post-icon

19 abril 2010

comentarios-icon3 Comentários »

A fila da Fifa

Publicado por: Luiz Monteiro

Na mesma semana em que milhares de desistências de reservas em hotéis para a Copa do Mundo foram anunciadas, os sul-africanos deram duas respostas ao mundo. A primeira: eles vão, sim, prestigiar o mundial, nos estádios. A segunda: a nação, que um dia foi dividida por raças, dará mais um passo rumo à integração. 

No final de janeiro desse ano, os representantes da Fifa anunciaram constrangidos que menos de 60 mil ingressos haviam sido vendidos nos seis países do continente que irão disputar o mundial. Alguns tentaram explicar que o problema era a falta de voos e de assentos suficientes nas companhias aéreas que ligavam Argélia, Gana, Camarões, Nigéria e Costa do Marfim ao país da Copa. Mas, e a África do Sul, que não dependia de viagens internacionais para ocupar os estádios? Por que não estava vendendo tickets de acordo com o esperado? Ninguém soube explicar.

Suspeitamos o que estava ocorrendo depois do dia 27 de janeiro, quando a Fifa divulgou os resultados parciais da venda de bilhetes. Conversando com cidadãos nas ruas, eles explicavam que o preço estava caro e o tradicional sistema de vendas por internet era complexo e não dava segurança ao consumidor de que ele seria atendido. Pelo modelo eletrônico, o indivíduo tem que preencher uma série de espaços em branco para, no final, se tudo ocorrer bem, receber a mensagem que diz que “seu pedido de compra de ingressos será analisado e você será informado no futuro”.

Fora isso, no país onde o acesso à internet ainda é limitado, o desemprego atinge 24% da população e a renda de muitos não passa de três reais por dia, estava claro que a venda por computador não traria um resultado animador. O mistério se desfez na noite do último 14 de abril, véspera da abertura de 11 lojas oficiais de venda de ingressos, nas cidades que vão sediar os jogos. Eram 11 da noite quando resolvi pegar o carro e passar em frente a uma das filiais que seriam abertas no dia seguinte, a duas quadras da minha casa. Na noite fria, de 14 catorze graus, vi centenas de carros estacionados junto ao meio-fio da Rivonia Road. Cerca de 600 pessoas estavam amontoadas em frente à loja, que só abriria às 9 da manhã do dia seguinte. Liguei na hora para o cinegrafista Douglas Oliveira, que se preparava para dormir: “pega o equipamento, vamos filmar”.

Brancos negros fila blog A fila da Fifa

Brancos e negros na fila por ingressos

Homens, mulheres, jovens e adolescentes levaram cadeiras dobráveis e cobertores para receber as senhas e poder comprar seus tickets no dia seguinte. Perguntei a uma senhora de uns 60 anos se não era mais confortável adquirir o bilhete pela internet. “Não, a emoção é chegar ao guichê e receber meu ingresso na hora”, respondeu.

No dia 15, quando as lojas abriram, a procura foi tão grande que causou lentidão nos computadores da Fifa. A fila dobrava o quarteirão, um princípio de tumulto foi instalado na entrada do prédio, e a polícia mandou várias viaturas para organizar a entrada. Na Cidade do Cabo, um torcedor de 67 anos teve um infarto e morreu na hora. Algumas lojas estenderam o horário de funcionamento e no dia seguinte o movimento já era bem mais tranquilo, com filas menores. Não que havia diminuído o interesse do torcedor, mas o software estava mais ágil, e o atendimento foi acelerado. Mesmo assim, a média de espera foi de três horas até a compra. Os fanáticos pelo futebol não se entregaram. O resultado é que em dois dias, a Fifa vendeu 100 mil ingressos, dos poucos mais de 500 mil colocados à disposição.

