
As torres gêmeas desabaram na manhã de uma terça-feira, três dias antes da exibição do programa semanal para o qual eu trabalhava. Ao volante do carro, na avenida das Américas, no Rio de Janeiro, recebi a notícia que, num primeiro momento, soou como terrível acidente. Até então, nossa programação para sexta à noite não havia sido alterada.
Segui meu caminho rumo à emissora quando, alguns minutos depois, num segundo telefonema, informaram-me não se tratar de um choque ocasional. Ainda não se sabia da aeronave que destruiria parcialmente o Pentágono, tampouco do quarto avião em poder dos extremistas, mais tarde jogado contra o solo da Pensilvânia. Uma das torres, a sul, estava prestes a desabar.
Ainda na terça, começamos a produzir um programa especial dividido em cinco blocos, cada qual feito por cinco equipes diferentes. Os dois blocos iniciais foram feitos pelas equipes do escritório de Nova York. Coube a mim a terceira parte do programa, gravada e editada no Brasil.
Dez anos depois, moro a seis quadras do Marco Zero, ao redor do qual traço minha rotina e estabeleço minhas relações. Da janela de casa, vejo crescer a torre que, até o mês retrasado, estava encoberta pelo 7 World Trade Center - o primeiro edifício reconstruído, dos sete que vieram abaixo. A torre que salta aos olhos foi batizada de Freedom Tower.
Também de casa, vejo os guindastes que reergueem Lower Manhattan. São altos e muitos. No restaurante que costumo frequentar, a duas quadras do meu prédio, conheci Dominic, um educado e introvertido morador de Nova York que trabalhou 25 anos no topo da Torre Norte. Ele era garçom do Windows on the World, o restaurante que ocupava o andar de número 107. Dominic perdeu o emprego e 76 companheiros de trabalho. Tal qual o sul da ilha, ele se reergueu, sem, no entanto, livrar-se das péssimas lembranças daquele dia.
Antes à distância e hoje vizinho do que era o WTC, vejo o aproximar de mais um "11 de Setembro" com o olhar de jornalista, mas vivencio a experiência com uma proximidade que me permite ser levemente parcial. Sinto o pesar de Dominic e de outros com os quais convivo. Também me sinto agredido, sem, contudo, fiar-me ao contexto político que possa ter fomentado a ira extremista.
Nesse pedaço de mundo dentro do território americano, vítimas de mais de 70 países morreram em Lower Manhattan. Assim como eu, estrangeiros, trabalhadores e civis. Cinco também eram brasileiros.
Domingo, assistirei a mais uma cerimônia no Marco Zero, durante a qual serão lidos os nomes das pessoas que ali ficararam. Quarenta por cento das vítimas não foram identificados até hoje. Talvez, no futuro, novas tecnologias levem os peritos a identificar pequenos os milhares de fragmentos que foram retirados dos escombros.
Da janela de casa, assisto à história dia após dia e me pergunto, inconformado: Por que fizeram isso com meus vizinhos?
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Tags: Freedom Tower, Lower Manhattan, Marco Zero, nova york, Pensilvânia, restaurante, torres gêmeas, world trade center