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29 março 2010

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Fome de atum

Publicado por: Catarina Hong

Sempre que vou ao Brasil, tem quem me pergunte se eu como sushi e sashimi todo dia. Não, sushi-e-sashimi não são como feijão-com-arroz. São, vamos dizer, como feijoada: a gente come uma vez por semana, e olhe lá. Mas, sendo peixe cru - talvez infinitamente - mais leve que feijoada, mais de uma vez por semana também vai bem.

Só que ultimamente tenho evitado. É que está pesando. Não no estômago e nem tanto no bolso, porque não é assim tão caro. Mas na consciência. O sushi predileto de quase todo mundo por aqui é o atum, consumido com voracidade.

A insaciável indústria pesqueira despeja nos portos do Japão 50 mil toneladas por ano. É um comércio pesado e milionário. Um só peixe pode custar mais de US$ 100 mil (R$ 180 mil), valor que depois se multiplica a cada fatia de sushi ou sashimi. O atum é um peixe enorme e faminto, mas não tão guloso como nós. A quantidade nos oceanos vem diminuindo. Os barcos de pesca voltam cada vez mais leves.

Na semana passada, a proibição de exportação do atum azul do Atlântico, o mais nobre e o mais ameaçado, foi um dos assuntos mais quentes da Cites, a Conferência sobre o Comércio Internacional de Espécies Ameaçadas da Fauna e da Flora Silvestres, em Doha. Venceram os comedores de atum. Os japoneses, principais defensores da pesca, alegam que é preciso pesquisar mais e que há outros meios de regular o comércio e recuperar as populações de atum. Parar de comê-los definitivamente não é um deles, afirmam os japoneses.

DSC025951 224x300 Fome de atum

Ootoro derrete na boca

O azar do atum é ele ser um peixe danado de gostoso. No Brasil, é mais comum encontrarmos a parte vermelha, o akami. Mas a "picanha" do atum é o ootoro, que é a carne da barriga, mais rica em gordura. É uma carne rosada, quase amanteigada, que de verdade, derrete na boca.

Depois do ootoro, tem o chu-toro, também rosado, delicioso e um pouquinho mais barato. Enfim, o atum está para o japonês assim como o boi está para o brasileiro. É peixe-boi mesmo! Pode pesar mais de 200 quilos e ser maior que um golfinho, como pude ver bem de perto numa fazenda de atum em Kushimoto, na província de Wakayama, sul da ilha de Honshu.

Está na reportagem que foi ao ar no Jornal da Record. Visitamos o campus marinho da Universidade Kinki que estudou a criação de atum por três décadas. E só há oito anos conseguiu a reprodução em cativeiro. Os responsáveis pelo estudo desenvolveram uma técnica de criação em sistema fechado, ou seja, eles reproduzem o peixe ali mesmo, a partir da ova.

Uma técnica complicada. Só 3% das ovas sobrevivem. Mas ainda assim, é mais rentável que a pesca, diz Okada, o responsável pelo projeto. E a alternativa só não é 100% sustentável porque a alimentação do atum continua sendo peixe pescado no mar, como a cavala. A universidade está desenvolvendo uma ração a base de proteína vegetal, mas Okada-san confessou que o sabor do atum não deverá ser o mesmo.

 Fome de atum

Futa Nagao, nosso repórter cinematográfico pescando imagens

Perguntei ao diretor da faculdade se então não seria o caso de fazer uma campanha de conscientização sobre a ameaça aos atuns. Segundo ele, é muito difícil fazer as pessoas pararem de comer. Mas a verdade é que o consumo de atum azul vem caindo. E a explicação está na economia. O atum azul é um luxo, uma iguaria mais cara que qualquer outro atum.

Não é todo dia que o brasileiro come uma picanha maturada ou um filé mignon, não é mesmo? A diferença é que atum não é boi. Apesar de alguns projetos de piscicultura, como o da Universidade Kinki, o atum é ainda um peixe selvagem, que está ameaçado de extinção. Se não conseguimos parar de comê-lo, não precisamos devorá-lo. Que tal apreciarmos atum, assim, de vez em quando? Dou minha palavra. Fica até mais gostoso.

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