4 fevereiro 2011
Cairo, dias de fúria
Publicado por: Herbert MoraesO fato de morar em Israel e vir para o Egito para uma cobertura complicada como os protestos que acontecem há 11 dias torna o trabalho ainda mais perigoso. Os dois países têm um acordo de paz, mas é uma relação fria. E com um visto de trabalho com carimbo de Israel, numa terra onde os israelenses são odiados a situação é ainda mais complicada.
Os problemas começaram no aeroporto. Mesmo com o passaporte brasileiro o que muitas vezes nos países do Oriente Médio é um salvo conduto, a entrada não foi nada fácil. Depois de passar pelo serviço de imigração egípcio, a próxima missão era arrumar um carro que me levasse para o centro da cidade onde fica o hotel em que estou hospedado. A distância é de 25 km, mas o aeroporto estava vazio. Só alguns jornalistas que vieram no mesmo vôo e funcionários do aeroporto. Uma imagem surreal. Já estive no Egito outras vezes, e ver um dos aeroportos mais confusos e lotados do mundo completamente vazio foi uma experiência e tanto. Consegui um motorista simpático e prestativo que não colocou empecilhos em me levar para o hotel, apesar de ter chegado numa hora em que os carros estavam proibidos de circular na cidade devido ao toque de recolher.

Ao longo do caminho avistei milhares de civis nas ruas. Adultos, adolescentes e crianças portavam armas caseiras que iam desde facas de cozinha, pedaços de pau com uma faca amarrada na ponta, armas de caça, enfim tudo o que podiam para evitar os saques que naquele dia assolavam bairros inteiros no Cairo devido a fuga de prisioneiros das penitenciárias. Passamos por pelo menos 70 postos de controle. Alguns do exército e outros improvisados por moradores. Todos queriam saber quem estava no carro e para onde ia. Com sorte cheguei ao hotel.
No dia seguinte, ao começar a trabalhar, segui para um posto de gasolina com o meu cinegrafista para mostrar os problemas que o Egito vivia naquele momento como a falta de comida, dinheiro nos caixas eletrônicos e combustível. Mal começamos a gravar e um policial à paisana nos interrompeu. De repente haviam cinco deles a nossa volta. Pediram a nossa documentação e nos levaram para uma delegacia local. Cinco horas de explicações e sermões. Eu dizia que estava ali para mostrar os problemas que os egípcios estavam vivendo, e tive que ouvir de cabeça baixa e concordar com o policial que aos berros me disse que o Egito não tinha problemas. Não sei como nem porque nos liberaram.
O segundo dia de trabalho foi "normal". Fomos para a praça Tahrir acompanhar a marcha de um milhão de pessoas que pediam a saída de Mubarak. Apesar da quantidade assustadora de pessoas, os protestos até então eram pacíficos. Mas na quarta-feira tudo mudou. Chegamos cedo à praça que ainda acordava da noite anterior de protestos. De lá seguimos para o escritório da Associated Press de onde fazíamos a geração de imagens captadas, já que até então não havia internet. Depois voltamos para a praça, e quando chegamos o cenário já era diferente. Homens faziam um cordão humano para impedir que manifestantes pró-Mubarak entrassem na praça.
De repente começou o confronto. Aos poucos os ânimos foram se exaltando, até que vimos uma cena de guerra civil. Pedras começaram a voar pra todos os lados. Quase fui atropelado por um cavalo que surgiu do nada. O homem que estava cavalgando foi retirado e espancado na minha frente. E os manifestantes começaram a nos ameaçar. Era hora de deixar o local. A "missão" era encontrar uma saída no meio do caos. Nessa hora o desespero não tem espaço. O foco era sair dali. Passamos pela multidão que xingou a mim e ao meu cinegrafista. Até que uma garrafa plástica, creio que com água, atingiu minha cabeça e recebi alguns ponta pés e socos nas costas. Conseguimos sair do meio da multidão e voltar para o escritório da AP. Ainda bem, com o nosso equipamento intacto.

Algumas horas de trabalho gerando o material captado. Já eram dez da noite. E sabíamos que ainda havia mais pela frente. Do escritório da Associated Press até o hotel são 2 km. E tínhamos que vir a pé. Colocamos a câmera num saco preto de plástico, desses de lixo e seguimos. Para tentar disfarçar ainda mais sujamos nossas roupas e rosto para parecer que éramos parte dos que estavam voltando do protesto e carregamos a câmera como se fosse qualquer coisa menos um equipamento de televisão. Uma hora depois conseguimos chegar ao hotel. Ainda bem que são e salvos!!!
Há dois dias realizo a cobertura dos protestos no Cairo da sacada do hotel. Não podemos mais sair porque corremos risco de vida e o nosso equipamento risco de desaparecer. Hoje fui informado pela segurança do hotel que não posso gravar nem mesmo da sacada porque se a polícia secreta de Mubarak nos avistar filmando pode nos prender a qualquer momento.
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