23 agosto 2010
No táxi, quebrando mitos e implodindo vogais
Publicado por: Vinícius DônolaA Língua Portuguesa – repare - tende a buscar um equilíbrio na distribuição de vogais e consoantes ao longo das orações. Vide o parágrafo acima. O encontro de duas consoantes (“equilíBRio”, “palaVRas”) é compensado pela presença de um hiato (“equilíbrIO”), de um ditongo (“vogAIs”), e o jogo entre os elementos básicos da Língua acaba no empate: quarenta e nove consoantes e quarenta e nove vogais, tem a frase. Nos táxis daqui de Nova York, entretanto, as vogais estão condenadas ao ocaso.
Pelo vidro que separa o banco da frente dos demais, o passageiro pode conferir a licença do motorista. Em letras garrafais, sob a foto do dito cujo, está o nome. Parece-me a transcrição para o alfabeto romano de ditongos inexistentes no Ocidente. Ou a tentativa de sugerir pronúncias que nossa língua jamais será capaz de executar. Estou colecionando nomes no bloco de anotações para, muito em breve, dividir minha estranheza no blog.
Da mesma forma que desconhece vogais, uma boa parte dos 40 mil taxistas da cidade ainda não foi apresentada ao código de trânsito local. Apesar da proibição de uso ao volante, os celulares dos condutores novaiorquinos falam mais do que criança de quatro anos. Do início ao fim da corrida, a criatura que conduz o quase sempre Ford amarelo tagarela sem ponto e vírgula.
Sinal verde para pedestres é outro elemento do trânsito para o qual os senhores taxistas não costumam se atentar. Eles forçam passagem sobre a faixa listrada, e não adianta fazer cara feia. Periga tomar uma buzinada.
Ainda na contramão da lógica, os taxistas - com naturais exceções - têm o péssimo hábito de não largar o passageiro no endereço inicialmente informado. Param perto, indicam o lugar, argumentam que é mais rápido chegar a pé, e fim de papo.
Isto posto, conclui-se que os taxistas são os grande perigo do trânsito em Manhattan, certo? Errado! Uma pesquisa que acaba de ser publicada no The Wall Street Journal joga uma pá de cal na má fama dos bólidos amarelos. De cada cinco acidentes com feridos em estado grave e mortos nas vias de Nova York, quatro são provocados por não-taxistas e por motoristas de ônibus e caminhão. Um terço das batidas tem como causa a desatenção daquela pecinha atrás do volante.
O The Wall Street Journal informou também que a violência no trânsito por essas bandas tem diminuído, apesar do aumento dos celulares per capita. No ano passado, o número de mortes caiu 35%, comparando-se com as estatísticas de 2001. A taxa de acidentes com vítimas fatais em Nova York equivale hoje a um quarto do índice nacional americano de óbitos em colisões. Mérito da polícia ou maior lentidão por causas dos engarrafamentos?
Sigo, enfim, selecionando nomes de taxistas para um próximo post, atentando-me para a chacina das vogais. Talvez, estenda a coleta para os vendedores de cachorro-quente. Para os comerciantes de Chinatown.
Estou adorando desenvolver meu olhar crônico na cidade das consoantes.
Veja mais:
+ Acompanhe os Jogos da Juventude
+ Veja os destaques do dia
+ Todos os blogs do R7