A venda nas lojas vai continuar até a Copa. Os preços dos ingressos variam de R$ 35 a R$ 1.500, dependendo da categoria e da fase da competição. Para muitos jogos não há mais disponibilidade, informam os atendentes. “Eles estão tentando empurrar ingressos dos jogos menos importantes”, suspeitava um homem que estava na fila, sem provar a acusação. “Depende do horário em que você compra. No final do dia é mais fácil”, dizia Bruneau Madeau, um camaronês casado com uma brasileira e que vive há dez anos na África do Sul. Coincidência ou não, um jornalista brasileiro que entrou na fila às 4 da tarde e chegou ao guichê duas horas depois, conseguiu comprar dois ingressos para o jogo entre Brasil e Coreia, anunciado mais cedo na mesma loja como “esgotado”. Os assentos eram separados, mas o que valeu para ele foi o acesso garantido.

camarones Bruneau Madeau blog A fila da Fifa

O camaronês Bruneau Madeau exibe seus ingressos

Mas o que mais me impressionou na inauguração das lojas da Fifa foi a alegria das pessoas em poder comprar os ingressos para a Copa. “É uma oportunidade única e eu não vou perder”, dizia um jovem sul-africano. Perguntei a um homem de 71 anos se os tumultos do primeiro dia não o desanimaram. “Claro que não, esperei uma vida pra ver uma Copa no meu país”, disse.

Tudo isso ocorreu dias depois de certa tensão racial, provocada pela morte do ex-lider político Eugène Terre’Blanche, de 69 anos, tomar conta do país e ganhar repercussão internacional. Terre’Blanche era branco e chegou a ser preso na década de 90 por incentivar atentados à bomba para sabotar o início da democracia. Ele defendia a manutenção do Apartheid e a divisão territorial e política da África do Sul entre áreas de brancos e negros, desde que os brancos tivessem autonomia para comandar operações policiais no território negro. Segundo a polícia, a causa da morte foi, por ironia do destino, um desentendimento com dois funcionários negros de sua fazenda, por causa de salários atrasados.

Na África do Sul existe um cidadão nos moldes de Terre’Blanche, só que negro e bem mais jovem. Chama-se Julius Malema, presidente da liga jovem do CNA, Congresso Nacional Africano, partido do governo. Aos 29 anos, cultua ideias racistas e prega a opressão contra os brancos. É um político apegado às regalias do poder e vê conspiração contra os negros em todos os setores. Ultimamente tem sido bombardeado pela imprensa com suspeitas de enriquecimento ilícito. Cansado das declarações absurdas e polêmicas de seu “líder jovem”, o CNA mandou um recado curto e grosso a Malema nos últimos dias: que ele cale a boca.  

Nos primeiros dias de abertura das lojas da Fifa, negros, brancos e mestiços se abraçavam, cantavam e se ajudavam na distribuição de senhas para comprarem seus ingressos. O mesmo aconteceu numa festa de rua que celebrou os cem dias que faltavam para a Copa. “Acho que o futebol vai nos unir ainda mais”, disse Dani Berman, uma jovem branca que guardou lugar na fila para uma amiga negra.

torcedora Dani Berman blog A fila da Fifa

A torcedora Dani Berman acredita que o futebol vai unir ainda mais o país

Terre’Blanche parou no tempo. Há poucos dias, antes de morrer, ainda queria um país segregado. A arrogância de Malema também não o deixará perceber que a África do Sul está amadurecendo. Duas pobres criaturas. As filas da Fifa na última semana mostraram que na arquibancada da vida, há lugar para todos, não importa a raça.

Veja mais:

Brasil no coração dos sul-africanos
+ Veja todas as notícias sobre a Copa da África no R7
+ Todos os blogs do R7

Espalhe por aí:
  • RSS
  • Live
  • del.icio.us
  • Twitter
  • Digg
  • Netvibes
  • Facebook
  • Google Bookmarks

tags-icon Tags: , , , , ,
Ir para a home do site
Todos os direitos reservados - 2009-2011 Rádio e Televisão Record S/A