informação simples. Queria saber quantas vitórias, empates e derrotas haviam ocorrido até aquele instante sob o comando de Joel. O assessor pediu para eu ligar 24 horas depois. Liguei em 48 e ele não sabia a resposta.
Sexta-feira, 5 de março. Por acaso encontro Carlos Alberto Parreira em Sandton City, maior shoping Center de Johanesburgo. Ele está sentado à mesa de um Café, quase que no meio do corredor do shoping, onde dezenas de pessoas caminham. Estranhei porque Parreira é muito conhecido aqui. Talvez a personalidade mais importante da África do Sul às vésperas da Copa. Mesmo assim ele não se importou em fazer uma reunião com um assessor praticamente em público. Por onde passa, torcedores o cumprimentam ou pede para tirar fotos. Ao lado dele, o preparador físico da seleção sul-africana, o também brasileiro Francisco Gonzales. Eles me reconhecem e me cumprimentam. Parreira me convida para sentar. Está cheio de folhas onde faz anotações e rabiscos. Antes de fazer qualquer pergunta boba pra iniciar uma conversa, Parreira me conta entusiasmado sobre o campo de treino onde a equipe dele vai se preparar pra Copa.
Em menos de 5 minutos me levanto para me despedir. Não estou em serviço e meu cinegrafista não está por perto. Não sou amigo de Parreira, portanto acho de bom tom deixá-lo a vontade com seu auxiliar. Antes de ir embora os convido para irem a minha casa no dia seguinte, quando iria comemorar meu aniversário. Digo que outros colegas jornalistas brasileiros estarão presentes. Parreira leva a mão à cabeça: “poxa vida, logo nesse fim de semana que estamos ocupados com o planejamento da preparação”, se lamenta. Antes de ir embora Parreira e Gonzales se levantam e me desejam parabéns.
Domingo, 7 de março, 7h50 da manhã. Eu e o cinegrafista Douglas Oliveira estamos no aeroporto internacional de Johanesburgo. Já que a Federação de Futebol não me deu bola, ficamos de tocaia aguardando a chegada do treinador, na esperança de gravar informalmente. 20 minutos depois chegam os 3 brasileiros da Comissão. Parreira, Gonzales e o auxiliar-técnico Jairo Leal. Parreira me vê, dá os parabéns de novo e pergunta: “como foi o aniversário?” Leal se aproxima e Parreira o alerta: “Jairo, foi aniversário dele ontem”. Leal me cumprimenta. Microfone a câmera ligados, fiz 3 perguntas ao técnico dos anfitriões da Copa do Mundo, agradeci e o desejei boa viagem.
Repórteres são chatos. Sempre querem informação das fontes. São pagos para informar seus leitores ou telespectadores. Milhares de pessoas diariamente ligam a tv, compram um jornal ou acessam a internet para saber notícias de seus clubes. Treinadores de seleções em época de Copa do Mundo ouvem as mesmas perguntas 10, 100 vezes. As vezes ouvem críticas porque o futebol é uma paixão e cada cidadão tem uma opinião. Faz parte do cargo e eles sabiam disso quando aceitaram ou pediram o emprego.
Há dias em que o técnico, um ser humano como outro qualquer, tem problemas demais na cabeça e não se sente bem para dar entrevistas. Não custa cumprimentar o jornalista e dizer que naquele dia não vai falar. Parreira passou o Diabo antes da Copa de 94. Foi chamado de burro e teimoso durante muito tempo. Sempre cumprimentou e tratou bem os jornalistas. Mesmo aqueles que o criticavam duramente em público. Voltou dos Estados Unidos como campeão do mundo. Mesmo rico e com o título no currículo continua uma pessoas simples.
Teremos 32 treinadores e muitos jornalistas no mundial da África do Sul. Torço para que a convivência entre os dois grupos seja a melhor possível. Quando cada um faz sua parte, quem sai ganhando são milhares de torcedores ao redor do mundo.

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